Desdobramentos de denúncia da TV Bahia apontam envolvimento de David Loyola em esquema de shows milionários na Bahia

Apuração revela que secretário municipal seria ligado à Usina Mixx Produções, empresa citada em contratações superfaturadas com a Sufotur
Por: Carol Barbalho 22.jun.2026 às 09h50 - Atualizado: 22.jun.2026 às 10h05
Desdobramentos de denúncia da TV Bahia apontam envolvimento de David Loyola em esquema de shows milionários na Bahia
Divulgação
Uma investigação da TV Bahia identificou um esquema que envolveu a contratação de shows e eventos com superfaturamento de cachês de artistas pagos com verba pública na Bahia. O caso se concentra nas contratações realizadas pela Superintendência de Fomento ao Turismo da Bahia (Sufotur), órgão vinculado à Secretaria de Turismo (Setur), e durou pelo menos de 2015 a 2024.

De acordo com a apuração, o esquema envolveu pelo menos quatro produtoras de eventos, pessoas usadas como “laranjas” e o ex-gestor da Sufotur, Diogo Medrado. As empresas citadas são Brilho Estrelar Produções Artísticas Ltda., Estrelar Produções e Serviços Eireli, Tamy Produções Artísticas e Serviços Ltda. e Nível Dez Produções Artísticas e Serviços Ltda. Algumas compartilham o mesmo endereço, e-mail e responsáveis da mesma família.

Somente entre 2023 e 2025, foram registrados 641 pagamentos para essas quatro produtoras, totalizando R$ 58 milhões. O total de gastos da Sufotur até 2026 chegou a R$ 1,84 bilhão. A receita do órgão passou de R$ 79 milhões em 2019 para R$ 623 milhões em 2024, um crescimento de quase 700%.

A apuração da TV Bahia analisou mais de 10 anos de relatórios do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e centenas de notas fiscais. Os documentos apontam falta de justificativa de preços, concentração de contratos nas mesmas empresas e uso irregular de inexigibilidade de licitação. Essa dispensa de concorrência pública deve ser aplicada apenas a artistas de notoriedade reconhecida, com contratos diretos e valores compatíveis com o mercado, o que não ocorreu na maioria dos casos.

Segundo a reportagem, cantores e bandas de pouca visibilidade eram contratados por valores muito acima do praticado no mercado. Os artistas não recebiam os valores excedentes, que ficavam com as produtoras intermediárias. Um exemplo é a cantora Emily Ferraz: para um show privado, sua carreira foi negociada por R$ 8 mil, enquanto sete apresentações para o governo baiano custaram mais de R$ 500 mil (cerca de R$ 71 mil por show). A artista afirmou desconhecer qualquer superfaturamento.

A empresa Usina Mixx Produções Ltda. (CNPJ 49.607.556/0001-30) também aparece em diversos contratos de prestação de serviços artísticos firmados com a Sufotur e prefeituras baianas, por meio de inexigibilidade de licitação. A empresa atuou como intermediária na contratação de artistas e bandas para eventos turísticos e festivos, incluindo apresentações de grupos como Lucas Love e outros, com recursos públicos. Auditorias do TCE e apurações apontam irregularidades recorrentes em contratações dessa modalidade, como falta de justificativa de preços e direcionamento.

Reportagem do Jornal da Manhã, da TV Bahia/Rede Globo, revelou que o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia de Teixeira de Freitas, David Loyola, seria um dos proprietários ou principal responsável pela Usina Mixx. Artistas entrevistados relataram superfaturamento e calotes, com valores pagos aos profissionais sendo até 800 vezes inferiores aos constantes nas notas fiscais dos contratos. David Loyola é irmão de Adolfo Loyola (ou Adolpho Loyola), secretário de Relações Institucionais do governo estadual e considerado um dos principais assessores do governador Jerônimo Rodrigues.

Diogo Medrado presidiu a Bahiatursa (órgão que antecedeu a Sufotur) entre 2014 e 2022 e voltou ao cargo após a reestruturação. Relatórios do TCE apontam irregularidades em sua gestão, com contas desaprovadas em 2019, 2020 e 2021, multas pagas e negativa de acesso a documentos em auditoria de 2023. Ele negou as irregularidades, afirmando que as contratações seguiram a legislação vigente e foram analisadas por setores técnicos e jurídicos.

O Ministério Público da Bahia (MP-BA) investiga a Sufotur por crimes contra a administração pública e lavagem de dinheiro. Um inquérito civil também apura irregularidades nos contratos para aperfeiçoar a forma de contratação de artistas. As investigações tramitam em segredo de Justiça.

A Sufotur informou que tem adotado medidas para fortalecer controles internos, transparência e aperfeiçoamento dos processos administrativos, permanecendo à disposição dos órgãos de controle. A Usina Mixx Produções e David Loyola não tiveram posicionamento específico divulgado nas reportagens principais sobre o esquema.


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