Câmara pode demorar meses para punir deputados por protesto no plenário

Análise individual e prazos prolongados para sanções
Por: Brado Jornal 12.ago.2025 às 08h08
Câmara pode demorar meses para punir deputados por protesto no plenário
Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
A decisão sobre a punição dos deputados bolsonaristas que participaram de um protesto no plenário da Câmara na semana passada, bloqueando os trabalhos legislativos, pode se estender por meses. O corregedor da Casa, deputado Diego Coronel (PSD-BA), responsável por avaliar as representações contra 14 parlamentares envolvidos, anunciou na segunda-feira que seguirá um rito mais longo, com prazo de até 50 dias úteis. As penalidades previstas variam de advertências simples a suspensões de mandato por até seis meses, dependendo da gravidade das condutas.

Coronel destacou que cada caso será analisado individualmente, rejeitando a ideia de punição coletiva. “Certamente cada um será analisado de forma independente. Não será uma análise conjunta. A partir desta terça-feira a gente começa a notificá-los”, afirmou. Após a notificação, os deputados terão cinco dias úteis para apresentar defesa, e o corregedor contará com mais 45 dias úteis para emitir pareceres, que serão encaminhados à Mesa Diretora. Composta por Hugo Motta (Republicanos-PB) e outros seis parlamentares de PL, PT, União, PSD, PP e MDB, a Mesa decidirá sobre as punições.

Inicialmente, Coronel previa uma resposta em 48 horas, conforme ato da Mesa Diretora assinado por Motta em maio. Após diálogo com o colegiado, porém, optou por seguir um ato de 2009, que estabelece o prazo maior. “As pessoas que estão aí nessa linha de pênalti, elas têm todo o direito de se defender. Eu, de maneira nenhuma, quero tomar todo o prazo. Se eu puder matar isso em dois dias, eu queria”, disse.

Entre os deputados denunciados estão Marcel Van Hattem (Novo-RS), que impediu Motta de assumir a cadeira da presidência, Zé Trovão (PL-MS), acusado de bloquear a passagem do presidente da Casa, e Júlia Zanatta (PL-SC), que ocupou a cadeira de Motta com sua bebê de quatro meses. Outros nomes, como Marcos Pollon (PL-MS), Paulo Bilynskyj (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG), também integram a lista.

O protesto, que durou cerca de 30 horas, foi motivado pela prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Os deputados bloquearam os plenários da Câmara e do Senado, exigindo a votação de propostas para retirar o caso de Bolsonaro do STF, como uma PEC que extingue o foro privilegiado. O motim só terminou após um acordo coordenado pelo ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), que garantiu apoio do Centrão à discussão dessas pautas.

Motta, que não participou do acordo, saiu politicamente fragilizado e criticou a negociação. “O que aconteceu foi algo muito grave. Não se pode permitir que um grupo de parlamentares ocupe fisicamente o plenário com o intuito de impedir o andamento dos trabalhos”, declarou à CNN Brasil. Ele defendeu “punições pedagógicas” e encaminhou as 14 representações à Corregedoria após reunião emergencial da Mesa Diretora.

O líder do PT, Lindbergh Farias (RJ), criticou o rito mais longo, comparando-o a decisões mais rápidas em casos recentes, como as suspensões de André Janones (Avante-MG) e Gilvan da Federal (PL-ES), julgados pelo Conselho de Ética. “Mudar o procedimento agora, justamente num dos episódios mais graves contra o Parlamento, abre espaço para questionamentos sobre coerência e isonomia. Não pode haver blindagem, impunidade e seletividade: quem impediu o funcionamento da Casa deve ser afastado de imediato para proteger a democracia”, afirmou Lindbergh em rede social.

Desde 2001, a Câmara analisou 234 representações no Conselho de Ética, com apenas quatro suspensões de mandato. A maioria (203) foi arquivada, oito resultaram em cassação e cinco em suspensões temporárias, incluindo os casos de Janones, Gilvan da Federal, Daniel Silveira (duas vezes) e Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO). Janones, por exemplo, foi suspenso por três meses em julho por xingamentos homofóbicos contra Nikolas Ferreira. Já Gilvan da Federal foi punido por ofensas à ministra Gleisi Hoffmann, associando-a ao codinome “Amante” em planilhas da Odebrecht.

Motta, questionado sobre o acordo para votar a PEC do fim do foro, desconversou e defendeu diálogo com o STF. “O momento político é um dos mais complexos que estamos vivendo, por isso, temos de dialogar com ministro da Suprema corte, conversar com nossos colegas da casa vizinha, do Senado, e internamente para manter a Câmara dos Deputados funcionando”, disse à revista Veja.


📲 Baixe agora o aplicativo oficial da BRADO
e receba os principais destaques do dia em primeira mão
O que estão dizendo

Deixe sua opinião!

Assine agora e comente nesta matéria com benefícos exclusivos.

Sem comentários

Seja o primeiro a comentar nesta matéria!

Carregar mais
Carregando...

Carregando...

Veja Também
Mansão no Lago Sul serve como base de Lulinha em Brasília e tem ligação com lobista ligada ao Careca do INSS
Imóvel de luxo alugado por Roberta Luchsinger é usado pelo filho do presidente durante visitas à capital; mensagens da PF revelam orientações para descarte de celulares e menções diretas a Fábio Luís
Téo Senna rebate mudança de nome em colégio modelo e acusa governo de priorizar ideologia na educação baiana
Vereador do PSDB classifica decisão de retirar homenagem a Luís Eduardo Magalhães como perseguição política e desrespeito à história, afirmando que o foco deveria ser melhorar índices de ensino em vez de trocar placas
Heraldo Rocha rebate Jaques Wagner e o acusa de espalhar fake news
Ex-deputado diz que senador do PT mente sobre pré-candidatura de ACM Neto e sugere que ele resolva problemas internos da própria sigla
CPMI do INSS pode levar “muita gente à cadeia” ao investigar esquema do Banco Master, diz Damares Alves
CPMI do INSS avança em investigação de fraudes no consignado e promete prender envolvidos no esquema do Banco Master, afirma senadora Damares
Mortes em protestos no Irã ultrapassam 2.400, informa grupo de direitos humanos
HRANA registra ao menos 2.403 manifestantes mortos desde o final de dezembro, com mais de 18 mil prisões; número subiu rapidamente em meio a repressão e apagão de internet
Carregando..