A Tether, maior emissora de stablecoins do planeta e criadora do USDT — uma das principais versões do dólar digital —, moveu ação na Justiça de São Paulo contra o Banco Master. A empresa cobra o equivalente a R$ 1,64 bilhão (cerca de US$ 327,4 milhões), incluindo juros, referente a um financiamento de US$ 300 milhões concedido em março de 2025 a uma holding associada à instituição financeira.
O contrato previa pagamento integral em um ano, com vencimento em março de 2026. No entanto, cláusulas de aceleração do débito foram disparadas após o rebaixamento da nota de crédito do banco pela agência Fitch, motivado pelo veto à venda do Master ao BRB. Desde agosto do ano passado, as parcelas deixaram de ser honradas, configurando inadimplência. A Tether também alega desconhecimento prévio das investigações policiais que atingiram a instituição, tornadas públicas apenas em novembro.
A multinacional, com sede em El Salvador, pede a penhora imediata de uma conta específica no Master, que recebia os depósitos mensais de empréstimos consignados da linha Credcesta para servidores públicos. Esses recursos serviam como garantia colateral do empréstimo. Além disso, a empresa solicita a busca e apreensão de outros bens do banco para quitar o débito.
Documentos processuais indicam que o Master reconheceu a obrigação em procedimento arbitral em Londres. A Tether sustenta que a operação foi firmada com a Titan Holding, uma empresa offshore aberta por Daniel Vorcaro nas Ilhas Cayman e posteriormente transferida a outros executivos do banco. Embora a holding esteja fora do conglomerado bancário formal, o acordo envolveu garantias de ativos brasileiros, e a Tether requer que a Justiça não considere esses bens como parte do patrimônio do Master para fins de rateio com outros credores.
O banqueiro Daniel Vorcaro, que controlava o Master na época da transação, não quis se manifestar sobre o caso. A Tether reforça que o não pagamento, iniciado em setembro, não compromete a estabilidade ou liquidez de suas criptomoedas, integralmente lastreadas em reservas de dólar, euro e ouro.
Com o pedido judicial, a companhia tenta se posicionar à frente na fila de credores formada após a liquidação do banco, que prioriza débitos trabalhistas e fiscais. Estimativas do Fundo Garantidor de Créditos apontam que o Master gerou prejuízos da ordem de R$ 50 bilhões.
Desde que assumiu o controle do antigo Banco Máxima em 2019, Vorcaro expandiu as operações de câmbio da instituição, direcionando grande parte delas para o mercado de criptoativos. A ação da Tether expõe mais uma frente de pressão sobre o banco, já envolvido em investigações da Polícia Federal, como a Operação Colossus, que apurou remessas internacionais suspeitas de ligação com lavagem de dinheiro.
A disputa judicial destaca os riscos das relações entre instituições financeiras tradicionais e o setor de criptomoedas, especialmente em contextos de instabilidade regulatória e creditícia no Brasil. A Tether busca agora, por via judicial, recuperar o montante emprestado e proteger seus interesses como credora.
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