O ator brasileiro Wagner Moura passou apenas um dia em Lisboa, onde recebeu tributo no 19º LEFFEST – Lisboa Film Festival, na sexta-feira (7.nov.2025), com o objetivo de divulgar o longa-metragem “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e no qual interpreta o papel principal. “Essa passagem é rápida. Eu pousei hoje e estou indo embora amanhã de manhã, mas é por conta do carinho que eu tenho por Paulo Branco [diretor do festival] e pelo amor que eu tenho por Portugal”, comentou ele ao interagir com a imprensa local.
Durante o evento, Moura não se limitou a falar sobre sua carreira cinematográfica, mas também expressou visões sobre o cenário político brasileiro. Ele criticou abertamente o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, afirmando que não o vê como uma democracia genuína, e previu desafios significativos para a esquerda nas eleições presidenciais de 2026. De acordo com o artista, os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) devem se apresentar com grande vigor no pleito, embora ele reforce a força do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a quem descreve como “o maior brasileiro de todos os tempos”. “O Lula vai se candidatar. Ele é o maior brasileiro de todos os tempos. Estou para ver alguém bater aquele velho”, declarou Moura.
“Infelizmente, eu acho que eles [bolsonaristas] vão para 2026 com força. Eu não sei se é com o [governador de São Paulo] Tarcísio de Freitas (Republicanos). Não sei quem vai ser o candidato deles [direita]. Infelizmente, o Brasil e o mundo estão polarizados politicamente. E a polarização é, sem dúvida, o perigo maior para as democracias no mundo”, acrescentou, destacando a preocupação com a divisão extrema no país.
Moura também refletiu sobre sua conexão pessoal com Portugal, revelando resultados de um teste de ancestralidade que indicam 85% de origem portuguesa em seu DNA. “Eu fiz o meu negócio de DNA e deu 85% português. Então, eu tenho vontade de explorar mais Portugal, de estar mais aqui. Esse dado genético talvez explique o quanto eu me sinto bem quando eu estou aqui. Sinto-me conectado com a cultura portuguesa, com os artistas portugueses”, explicou. Sua última visita à capital portuguesa ocorreu em 2019, por ocasião do lançamento de “Marighella”, filme que ele dirigiu.
Em relação ao contexto atual do Brasil, o ator avaliou que o período pós-2022 representa uma melhora notável em comparação aos anos de governo Bolsonaro (2018-2022). “O Brasil está agora em um momento, no mínimo, muito melhor” do que o vivido anteriormente, afirmou. Ele vinculou o surgimento de “O Agente Secreto” lançado nos cinemas do Brasil, Portugal e Alemanha na quinta-feira (6.nov.2025) à indignação compartilhada com ele e Kleber Mendonça Filho diante da gestão anterior, na qual ambos sofreram perseguições. “ ‘O Agente Secreto’ é um filme que nasce desse momento, da perplexidade minha e de Kleber [Mendonça Filho] perante aquele governo Bolsonaro. Porque ambos fomos perseguidos. (…) Então, eu acho que o cinema brasileiro vive um momento bom, ao passo que a democracia brasileira vive um momento bom”, observou.
O sucesso recente de “Ainda Estou Aqui”, que conquistou o primeiro Oscar de Melhor Filme Internacional para o Brasil no início de 2025, foi outro ponto abordado. Moura celebrou o orgulho nacional gerado pelo prêmio, contrastando-o com a narrativa da extrema-direita, que, em sua visão, tentou demonizar artistas durante o governo anterior. “Foi muito bonito ver o povo brasileiro orgulhoso de seus artistas. Durante determinado momento, a extrema-direita fez com que os artistas brasileiros virassem os inimigos do povo. Eles conseguiram fazer isso e ainda conseguem, com falácia, com mentira, com ignorância, com desinformação”, criticou. “Você só vai ver cultura enquanto houver democracia”, enfatizou.
