Meninas relatam o dobro de tristeza que meninos, revela IBGE

Pesquisa nacional mostra adolescentes mais afetadas por bullying, insatisfação corporal e desejo de autolesão, com explicações que vão da violência doméstica às redes sociais
Por: Brado Redação 25.mar.2026 às 16h19
Meninas relatam o dobro de tristeza que meninos, revela IBGE
Foto: Inteligência Artificial

A quinta edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, realizada pelo IBGE com estudantes de 13 a 17 anos, aponta que as meninas enfrentam um quadro de sofrimento emocional bem mais grave do que os meninos. O levantamento de 2024, divulgado nesta quarta-feira, indica que elas sentem tristeza persistente, acham que a vida não vale a pena e têm vontade de se machucar com frequência duas vezes maior. Além disso, o número de alunas que avaliam negativamente a própria saúde mental é três vezes superior ao dos alunos.

De acordo com os números, 41% das meninas afirmam se sentir tristes na maior parte do tempo ou sempre, contra apenas 16% dos meninos. No total, 28,9% dos adolescentes entrevistados relataram esse sentimento. Outros indicadores reforçam o desequilíbrio: 61% das jovens dizem se preocupar excessivamente com questões do dia a dia, contra 38,8% dos rapazes; 25% delas consideram que a vida não merece ser vivida, ante 12% deles; e 43% relatam desejo de se ferir, em comparação com 20% dos meninos. A insatisfação com o próprio corpo atinge 36% das alunas e 18% dos alunos, enquanto o sentimento de abandono aparece em 33% delas e 19% deles.

O estudo também revela que as meninas são as principais vítimas de bullying nas escolas. Nos 30 dias anteriores à pesquisa, 30,1% delas afirmaram ter sido humilhadas, zoadas ou intimidadas por colegas pelo menos duas vezes, índice que cai para 24,3% entre os meninos. Por outro lado, os garotos aparecem mais como autores: 16,5% deles admitiram praticar bullying, contra 10,9% das meninas.

Especialistas consultados explicam que parte significativa dessa diferença começa dentro de casa, antes mesmo da escola. A psicóloga Claudia Prioste, professora da Unesp, destaca que o lar muitas vezes se torna o ambiente mais perigoso para as adolescentes, marcado por violência doméstica e fragilização das redes de apoio. Elas crescem vendo o sofrimento das mães e assumindo responsabilidades precoces, o que gera estresse crônico e quadros semelhantes ao transtorno de estresse pós-traumático. “O que parece depressão isolada é, na verdade, um fenômeno mais amplo de sobrecarga emocional”, afirma.

As redes sociais atuam como amplificador dessa pressão, especialmente sobre as garotas. A psicóloga Anna Lucia Spear King observa que muitas jovens de baixa autoestima buscam validação online, onde a cobrança estética é implacável. “Elas colocam a felicidade na mão dos outros e evitam postar sem filtro, mas mesmo assim enfrentam críticas duras”, explica. Tatiana Serra complementa que as plataformas forçam um amadurecimento precoce e comparam as meninas com padrões inalcançáveis, reforçando a sensação de inadequação e agravando ansiedade, depressão e insatisfação corporal.

A socialização de gênero também contribui para o quadro. Enquanto as meninas aprendem a internalizar o sofrimento, os meninos são estimulados a demonstrar força e agressividade, o que ajuda a explicar por que eles aparecem mais como agressores de bullying. Prioste ressalta que esse modelo masculino traz “benefícios sociais” para a violência, ao contrário do que ocorre com as adolescentes, que concentram os sinais de dor emocional.

Diante dos dados, as especialistas defendem ações concretas dentro das escolas. Fortalecer laços entre professores e alunos é fundamental para identificar precocemente o sofrimento, já que a confiança permite que os jovens se abram e até chorem ao serem ouvidos. Ampliar a presença de psicólogos, criar canais seguros de escuta, rodas de conversa e grupos de apoio são medidas apontadas como essenciais. No plano individual, Serra enfatiza que o enfrentamento do trauma começa pela escuta ativa: “Não se resolve ignorando o que foi vivido. É preciso espaços onde elas possam falar sem medo”.

A pesquisa ouviu alunos de escolas públicas e privadas, do 7º ano do ensino fundamental ao 3º do ensino médio, em amostra representativa de todo o país. Realizada desde 2009 pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do Ministério da Educação, a Pense acompanha hábitos, riscos e proteção à saúde adolescente, incluindo saúde mental, violência e ambiente escolar.

Outro dado alarmante diz respeito à violência sexual. As meninas relatam o dobro de casos de assédio em comparação com os meninos: 26,9% delas afirmaram que alguém tocou, beijou ou expôs partes de seu corpo contra a vontade, contra 10,9% deles. Os agressores mais citados são outras pessoas (24,6%), familiares (24,4%) e desconhecidos (24%). Nos casos de estupro, o familiar lidera (26,6%), seguido de desconhecido (23,2%) e namorado (22,6%).

Apesar dos números preocupantes, a pesquisa mostra melhora em relação a 2019, ano anterior à pandemia. O indicador geral de saúde mental negativa – que considera respostas de “sempre” ou “na maioria das vezes” sobre tristeza, ansiedade e irritabilidade – caiu de 27% para 22,9% entre as meninas e de 8% para 6,8% entre os meninos. Quatro dos seis critérios que compõem esse índice eram piores há cinco anos. O relatório destaca que a expectativa de piora pós-pandemia não se confirmou.

Marco Andreazzi, gerente de Pesquisas Especiais do IBGE, observa que a diferença por gênero é muito maior do que variações socioeconômicas entre escolas públicas e privadas. “As questões de gênero precisam ser estudadas e enfrentadas com urgência para garantir o bem-estar das meninas e sua plena contribuição para a sociedade”, conclui o documento.



📲 Baixe agora o aplicativo oficial da BRADO
e receba os principais destaques do dia em primeira mão
O que estão dizendo

Deixe sua opinião!

Assine agora e comente nesta matéria com benefícos exclusivos.

Sem comentários

Seja o primeiro a comentar nesta matéria!

Carregar mais
Carregando...

Carregando...

Veja Também
Renato “Trezoitão” Amoedo: a trajetória do principal educador de Bitcoin do Brasil
Renato Amoedo Nadier Rodrigues, conhecido como “Trezoitão”, tornou-se a voz mais influente na educação sobre Bitcoin no Brasil.
Cláudio Castro renuncia ao governo do Rio
Governador deixa o cargo um dia antes de novo julgamento no TSE para disputar o Senado e sai afirmando que devolveu o respeito ao Palácio Guanabara
Carregando..