Uma breve história da gravura na Bahia

Uma breve história da gravura na Bahia
Xilografia de Mestre Duda, “Porto da Barra”, 1992.

        Falar sobre a gravura na Bahia, e principalmente sobre sua história, não é tarefa fácil, devido, sobretudo, à ausência de livros específicos sobre o tema e às poucas fontes disponíveis, como os tradicionais jornais, catálogos, folhetos e entrevistas com os artistas gravadores que escreveram esta história, tais como: Juarez Paraíso, Julian Wrobel, Renato Viana, Sonia Rangel, etc.

        Desde o aparecimento da Arte Moderna na Bahia, na década de 1940, que a expressão através da gravura é utilizada, a princípio, com Mário Cravo, que realizava litogravuras e gravura em calcografia (água-forte e água-tinta). Depois as diversas variantes da técnica foram sendo utilizadas, destacando-se as gravuras em metal de Yêdamaria, as xilogravuras de José Maria e as serigrafias de Renato da Silveira. Desde a década de 1950, a produção de gravuras era uma prerrogativa exclusiva da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA/UFBA) até a implantação das Oficinas de Arte em Série no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM/BA), nos anos da década de 1980, dirigidas por Juarez Paraíso e criadas por Francisco Liberato. Outro polo importante de difusão e criação de gravuras foi o Instituto Cultural Brasil-Alemanha (ICBA), que na época era dirigido pelo admirador das artes gráficas, Roland Schaffner, tendo este sido um dos criadores da Galeria Cooperarte, promovendo oficinas de serigrafia realizadas por Renato da Silveira. Outra importante contribuição para a gravura baiana foi a criação da Galeria Bazarte, pelo Senhor José Marques Castro, que ajudava dezenas de jovens artistas, às vezes até os hospedando em sua galeria, e onde eram realizados debates, palestras e exposições, o que deu forte impulso a um então emergente mercado de gravuras, que efectivamente não se concretizou. A Bazarte tem o mérito de ter criado e publicado quatro álbuns de artistas gravadores baianos, algo inédito até os nossos dias, realizado por uma galeria. Estes álbuns são na verdade uma coleção de gravuras de diversos artistas ligados ou convidados pela galeria e são hoje em dia considerados como uma raridade e bastante disputados por colecionadores e apreciadores da gravura. Participaram destes álbuns os seguintes artistas: Adam Firnekaes, Ângelo Hodick, Eckenberger, Edison da Luz, Edvaldo Souza, Eduardo Reis, Estivalet, Gilberto Oliveira, Gley, Jamilson Pedra, Kabá Gaudenzi, Sônia Castro e Terciliano Junior.

        A criação da Galeria Convivium, de propriedade de Albertoni e Liana Bloisi e dirigida por Juarez Paraíso, resultou em mais um importante centro de distribuição para a gravura. Concebida desde o início para ser uma galeria de vanguarda, criou importantes exposições como A Gravura na Bahia, em 1965 e a Primeira Feira de Gravuras da Bahia, em 1966. É necessário dizer que a galeria faliu justamente por não fazer concessões e promover exposições sem fins comerciais, apenas pela vontade de expor obras de vanguarda. Nesta época, foi realizado um filme-registro, em 35 milímetros, com cerca de trinta minutos de duração, sobre os gravadores baianos da década de 1960 que foi projetado no hoje extinto, Cine Rio Vermelho. Em 1976, foi também produzido um áudio-visual sobre A Gravura na Bahia, que foi exibido em diversos bairros populares da cidade de Salvador, e no Museu de Arte Moderna da Bahia com patrocínio da Prefeitura. Foram realizadas algumas retrospectivas, destacando-se a do Museu de Arte Moderna, em 1977, que também foi patrocinada pela Prefeitura. 

