STF suspende processos sobre “pejotização” e impõe freio a avalanche de ações trabalhistas

Decisão de Gilmar Mendes paralisa julgamentos até definição de tese com repercussão geral e reacende debate sobre legalidade de contratos por pessoa jurídica
Por: Brado Jornal 15.abr.2025 às 07h12
STF suspende processos sobre “pejotização” e impõe freio a avalanche de ações trabalhistas
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em uma medida de grande impacto para o mundo do trabalho e para a Justiça brasileira, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta segunda-feira (14) a suspensão imediata de todos os processos que tratam da chamada “pejotização” — prática que envolve a contratação de trabalhadores como pessoas jurídicas (PJs), em vez de celetistas.

A decisão valerá até que o plenário da Corte julgue um recurso com repercussão geral (ARE 1532603), que deverá fixar entendimento definitivo sobre a validade desses contratos e delimitar a competência da Justiça do Trabalho no tema. O julgamento servirá como referência para todos os tribunais do país, uniformizando o entendimento e estancando a proliferação de ações que chegam ao STF.

Segundo o ministro, a “controvérsia” sobre a legalidade da pejotização provocou um aumento expressivo de processos que desafiam diretamente a jurisprudência da Corte. Gilmar Mendes alertou ainda para a postura da Justiça do Trabalho, que, em diversos casos, tem ignorado decisões já consolidadas pelo Supremo. “O descumprimento sistemático da orientação do STF tem contribuído para um cenário de grande insegurança jurídica”, afirmou.

A pejotização é prática comum em setores como jornalismo, saúde, advocacia, tecnologia e artes. A polêmica gira em torno da tênue linha que separa a terceirização lícita do vínculo empregatício disfarçado — quando o trabalhador, embora formalmente PJ, atua de forma exclusiva e subordinada, burlando a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).


Limites e jurisprudência

O STF já havia se debruçado sobre o tema em 2018, quando decidiu que a terceirização — inclusive das chamadas “atividades-fim” — é constitucional, desde que atendidos certos requisitos. A decisão permitiu, por exemplo, que uma empresa jornalística contrate tanto faxineiros quanto jornalistas por meio de prestadoras de serviço. No entanto, vetou a exclusividade e a subordinação direta em contratações individuais — elementos que configurariam vínculo empregatício.

A jurisprudência também vem se consolidando para casos envolvendo profissionais altamente qualificados. Em 2020, o STF rejeitou o vínculo empregatício entre uma advogada e o escritório para o qual prestava serviços como PJ, reconhecendo que a profissional tinha plena ciência dos termos e das vantagens do acordo, como menor carga tributária e maior remuneração.

Situação semelhante foi observada em ações contra a TV Globo, que contrata atores sob regime PJ mesmo com cláusulas de exclusividade. O Supremo entendeu que, nesses casos, há consciência mútua entre as partes e não se configura hipossuficiência — conceito usado para identificar o trabalhador mais vulnerável na relação.


O que está em jogo

A decisão de Gilmar Mendes não apenas paralisa os processos em andamento, mas coloca em suspenso milhares de disputas judiciais que afetam diretamente empresas e profissionais autônomos em todo o país. Enquanto o STF prepara o julgamento da tese com repercussão geral, o mercado observa com atenção os desdobramentos que podem redefinir os limites entre autonomia profissional e fraude trabalhista.

A decisão reforça a importância de critérios objetivos para a contratação via pessoa jurídica e sinaliza que o Supremo quer dar um basta à insegurança jurídica que ameaça colapsar o sistema trabalhista brasileiro.



📲 Baixe agora o aplicativo oficial da BRADO
e receba os principais destaques do dia em primeira mão
O que estão dizendo

Deixe sua opinião!

Assine agora e comente nesta matéria com benefícos exclusivos.

Sem comentários

Seja o primeiro a comentar nesta matéria!

Carregar mais
Carregando...

Carregando...

Veja Também
Lula avança com Haddad em São Paulo e Pacheco em Minas para 2026
Ministro da Fazenda cede a pedido do presidente e deve deixar pasta em breve; senador mineiro negocia filiação para disputar governo estadual
João Santana deve comandar campanha de ACM Neto ao governo da Bahia
Marqueteiro veterano, que já trabalhou com Lula, Dilma e Ciro, assume única campanha completa neste ano enquanto lança plataforma de IA para eleições
Advogado-geral da União Jorge Messias orientou a AGU a suspender processos sobre descontos indevidos no INSS
Diretrizes internas de 2023 buscavam blindar a autarquia previdenciária e afastar sua responsabilidade principal; documentos foram excluídos do sistema após operação da PF em 2025 e não foram entregues integralmente ao Congresso
Erika Hilton é indicada para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara
Nome foi escolhido pelo partido em acordo com outras siglas e deve ser votado na próxima semana; se aprovada, parlamentar se tornará primeira trans a comandar o colegiado na história do Congresso
Prazo final para informe de rendimentos do IRPF 2026 termina nesta sexta
Empresas e fontes pagadoras têm até 27 de fevereiro para fornecer o documento essencial à declaração anual.
Polícia Federal analisa movimentações bancárias de Lulinha no caso do INSS
Investigação avança com cruzamento de dados financeiros do filho do presidente e de outros suspeitos; quebra de sigilos foi autorizada antes de decisão do STF
Carregando..