Breve História da Gravura no Brasil (Parte 1)

A Gravura Antes e Depois da Vinda da Família Real ao Brasil
Breve História da Gravura no Brasil (Parte 1)

A história da gravura no país é dividida em duas partes distintas e com cerca de um século de diferença entre elas. A primeira é com a vinda da família real, que fugia das invasões napoleônicas. A corte chegou ao Brasil em 22 de janeiro de 1808, aportando inicialmente na Bahia. Até a chegada da família real ao país, as gráficas eram proibidas de se estabelecer no Brasil, por um decreto da coroa portuguesa. Há algumas antecedências notáveis, por obra dos jesuítas da então capital da colônia, nas notícias sobre prelos clandestinos onde se tentou imprimir livros didáticos, de catequese e de orações, entre 1706 e 1724, seqüestrados por ordem de Lisboa. Ou na aventura do padre José Joaquim Viegas de Menezes que, depois de um estágio em Coimbra, onde adquire conhecimentos práticos e teóricos sobre a gravura e traduz o Traité de Manières de Graver en Taille-douce de Abraham Bosse, volta ao Brasil em 1801 e ensaia aplicar seus conhecimentos nas Minas Gerais. Mas sua obra escassa não chega a produzir continuidades, sufocada pelas possibilidades de penas severíssimas que o uso da prensa no Brasil de então poderia causar, segundo o já citado decreto real de seis de julho de 1747. Para o Brasil, também houve vantagem na transferência da corte portuguesa: a partir do estabelecimento desta corte em território nacional, uma série de medidas veio a dinamizar a economia local. Houve a partir daí a permissão para o funcionamento de manufaturas nacionais, e com isso o caminho para a implantação da Imprensa Oficial estava aberto, e viria a se consolidar anos depois. Assim inicia-se a fase imperial no Brasil, no ano de 1808. A primeira técnica de gravura a se difundir pelo país foi a litografia (que se vale de uma matriz em pedra, sobre a qual se desenha com materiais gordurosos). A litografia era empregada para a confecção de rótulos, convites, cartazes e letras do Tesouro. Pouco depois, propagaram-se a gravura em metal e a xilogravura.

                                                    Impressão Régia, Brasil 1810. Litografia. 


A Imprensa Nacional nasceu por decreto do príncipe regente D. João, em 13 de maio de 1808, com o nome de Impressão Régia. Recebeu no decorrer dos anos, novos nomes como: Real Officina Typographica, Tipographia Nacional, Tipographia Imperial, lmprensa Nacional, Departamento de Imprensa Nacional, e, novamente, Imprensa Nacional, a partir de dois rudimentares prelos iniciais e 28 caixas de tipos móveis (que vieram de Portugal a bordo da nau Medusa, integrante da frota que trouxe a Família Real Portuguesa). A xilogravura abarcou no Brasil pela primeira vez no período colonial, na edição de textos sacros, estampa de tecidos, baralhos e papel de parede. No séc. XIX foi usada na ilustração livros, Bíblias e periódicos e no início do século XX passou a ilustrar as tramas em verso dos folhetos de cordel

Final do Século XVIII Início do Século XIX

Nestes tempos de importantes mudanças na sociedade brasileira e mundial a gravura no Brasil estava ainda incipiente, pois de um lado a xilogravura de cordel estava restrita apenas ao nordeste e inacessíveis aos demais artistas das outras províncias, e por outro lado a gravura em litografia era produzida para jornais e revistas por artistas que aprenderam a técnica na Europa. Existiam pouquíssimos artistas gravadores locais e de sua produção praticamente não restaram muitos vestígios. A vinda da Missão Francesa em 1816, considerada um importante acontecimento artístico na história no Brasil, não produziu grandes frutos com relação à gravura; sua influência nos salões de academia, nas distribuições públicas de prêmios ou nos prêmios de viagens, exclui a gravura. No século XIX um dos importantes nomes que se destacam na área da gravura foi Modesto Brocos, espanhol que veio para o Brasil ainda muito jovem. Com ele teve efetivamente o início o talho doce no Brasil. Foi ele o responsável pela aquisição da Oficina de Gravura do Liceu de Artes e Ofícios, até então a mais importante contribuição à gravura brasileira.

