Resgates em restaurantes por condições análogas à escravidão crescem no Brasil, com foco em São Paulo

Alojamentos precários e jornadas extensas marcam denúncias em churrascarias e casas de rodízio japonês; 'parece um presídio', diz auditor
Por: Brado Jornal 07.jan.2026 às 09h51
Resgates em restaurantes por condições análogas à escravidão crescem no Brasil, com foco em São Paulo
Vinícius Mendes/BBC
Um trabalhador maranhense de 26 anos, chamado Wellington, natural de Bacabal, a 250 km de São Luís, relatou à BBC News Brasil: "Não tenho dinheiro nem para um café. Estou totalmente zerado!".

Ele havia chegado à capital paulista três semanas antes, recrutado por uma agência de empregos para atuar como passador de carnes na churrascaria Boizão Grill, localizada na região do Pari, próxima à Marginal Tietê. O cargo envolve oferecer cortes de carne aos clientes circulando entre as mesas.

Desempregado anteriormente e pai de uma criança de 6 anos, Wellington aceitou a vaga principalmente pelos benefícios prometidos: moradia subsidiada e três refeições diárias fornecidas pelo restaurante. "Eu teria o dinheiro limpo para mim", afirmou ele, cujo nome real foi protegido na reportagem.

Ao desembarcar na rodoviária de São Paulo em um domingo pela manhã, foi informado de que a carteira de trabalho seria assinada após o período de experiência. Instalou-se em um alojamento indicado pelo empregador e começou a trabalhar no dia seguinte.

"Daí, uma semana depois, fiquei doente", contou. "Tosse, febre, uma dor absurda no corpo. Não dava para levantar da cama." Ele buscou atendimento em uma unidade de saúde, recebeu atestado de sete dias, mas não foi pago pelos dias trabalhados, apesar da promessa.

Sem condições de frequentar o restaurante, alimentou-se apenas de café preto e biscoitos por vários dias, permanecendo no alojamento. A casa, um sobrado cinza e marrom de aproximadamente 80 m², abrigava outros 11 garçons e passadores, situada a poucos metros da churrascaria.

Wellington refletiu na época sobre permanecer ali até encontrar algo melhor ou retornar ao Maranhão, mas hoje lamenta: "Se eu soubesse que seria desse jeito, não teria nem vindo."A Boizão Grill, onde o rodízio custa cerca de R$ 170 por pessoa, negou à reportagem qualquer vínculo empregatício com Wellington e afirmou desconhecer sua presença no alojamento compartilhado com outros funcionários.

Em maio do ano anterior, uma operação conjunta do Ministério Público do Trabalho de São Paulo (MPT-SP) e do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) verificou denúncias de condições degradantes nessa residência. Um ex-garçom havia relatado morar ali por seis meses em ambiente insalubre, com infestações de percevejos, jornadas prolongadas e ausência de registro em carteira, sob alegação de "período de experiência" prática ilegal, pois a CLT exige formalização mesmo em teste.

A inspeção confirmou as irregularidades, incluindo trabalhadores dormindo em caixotes de cerveja improvisados.

De 2022 a setembro de 2025, o MTE registrou 152 resgates em restaurantes no Brasil, com números crescendo de 8 em 2022 para 71 em 2023, 34 em 2024 e 39 em 2025. São Paulo concentrou todos os 34 casos de 2024, principalmente na capital, seguida por Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Pará. Os 12 da Boizão Grill, ainda pendentes de ação judicial, elevarão o total de 2025 para 51 aumento de 538% em quatro anos.

Auditores como Maurício Krepsky explicam a concentração em São Paulo pela densidade de estabelecimentos gastronômicos e maior acesso a canais de denúncia. "Quanto mais fiscalização se faz, mais coisas se acham", disse. Paulo Roberto Warlet destacou que denúncias atingem principalmente churrascarias e rodízios japoneses.

"Quando falamos em trabalho análogo à escravidão, algumas imagens surgem automaticamente na cabeça de todo mundo: a carvoaria, a fazenda, o garimpo, as áreas rurais, distantes. Aqui em São Paulo, também se tornou comum a associação com oficinas de costura", observou Warlet durante inspeção na Boizão. "Mas sujeitar pessoas a essas condições é uma prática que sempre ganha novas facetas."

No alojamento, beliches colados impediam circulação de ar, janelas eram bloqueadas por roupas, banheiros apresentavam lixo acumulado, vaso sem assento e chuveiro sem aterramento elétrico, gerando riscos. No quintal, facas de corte de carne misturavam-se a resíduos. "Parece um presídio!", exclamou Warlet.

A comparação repetiu-se em operação anterior em restaurante japonês em Moema, com grades nas janelas e ambiente sujo. A força-tarefa resgatou os 12 trabalhadores por condições degradantes uma das quatro categorias de trabalho análogo à escravidão, ao lado de trabalho forçado, jornadas exaustivas e servidão por dívida.

Krepsky nota que condições urbanas recentes superam em precariedade algumas rurais. Jornalista Leonardo Sakamoto compara o combate ao crime a iluminar uma sala escura: "O facho de luz que nós temos para ver os rabiscos é muito pequeno, mas, toda hora que se aponta para a parede, dá para ver um pedaço deles."

Em outra inspeção na vizinha Maninho's Steak House, dez homens ocupavam 70 m² com percevejos nos colchões, cozinha usada como dormitório e caixotes como camas. Embora dedetizações recentes tenham evitado resgate imediato, irregularidades como falta de registro em carteira para 29 funcionários foram identificadas. O estabelecimento alegou regularização posterior.

Especialistas apontam que alojamentos "prendem" trabalhadores, especialmente migrantes do Norte e Nordeste, vulneráveis socioeconomicamente. Escalas divididas (almoço e jantar) facilitam controle, estendendo jornadas além das 44 horas semanais legais. "O alojamento, de alguma forma, prende a pessoa ao local de trabalho", analisou a ex-promotora Andréa Tertuliano.

Facas levadas para alojamentos por medo de furtos geravam riscos de conflitos. "É um risco até para a população em geral", alertou Tertuliano.

Apesar do aumento de denúncias, poucos restaurantes integram a "Lista Suja" do trabalho escravo apenas 11 entre 684 empresas. Sakamoto atribui isso à subnotificação e lentidão processual.

Maria do Carmo Pimentel reforça raízes históricas: "Em um país com 300 anos de escravidão, ela não acaba facilmente. Talvez nem acabe."

Em setembro, o alojamento da Boizão Grill seguia operando sem adequações, após recusa de acordo judicial. Wellington foi expulso sem pagamento de verbas rescisórias, segundo relatos.

Casos semelhantes continuaram em 2025, com resgates em restaurantes japoneses na zona norte de São Paulo, incluindo 17 trabalhadores em outubro, em operação que resultou em acordo com indenizações.


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