Ao discutir o bolsonarismo, Moura lamentou a perda de um debate mais substantivo na direita brasileira, recordando com saudade os embates entre esquerda e PSDB nos anos iniciais do século, quando figuras como José Serra e Fernando Henrique Cardoso representavam uma oposição mais refinada. “A direita faz uma pergunta que eu acho justa, que é: ‘Vocês de esquerda querem seguridade social para todo mundo, vocês querem acesso a hospitais, à cultura, vocês querem tudo isso, mas quem vai pagar isso que vocês querem?’. Eu acho essa pergunta ótima. E eu adoraria ter esse tipo de interlocução com a direita. Mas o bolsonarismo fez com que a direita brasileira virasse uma coisa xucra, intelectualmente desonesta e intelectualmente podre. Você não consegue discutir. Não tem conversa”, analisou. Ele citou como exemplo o PL 1.283 de 2025, proposto pelo deputado Danilo Forte (União Brasil-CE), que busca classificar o Comando Vermelho como terrorista, o que poderia abrir espaço para interferência externa na segurança pública brasileira. “Eles [os bolsonaristas] estão querendo passar uma lei em que o Comando Vermelho virem terroristas. Eles querem que isso faça com que os Estados Unidos tenham ingerência na segurança pública do Brasil. Você quer coisa mais vira-lata do que isso?”, questionou.
No tema da democracia, Moura traçou paralelos entre o enredo de “O Agente Secreto”, ambientado em 1977 durante a ditadura militar, e eventos recentes, como a condenação de Bolsonaro e outros sete réus pelo STF em setembro de 2025 por tentativa de golpe após as eleições de 2022. “O Supremo Tribunal Federal julgando militares e um ex-presidente da forma que fizemos é inédito”, destacou. “Quando o Supremo diz que esse atentado contra a democracia foi grave e que as pessoas que o provocaram têm que ir para a cadeia, eu acho que isso foi um momento extraordinário de fortalecimento das instituições brasileiras como eu nunca havia presenciado”, elogiou.
Ele contrastou a resposta brasileira com a invasão ao Capitólio nos EUA em 2021, atribuindo a resiliência nacional à memória fresca da ditadura. “E a minha avaliação pessoal é que não é que as nossas instituições são mais fortes do que as deles, é porque nós sabemos o que uma ditadura é. Nós temos essa memória, aconteceu há pouco tempo e a gente não quer que aconteça mais isso. (…) E a impressão que eu tinha é que os americanos acham que a democracia é uma coisa que o Espírito Santo deu a eles, e que logo não precisa lutar por aquilo. A democracia é uma coisa que você precisa lutar por ela todo dia”, refletiu. “E é triste constatar que numa ditadura, num governo autoritário, só você ser quem você é pode ser um perigo de vida”, concluiu nessa seção.
Finalmente, Moura abordou questões de violência urbana, ligando sua icônica personagem em “Tropa de Elite” – vencedor do Urso de Ouro em Berlim em 2008 à operação policial no Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2025, que deixou 121 mortos e se tornou a mais letal da história recente do país. “O filme foi abraçado pela direita bolsonarista, no sentido de que, quando há uma invasão dessas nas favelas, essa galera bate palma e diz: ‘É isso aí’”, observou. “Quando eles veem o capitão Nascimento entrando na favela e atirando, eles dizem: ‘Está aí o meu herói’. Eu nunca pensei nisso dessa forma. Eu sempre pensei que esse cara não era nem herói nem vilão, mas o produto de séculos de violência. O Estado, a polícia no Brasil, não existe para proteger o cidadão.
A polícia no Brasil existe para proteger o Estado e o Estado determina quem são seus inimigos. No momento, os inimigos do Estado são os moradores da favela. Como na época de Marighella, eram os guerrilheiros”, explicou. “O policial que faz aquilo tampouco é um vilão. Ele também é um produto de uma visão equivocada e que perpetua-se até hoje, chegando ao suprassumo do que aconteceu na semana passada, e com a aprovação da maioria da população. Realmente vocês [os responsáveis pela operação] acham que o Comando Vermelho vai sair do Complexo da Penha e do Alemão porque vocês entraram lá e mataram 120 pessoas? Claro que eles acham que não”, questionou.
Moura previu críticas da extrema-direita a suas declarações, mas defendeu uma abordagem baseada no Estado de Direito. “Essa ignorância da população é manipulada por gente que sabe muito bem o que está fazendo. O que o governador [do Rio de Janeiro] Cláudio Castro [PL] fez foi uma chacina eleitoral. Ele se promoveu como político, às vésperas da eleição, às custas de 120 pessoas mortas”, acusou. “Mas eu não quero levar o cara do Comando Vermelho para minha casa. Eu quero que o cara do Comando Vermelho seja preso e julgado pelos crimes que ele cometeu, pela forma com que eles manipulam e aterrorizam aquelas pessoas. Mas eu não acho que o Estado tem que subir naquele lugar e atirar a esmo matando os caras do Comando Vermelho e as pessoas que moram naquele lugar, cidadãos brasileiros”, rebateu antecipadamente.
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