Uma investigação da TV Bahia identificou um esquema que envolveu a contratação de shows e eventos com superfaturamento de cachês de artistas pagos com verba pública na Bahia. O caso se concentra nas contratações realizadas pela Superintendência de Fomento ao Turismo da Bahia (Sufotur), órgão vinculado à Secretaria de Turismo (Setur), e durou pelo menos de 2015 a 2024.
De acordo com a apuração, o esquema envolveu pelo menos quatro produtoras de eventos, pessoas usadas como “laranjas” e o ex-gestor da Sufotur, Diogo Medrado. As empresas citadas são Brilho Estrelar Produções Artísticas Ltda., Estrelar Produções e Serviços Eireli, Tamy Produções Artísticas e Serviços Ltda. e Nível Dez Produções Artísticas e Serviços Ltda. Algumas compartilham o mesmo endereço, e-mail e responsáveis da mesma família.
Somente entre 2023 e 2025, foram registrados 641 pagamentos para essas quatro produtoras, totalizando R$ 58 milhões. O total de gastos da Sufotur até 2026 chegou a R$ 1,84 bilhão. A receita do órgão passou de R$ 79 milhões em 2019 para R$ 623 milhões em 2024, um crescimento de quase 700%.
A apuração da TV Bahia analisou mais de 10 anos de relatórios do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e centenas de notas fiscais. Os documentos apontam falta de justificativa de preços, concentração de contratos nas mesmas empresas e uso irregular de inexigibilidade de licitação. Essa dispensa de concorrência pública deve ser aplicada apenas a artistas de notoriedade reconhecida, com contratos diretos e valores compatíveis com o mercado, o que não ocorreu na maioria dos casos.
Segundo a reportagem, cantores e bandas de pouca visibilidade eram contratados por valores muito acima do praticado no mercado. Os artistas não recebiam os valores excedentes, que ficavam com as produtoras intermediárias. Um exemplo é a cantora Emily Ferraz: para um show privado, sua carreira foi negociada por R$ 8 mil, enquanto sete apresentações para o governo baiano custaram mais de R$ 500 mil (cerca de R$ 71 mil por show). A artista afirmou desconhecer qualquer superfaturamento.
A empresa Usina Mixx Produções Ltda. (CNPJ 49.607.556/0001-30) também aparece em diversos contratos de prestação de serviços artísticos firmados com a Sufotur e prefeituras baianas, por meio de inexigibilidade de licitação. A empresa atuou como intermediária na contratação de artistas e bandas para eventos turísticos e festivos, incluindo apresentações de grupos como Lucas Love e outros, com recursos públicos. Auditorias do TCE e apurações apontam irregularidades recorrentes em contratações dessa modalidade, como falta de justificativa de preços e direcionamento.
Reportagem do Jornal da Manhã, da TV Bahia/Rede Globo, revelou que o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia de Teixeira de Freitas, David Loyola, seria um dos proprietários ou principal responsável pela Usina Mixx. Artistas entrevistados relataram superfaturamento e calotes, com valores pagos aos profissionais sendo até 800 vezes inferiores aos constantes nas notas fiscais dos contratos. David Loyola é irmão de Adolfo Loyola (ou Adolpho Loyola), secretário de Relações Institucionais do governo estadual e considerado um dos principais assessores do governador Jerônimo Rodrigues.
Diogo Medrado presidiu a Bahiatursa (órgão que antecedeu a Sufotur) entre 2014 e 2022 e voltou ao cargo após a reestruturação. Relatórios do TCE apontam irregularidades em sua gestão, com contas desaprovadas em 2019, 2020 e 2021, multas pagas e negativa de acesso a documentos em auditoria de 2023. Ele negou as irregularidades, afirmando que as contratações seguiram a legislação vigente e foram analisadas por setores técnicos e jurídicos.
O Ministério Público da Bahia (MP-BA) investiga a Sufotur por crimes contra a administração pública e lavagem de dinheiro. Um inquérito civil também apura irregularidades nos contratos para aperfeiçoar a forma de contratação de artistas. As investigações tramitam em segredo de Justiça.
A Sufotur informou que tem adotado medidas para fortalecer controles internos, transparência e aperfeiçoamento dos processos administrativos, permanecendo à disposição dos órgãos de controle. A Usina Mixx Produções e David Loyola não tiveram posicionamento específico divulgado nas reportagens principais sobre o esquema.
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