        Com relação às técnicas de reprodução seriada como a gravura e seu consumo como obra de arte pela população na Bahia, infelizmente até hoje em dia, ainda predomina um forte preconceito, quanto a sua durabilidade e sua exposição em relação à umidade, já que vivemos em uma cidade predominantemente litorânea. Talvez por este motivo os colecionadores e instituições têm certo receio em tê-las em seus acervos, resultando em um mercado inexistente para a gravura, sem nenhuma galeria específica para esta modalidade. 

        Com as novas tecnologias, surgiram novos tipos de papéis e tintas, que utilizam muito menos química em suas composições, resultando em uma durabilidade maior, se comparada com os antigos que criavam fungos, pois os papéis tinham em sua composição o ferro, que oxidava e amarelava facilmente. Existe também um problema de mau acondicionamento da gravura em molduras que não respeitam a distância mínima exigida em relação à parede. Com todos estes fatores, que dificultavam a circulação da gravura como técnica artística, foi louvável a iniciativa de Antonello Labatte com o Clube de Gravura da Bahia, no final da década de 1990, em resgatar e tentar estabelecer, ao menos, um mercado emergente para a gravura, iniciativa que também resultou infrutífera. 

        A gravura possibilita algumas vantagens em relação a outras técnicas de arte, pois permite que seja reproduzida em série e com custo mais baixo para aquisição, o que pode ser perfeitamente comprovado através da literatura de cordel, que tem suas capas e ilustrações produzidas e reproduzidas em xilogravura, de impressão manual com colheres. Até hoje, o período mais significativo da gravura na Bahia, deu-se nos anos da década de 1960, impulsionado pelo desejo dos artistas de expressarem-se através de novos meios e também a criação da oficina de gravura por Mendonça Filho, pelos cursos livres do Museu de Arte Moderna, pelo aparecimento do curso oficial de gravura na Escola de Belas Artes e pela presença de Mestres como, Henrique Oswald, Mário Cravo Júnior e Hansen Bahia. A técnica da xilogravura foi a mais utilizada, portanto a preferida pelos artistas da década de 1960, que eram a segunda geração de artistas modernos da Bahia, principalmente pela possibilidade que a madeira tem de se valer de novas soluções criativas para a forma/espaço e para o claro/escuro. E principalmente, também, por ser uma das técnicas que não eram das tradicionalmente ensinadas até então na Escola de Belas Artes, que ainda sentia os fortes efeitos da arte acadêmico-realista que era o modo de ensino então vigente na época, que focava o ensino da pintura a óleo em cavalete e o ensino do desenho realista-clássico. 

        Vale destacar que a gravura é uma das mais antigas técnicas conhecidas de representação e reprodução da vida humana, tendo seu uso já sido comprovado na China, muitos anos antes de Cristo. Por ser uma das técnicas de arte das mais versáteis,  permite, por exemplo, a sua utilização com distintos tipos de madeira. Na idade média, substituiu as iluminuras medievais, que era objeto de grande desenvolvimento no Renascimento. Na década de 1960, os artistas baianos deram uma nova feição à xilogravura, graças ao emprego do compensado e da utilização de prensa de alta pressão, utilizada exclusivamente para a produção da gravura em metal. O uso do compensado como matriz foi bastante significativo devido a sua facilidade de corte, a sua plasticidade e a fácil manipulação das diversas camadas e texturas, diferente da madeira de topo, que por causa de sua rigidez e precisão de corte era utilizada amplamente na produção da gravura documental e de reprodução. Graças ao uso do compensado, os artistas passaram a realizar com mais facilidade xilogravuras de maiores dimensões. Nesta época, as formas orgânicas começaram a ser observadas nas gravuras produzidas na Bahia. A utilização do compensado trouxe uma imensa contribuição à gravura baiana, por ser mais barato e de fácil manuseio do que as rígidas madeiras tradicionalmente usadas como como cedro, jacarandá, vinhático e outras madeiras de lei. Quando cortadas produziam uma riqueza de texturas que eram muito apreciadas pelos gravadores, pela facilidade de sobrepôr e retirar as camadas de compensado, quando desejavam. Calasans Neto, foi quem introduziu esta novidade na gravura baiana, além de pioneiro na técnica foi também um artista que soube tirar proveito de todas as nuances e texturas que o compensado poderia proporcionar. Outro fator de grande relevância foi o emprego inadequado da prensa de gravura em metal de alta pressão, que fora emprestada à Escola de Belas Artes pelo crítico de arte e jornalista José Valladares, prensa esta que pertencia ao Museu do Estado da Bahia e que até hoje se encontra, na Escola de Belas Artes. A utilização de uma prensa inadequada é uma das mais fortes características dos gravadores baianos da década de 1960, que por falta de outra prensa na cidade, eram obrigados a dividir a única existente, na Escola de Belas Artes, então situada à Rua 28 de setembro, no Centro Histórico. 

