A região cacaueira do sul da Bahia vive um novo momento de tensão econômica, com produtores protestando contra o aumento das importações de cacau da África, especialmente da Costa do Marfim.
Em 2025, o Brasil importou 112,8 mil toneladas de cacau, sendo 41,6 mil toneladas da Costa do Marfim e cerca de 70 mil toneladas desembarcadas na Bahia. Os protestos incluíram interdição de rodovias no sul da Bahia no final de semana e mobilização no Porto de Ilhéus em 28 de janeiro de 2026.
Os produtores relatam queda significativa nos preços da arroba, que passou de R$ 1 mil há um ano para abaixo de R$ 300 atualmente, com deságios de até 30% (R$ 100 adicionais por arroba). Eles apontam riscos fitossanitários associados às importações, incluindo pragas como Caryedon serratus, Trogoderma granarium, Mussidia nigrivenella, Phytophthora megakarya e Striga spp. Criticam o regime de drawback, que isenta tributos para importação e exportação de derivados, suspeitando de formação de estoques para pressionar preços internos para baixo.
O Ministério da Agricultura anunciou envio de missão técnica à Costa do Marfim de 1º a 14 de fevereiro de 2026 para avaliar práticas agrícolas e exigências fitossanitárias. A Instrução Normativa 125/2021 eliminou a exigência de tratamento com brometo de metila para amêndoas fermentadas e secas, mantendo certificado fitossanitário, tratamento com fosfina e inspeção no ingresso. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou projeto para sustar a norma, pendente de votação no plenário e no Senado. Guilherme Moura, da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), defende revisão do drawback e maior fiscalização. Anna Paula Losi, da Associação de Indústrias de Processamento de Cacau (AIPC), afirma que as importações suprem déficit de 39,7 mil toneladas no primeiro semestre de 2025, evitando paralisação da produção industrial.
Essa situação atual remete à grave crise desencadeada pela introdução da vassoura-de-bruxa (fungo Moniliophthora perniciosa) no final da década de 1980. O documentário "O Nó" (2011) registra a disseminação da doença a partir de 1989, com primeiros focos detectados em maio daquele ano nos municípios de Uruçuca e Camacã, em fazendas como Boa Sorte (Camacã), Santa Úsa, Sempre Firme (Itacaré) e Bom Jardim (Arataca).
Evidências incluem galhos infectados amarrados a árvores saudáveis e um saco com material infectado deixado na mesa de um diretor da Ceplac em novembro de 1989. Estudos de 1996 indicaram disseminação por ação humana após infecções iniciais.
A praga causou colapso na produção, que caiu de cerca de 400 mil toneladas anuais na década de 1980 para níveis muito inferiores, transformando o Brasil de segundo maior produtor mundial em importador líquido.
Os impactos incluíram perda de mais de 200 mil empregos rurais, falências, suicídios entre produtores, migração em massa e danos ecológicos, com áreas abandonadas levando à extração de madeira da Mata Atlântica.
Em depoimento à CPI do Cacau da Assembleia Legislativa da Bahia em 2011, o administrador Luiz Henrique Franco Timoteo confirmou denúncias de que militantes do PT trouxeram a vassoura-de-bruxa para Ilhéus e região. Ele relatou participação em reunião em 1987 no bar Caçuá, em Itabuna, com líderes petistas como Geraldo Simões (ex-prefeito de Itabuna), Wellington Duarte, Elieser Corrêa, Everaldo Anunciação e Jonas Nascimento (todos ligados à Ceplac), onde se planejou introduzir a praga para enfraquecer economicamente os produtores e ganhar influência política. Timoteo afirmou ter transportado material infectado de Rondônia entre 1988 e 1991, disseminando-o em municípios como Camacan, Travessão, Buerarema e Itabuna, na operação "Cruzeiro do Sul".
Ele mencionou pagamento de equivalente a 20 mil dólares em 1994 por Geraldo Simões para deixar a cidade e não testemunhar. A CPI arquivou o caso em 2011 por prescrição, sem indiciamentos, apesar de questionamentos sobre provas documentais por deputados como Valmir Assunção (PT).
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