Diferentemente do ritmo intenso de publicações e entrevistas que marcou os primeiros meses do ano, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), optou por uma postura mais reservada desde o início da crise política desencadeada pelo tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 9 de julho. A mudança ocorre em meio à maior turbulência de seu mandato, agravada por críticas do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL) e pela pressão do clã Bolsonaro por uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pelos atos golpistas.
Nos 14 dias seguintes ao anúncio de Trump, Tarcísio publicou apenas sete postagens no Instagram, sua principal rede social, uma queda significativa em relação às 22 postagens feitas entre 1º e 8 de julho (média de 2,7 por dia) e às 72 de junho (média de 2,4 por dia). Nos primeiros seis meses de 2025, o governador mantinha uma média de duas postagens diárias. Além disso, Tarcísio tem evitado entrevistas coletivas. Em um evento em Embu (SP), na quinta-feira (17), jornalistas foram posicionados para perguntas, mas assessores cancelaram a interação. A última entrevista ocorreu em 12 de julho, em Cerquilho, próximo a Sorocaba, quando o governador, após culpar o presidente Lula pelo tarifaço, adotou um tom mais conciliador:
– Acho que é um momento que demanda união de esforços, demanda sinergia, porque é algo complicado para o Brasil, é algo complicado para o segmento da nossa indústria, do nosso agronegócio. A gente precisa fazer uns dados agora para resolver, deixar a questão por este lado e tentar resolver essa questão – disse Tarcísio.
Na segunda-feira (21), em Bebedouro (SP), ele reforçou a busca por diálogo:
– Temos que buscar diálogo, temos que buscar pacificação, é necessário agora botar a bola no chão e entender o conceito geopolítico para buscar a melhor negociação. Uma negociação que nos alivie desse ônus que vai ser insuportável para determinados setores – afirmou.
A discrição de Tarcísio, segundo aliados, reflete um cálculo político para evitar especulações. Um auxiliar próximo revelou:
– Quanto menos ele falar agora, menos especulação haverá. Ele está mantendo sua rotina aqui no estado, sem se meter em política nacional. Já fez gestos ao empresariado paulista, mas o tema (do tarifaço) agora tem que ser com o governo federal.
A crise se intensificou após Tarcísio sugerir negociações para o tarifaço, o que gerou críticas de Eduardo Bolsonaro, que defende a anistia a Jair Bolsonaro como única solução. Apesar de uma reaproximação anunciada na quarta-feira (16), o desgaste foi agravado por uma foto de Tarcísio com um boné de apoio a Trump, publicada em janeiro. Cotado como possível candidato do bolsonarismo à Presidência em 2026, o governador enfrenta um equilíbrio delicado. O cientista político Rodrigo Prando Hawkins, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, analisa:
– Tarcísio sabe que está com um pé em cada canoa, a do bolsonarismo e a dos moderados. Esse equilíbrio é frágil. Ele sabe que, se pender para o lado da moderação, vai sofrer ataques dos radicais, como andou sofrendo. Sabemos que a família Bolsonaro não carrega feridos. Ele vai "jogar parado" até o assunto esfriar.
Tarcísio já havia adotado postura semelhante em outros momentos de pressão. Em 25 de março, durante a iminência da aceitação de uma denúncia contra Bolsonaro pelo STF, ele evitou a imprensa no Memorial da América Latina, cercado por seguranças. Na manifestação bolsonarista na Avenida Paulista, em 30 de junho, com público abaixo do esperado, Tarcísio criticou o PT e elogiou o governo Bolsonaro, mas ignorou perguntas e evitou temas como indulto ao ex-presidente. No feriado de 9 de julho, durante o desfile da Revolução Constitucionalista no Obelisco do Parque Ibirapuera, ele deixou o local rapidamente, sem discursos ou interação prolongada com o público.
A pressão por um compromisso com o indulto a Bolsonaro, levantada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em entrevista à “Folha de S. Paulo”, também não foi comentada publicamente pelo governador. Procurado, Tarcísio optou por não se manifestar.
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