        O primeiro curso de gravura da Bahia foi dado por Poty Lazzarotto, em 1950, no Museu do Estado da Bahia a convite do seu então diretor José Valladares através da Secretaria de Educação. Foi apenas em 1953, que a Escola de Belas Artes criou um curso de extensão de gravura por Mário Cravo Júnior, que fazia principalmente calcografias (água forte e água tinta), curso este frequentado por Calasans Neto, Juarez Paraíso, Raimundo Aguiar, Nilton Silva e Jaime Hora. Vale ressaltar também que foi de extrema importância a vinda de artistas de fora como: Goeldi, Mariana Caran e Marcelo Grassmann, gravadores que dispensam maiores apresentações, durante a década de 1950. Outro fato que merece destaque é a vinda do alemão Karl Heins Hansen para a Bahia e que, em 1957, editara o seu álbum de xilogravuras Flor de São Miguel, já com a temática da prostituição, que seria uma das suas marcas características. 

       Durante quase duas décadas a gravura na Bahia foi praticamente esquecida. Já não se viam mais exemplares da técnica nos grandes salões e bienais de arte que aqui se realizavam. Os artistas dos anos 1990 e início dos anos 2000, pareciam preferir novas tecnologias como a vídeo-arte, a instalação ou a performance como meio de expressão artística. A gravura baiana estava no limbo. Foi somente em meados dos anos 2000, mais precisamente em 2005 que dois jovens gravadores, o paulista William A. e o baiano Adriano Castro, decidiram promover a volta da gravura ao cenário artístico baiano. Em 2005 produziram uma série de exposições tendo as técnicas gráficas como protagonista. E assim neste ano, surgiram as exposições Sim Gravura na galeria EBEC, Não Gravura na galeria Solar Ferrão, O Que é que a Gravura Tem? na galeria Cañizares da Escola de Belas Artes e Aqui Gravura no Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana. Participaram destas exposições os seguintes artistas: Adalberto Alves, Adriano Castro, Baldomiro, Chico Macedo, Erivan Morais, Evandro Sibine, Juarez Paraíso, Juraci Dórea, Marcia Magno, Mestre Duda, Sante Scaldaferri, William A., Denise Pitágoras, Eneida Sanches, Franklin Maxado, Julian Wrobel, Paulo Guinho, Raimundo Mundin, Raquel Rocha, Terezinha Dumet e Yêda Maria. Vale a pena ressaltar que pela primeira vez na Bahia, em um espaço de um ano, quatro exposições foram dedicadas exclusivamente à gravura. A repercussão no meio cultural da cidade foi imensa e enriquecedora para todos os envolvidos nestas exposições, pois formavam uma mescla muito interessante de artistas jovens e consagrados e todos relacionados diretamente com as técnicas gráficas. No ano seguinte o ritmo diminuiu um pouco mas foi possível produzir a exposição Matrizes na galeria EBEC. Esta exibição foi um marco na história das artes gráficas baianas pois pela primeira vez, as matrizes seriam objeto de comtemplação do público, e não mais a gravura em sí. Pela primeira vez as pessoas poderiam ver de onde vinham as gravuras e nesta oportunidade foram expostas matrizes em madeira, metal (cobre, zinco, ferro, etc.), pedra e em telas serigráficas, além de matrizes em isopor, linóleo e acrílico. Mais uma vez foi sucesso de público e crítica. Não podemos deixar de ressaltar o empenho e dedicação que a crítica de arte Matilde Matos dedicou a divulgação destas exposições, não