Um importante artista que se tornou fundamental para a gravura brasileira desta época é Modestos Brocos (1852-1936) espanhol nascido em Santigo de Compostela, que em 1871, mudou-se para o Rio de Janeiro. Dedicou-se inicialmente à xilografia e à água-forte e água-tinta (gravura em metal), publicando em 1875, algumas de suas xilogravuras em O Mequetrefe, periódico satírico da época, com forte crítica política e social, estas gravuras são um dos primeiros registros publicados em revistas no país. Nesse mesmo ano, passou a frequentar, a Academia Imperial das Belas Artes, onde teve como professor um grande artista brasileiro, o pintor Victor Meirelles, foi uma figura das mais ativas no cenário artístico fluminense da Primeira República no Brasil e um dos principais responsáveis pelo implemento do ensino da gravura no Brasil, graças especialmente à sua atuação como professor no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Brocos sendo um dos fundadores do Liceu, também estabelece lá a Oficina de Gravura. O artista ao retratar o negro de uma forma digna inaugura um capítulo precursor na história da arte brasileira, a de valorização da cultura negra, em um tempo em que a escravatura era presença marcante na sociedade brasileira. Obviamente isso lhe trouxe embaraços e constrangimentos, mas que não o impediram de continuar produzindo gravuras com esta temática. A verdadeira história da gravura no Brasil está incompleta se não existir ao menos um tópico falando sobre a obra e a vida deste pioneiro da gravura no Brasil que é ignorado muitas vezes por alguns especialistas. Uma das suas séries de gravuras mais famosas era as que retratavam a família real do Brasil em gravuras em metal. Por ter caído nas graças do imperador, ele teve relativa facilidade para produzir suas gravuras e também para poder desenvolver o projeto de criação das Oficinas de Gravura do Liceu de Artes e Ofícios.

                                                  

Modestos Brocos. Retrato do Imperador D. Pedro II. Água-tinta, 1885.

A Xilogravura de Cordel

Na época dos povos conquistadores greco-romanos, fenícios, cartagineses, etc., a literatura de cordel já existia, tendo chegado à península ibérica (Portugal e Espanha) por volta do século XVI. Na península a literatura de cordel recebeu os nomes de Pliegos Sueltos (Espanha) e Folhas Soltas ou Volantes (Portugal). Oriunda de Portugal, a literatura de cordel chegou ao Brasil através dos nossos colonizadores, instalando-se na Bahia e mais precisamente em Salvador. Daqui se irradiou para os demais estados do Nordeste. Como é sabido que a primeira capital da nação foi Salvador, era, portanto, ponto de convergência natural de todas as culturas, permanecendo assim até 1763, quando foi transferida para o Rio de Janeiro. Porém foram em Caruaru em Pernambuco e Juazeiro do Norte no Ceará que a xilogravura de cordel criaria as suas raízes mais profundas. Mais tarde, por volta de 1750 é que apareceram os primeiros registros da literatura de cordel oral, depois de um longo período, a literatura de cordel recebeu o batismo de poesia popular. Os registros são muito vagos, sem consistência confiável, mas Leandro Gomes de Barros, nascido no dia 19 de novembro de 1865, teria escrito A Peleja de Manoel Riachão Com o Diabo, em fins do século passado.

A primeira aparição registrada da xilogravura na Literatura de Cordel foi em 1907, nos cordéis de Leandro Gomes de Barros e Francisco Chagas Batista narrando as aventuras do cangaceiro Antônio Silvino e depois de seu sucessor, Lampião. O artista popular nordestino com ferramentas rudimentares e simples pedaços de madeira usou a técnica secular da xilogravura para retratar seu universo mágico, onde anjos se misturam com demônios, beatos com cangaceiros, envolvidos nas crenças e costumes locais. A literatura popular em versos do cordel inspira a xilogravuranordestina, muito dos xilogravadores são também autores de literatura de cordel tais como: Chagas Batista poeta pioneiro que gostava de desenhar e escrever juntou as suas duas aptidões em uma só, a literatura de cordel e nisso foi pioneiro no Brasil e é dono de um dos mais antigos registros de gravura que se tem notícia no Brasil, de 1907 no Recife. Publica em página interna a estampa de Antônio Silvino, célebre cangaceiro. Na mesma época, Leandro de Barros, também poeta, reutiliza a figura em suas capas. Essa imagem vem a circular até 1925, com pequenas alterações. Na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro encontra-se um exemplar dessa antiga referência do cordel em conservação no Brasil.

                                                        

                                        Chagas Batista. Antonio Silvino, 1907. Xilografia

Inocêncio Medeiros da Costa ou Inocêncio da Costa Nick era do grupo de santeiros do Padre Cícero. Nascido em Pernambuco, em 1897, mudou-se para Juazeiro do Norte aos 15 anos. Foi o primeiro artista a ser publicado em álbum de gravuras populares brasileiras com a seqüência da Via Sacra, em Paris (1965) e a trabalhar por encomenda para um produtor cultural. A paisagem sertaneja é um campo fértil para a imaginação e assim é retratada pelos artistas. Seres sofridos, desprezados, de baixas condições sociais, com pouca leitura, encontram nos traços da gravura popular um campo para se transfigurarem em heróis. A xilogravura nordestina tem como principal característica o olhar voltado para seu próprio universo, destacando a força dramática da realidade sofrida de uma gente ao mesmo tempo frágil e forte, e acima de tudo com uma intensa religiosidade.

