A recente Estratégia de Segurança Nacional divulgada pelo governo Donald Trump está sendo vista por autoridades brasileiras como um risco concreto de transformar os Estados Unidos no maior elemento de desestabilização da América Latina, apurou a CNN Brasil junto a fontes do alto escalão do governo.
O documento resume os objetivos americanos no hemisfério em duas palavras: “alinhar e expandir”, deixando claro o plano de aumentar a influência política, econômica e militar dos EUA no continente. O texto cita explicitamente a doutrina Monroe, criada no século XIX pelo presidente James Monroe, que pregava a América Latina como área exclusiva de influência de Washington.
Para uma fonte que acompanha de perto os movimentos estratégicos na região, a nova estratégia é apenas “uma confirmação no papel” do que Trump já vinha praticando desde o início do segundo mandato.
“Trump vai reverter décadas de desinteresse em relação à América Latina”, avaliou a fonte.
Esse relativo desinteresse americano, paradoxal, havia diminuído tensões e dado maior autonomia aos países da região. Agora, segundo os interlocutores, essa etapa terminou. O receio é de uma postura mais agressiva e ideológica, focada apenas em segurança nacional dos EUA, comércio e contenção da China, sem nenhuma proposta para os problemas estruturais latino-americanos.
“Não há nada sobre crescimento, infraestrutura ou políticas sociais. É uma agenda negativa, focada apenas em conter adversários, restringir a presença chinesa e tratar problemas de drogas e imigração como ameaças unilaterais aos Estados Unidos”, criticou outro observador consultado pela CNN Brasil.
A tensão já se materializa na crise venezuelana: mais de 15 mil militares americanos foram enviados à costa do país, houve ataques a embarcações suspeitas de tráfico de drogas e a apreensão de um grande petroleiro que transportava petróleo venezuelano. O Grupo de Ataque do Porta-Aviões Gerald R. Ford também foi deslocado para o Caribe.
Apesar do cenário preocupante, fontes do governo brasileiro acreditam que o país está, por enquanto, fora do alvo imediato de novas pressões.
“O presidente dos EUA tentou fazer justamente isso ao aumentar as tarifas e aplicar sanções contra autoridades brasileiras, mas a estratégia diplomática adotada pelo país acabou conseguindo reverter essa tendência”, lembrou um interlocutor.
Analistas ouvidos apontam que a nova política americana ressuscita uma versão moderna da doutrina Monroe, agora com um “corolário Trump” que justifica intervenções inclusive militares sempre que Washington considerar necessário.
A diferença crucial, segundo essas fontes, é o contexto: a doutrina original foi anunciada por uma potência em ascensão. Hoje seria proclamada por um país que muitos percebem em declínio relativo, ansioso com a presença chinesa e com instituições internas fragilizadas.
É exatamente esse quadro, afirmam, que torna os Estados Unidos mais imprevisíveis e perigosos para a região.
“Ironicamente, isso transforma os EUA numa das principais fontes de instabilidade para a América Latina hoje”, concluiu uma das fontes.
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