somente contribuido com maravilhosos textos, mas também abrindo o espaço de sua galeria, a EBEC para os eventos. Desta antológica exibição participaram os artistas: Adalberto Alves, Adriano Castro, Baldomiro, Juan Toulier, Mestre Duda e William A. Em 2007 uma vez mais eu e William A., produzimos outra exposição de gravuras chamada Mais Gravura na galeria da Associação Cultural Brasil Estados Unidos (ACBEU) nesta exibição participaram os artistas: Adalbero Alves, Adriano Castro, Baldomiro, Chico Macedo, Erivan Morais, Evandro Sibine, Juarez Paraíso, Juraci Dórea, Marcia Magno, Mestre Duda, Sante Scaldaferri e William A. Neste ano eu recebi um convite da galeria Prova do Artista, para fazer uma exposição individual de gravuras no hotel Sofitel em Sauípe, que também resultou em uma boa acolhida de público e crítica. E finalmente no ano de 2008, produzimos aquela que seria a derradeira exposição dedicada exclusivamente as artes gráficas produzidas na Bahia, até os dias de hoje, chamada 2008 Gravuras Baianas no Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana, desta vez com apenas cinco artistas: Adriano Castro, Henrique Dantas, Mestre Duda, Sante Scaldaferri e William A. Como se pode notar foram quatro anos produzindo e participando de exibições exclusivamente dedicadas a gravura, tentando com isso difundir e fomentar um possível mercado de arte para a técnica. Infelizmente todas estas iniciativas resultaram frustradas. Desde então, a gravura como meio de expressão artística praticamente desapareceu da cena artística baiana e as perspectivas para seu retorno não são animadoras. Já fazem 13 anos desde a última exposição e olhando o cenário para o futuro, não é nada promissor.

        Como se pode perceber, a gravura contemporânea baiana tem uma história riquísima, com artistas consagrados que deixaram um imenso legado gráfico que infelizmente não é reconhecido e valorizado pelas autoridades (Prefeitura e Governo do Estado) e nem pelo mercado através das galerias de arte da cidade. Esperamos com confiança que este cenário um dia possa mudar para melhor para que enfim, a gravura possa reviver os seus áureos dias de glória na nossa querida Bahia.

 

Xilografia de Mestre Duda, “Porto da Barra”, 1992.

O Autor

Adriano Castro, Graduado em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA/UFBA), Mestre em Gravura Urbana pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA/UFBA), Doutorando em Gravura Urbana pela Universidad Politécnica de Valencia (UPV), Espanha. Ex Profesor de Gravura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA/UFBA) nas técnicas de: Xilografia, Calcografia e Serigrafia. Apresentou conferências sobre a gravura em diversos países como: Portugal, Espanha, Brasil, Armênia, Romênia, Itália, Holanda, Suissa, etc. Ex curador da Bienal Internacional de Gravura do Douro em Portugal nas edições de 2014 e 2016 e ex curador da Exposição Internacional de Gravura Global Print em Portugal nas edições de 2013 e 2015. Publicou diversos artigos sobre gravura em diferentes revistas e publicações científicas como: Tribuna Graphic (Romênia), Revista Sonda (Espanha), Revista La Huella (Colombia), etc. É artista gravador há mais de 27 anos, tendo participado das mais importantes Bienais, Trienais e Exposições de gravura em mais de 25 países.