Dois estilos foram desenvolvidos no Nordeste, em dois dos maiores centros de manifestações religiosas do Brasil: em Caruaru, Pernambuco, próximo de Nova Jerusalém e em Juazeiro do Norte, no Ceará, terra do Padre Cícero. No primeiro as figuras são destacadas do fundo, e os artistas sofrem forte influência da cerâmica local, que é a vertente artística local mais forte, no segundo o espaço todo está talhado num só relevo e a religiosidade está presente na maioria das obras. Na escola de Caruaru os contornos são claros, na de Juazeiro, há menos contraste entre a massa impressa e o fundo fora da área de impressão. A estética da gravura foi descoberta pela classe média urbana brasileira e pelos artistas a partir da década de 1960 e passou a ser valorizada como estética de resistência à neo-colonização e a dominação cultural. A fase áurea da gravura no Brasil coincide com a explosão do cinema novo, da música popular e com o movimento de revalorização das raízes nacionais nas décadas de 1960 até final da década de 1980 e com isso mais artistas e intelectuais puderam ter contato com a gravura, esta movimentação permitiu um novo caminho para a difusão da técnica com os mais jovens artistas da época. Porém alguns xilogravadores de cordel mantém viva até hoje a tradição e seguem produzindo tanto a sua literatura quanto suas imagens gráficas, e com isso ajudam a continuar difundindo a técnica pelo interior do Brasil. Mas falar da xilografia de cordel e não citar J.Borges, um dos mais famosos artistas da técnica seria um erro grave.

J. Borges nascido em Pernambuco, em 1935, é patriarca de um clã de xilogravadores, é um dos mestres do cordel, e um dos xilogravadores brasileiros mais reconhecidos no mundo. Começou tarde, aos vinte anos, vendendo folhetos de cordel. Antes, trabalhou na roça, foi pintor, carpinteiro, e pedreiro, mas lembra que se alfabetizou para conseguir ler os versos de cordel. Publicou o seu primeiro folheto em 1964, O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, com ilustrações de Dila, um pintor de arte naif bastante conhecido no Nordeste. Vendeu cinco mil exemplares em sessenta dias, o que o deixou realizado. O artista que teve que aprender a fazer as próprias gravuras para ilustrar os seus folhetos. Diz que tudo que aprendeu deveu-se ao medo de cortar cana. Estudou somente dez meses em escola. Hoje, Borges já ilustrou capas de cordéis, livros, discos, e já expôs nos Estados Unidos, Venezuela, Alemanha, Suíça, México e Venezuela. Premiações de instituições nacionais e internacionais revelaram a qualidade da produção artesanal do artista popular. Em sua turnê europeia, percorreu vinte países. Foi tema de uma reportagem no jornal The New York Times, que o apontou como um gênio da arte popular. Atraídos pela riqueza histórica de sua obra, a partir da década de 1970, artistas plásticos, intelectuais e marchands passaram a fazer encomendas de seus trabalhos, fortalecendo progressivamente o cordel e consequentemente a gravura. Atualmente, instalado em um ateliê, construído ao lado da casa onde vive em Bezerros (PE), o antigo deixou para os filhos que seguem o mesmo ofício do pai, seu trabalho influenciou diversos gravadores e cordelistas principalmente no Nordeste e já realizou mais de trezentos folhetos de cordel.

                                     

                                        J. Borges. A Ciranda dos Bichos, 2005. Xilografia


O Autor

Adriano Castro, Graduado em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA/UFBA), Mestre em Gravura Urbana pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA/UFBA), Doutorando em Gravura Urbana pela Universidad Politécnica de Valencia (UPV), Espanha. Ex Profesor de Gravura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA/UFBA) nas técnicas de: Xilografia, Calcografia e Serigrafia.

Apresentou conferências sobre a gravura em diversos países como: Portugal, Espanha, Brasil, Armênia, Romênia, Itália, Holanda, Suissa, etc. Ex curador da Bienal Internacional de Gravura do Douro em Portugal nas edições de 2014 e 2016 e ex curador da Exposição Internacional de Gravura Global Print em Portugal nas edições de 2013 e 2015. Publicou diversos artigos sobre gravura em diferentes revistas e publicações científicas como: Tribuna Graphic (Romênia), Revista Sonda (Espanha), Revista La Huella (Colombia), etc. É artista gravador há mais de 27 anos, tendo participado das mais importantes Bienais, Trienais e Exposições de gravura em mais de 25 países.