Em janeiro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro pressionou diretamente o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para liberar o primeiro repasse do contrato de financiamento do filme “Dark Horse”, produção associada à família Bolsonaro. A cobrança, feita por meio do empresário Thiago Miranda, produziu resultado imediato: o projeto foi elevado à posição de maior urgência nas finanças de Vorcaro.
Conforme a reportagem do The Intercept, mensagens e documentos obtidos revelam que, naquela mesma ocasião, o principal auxiliar de Vorcaro, o empresário e pastor Fabiano Zettel, controlava pagamentos atrasados que totalizavam 55,5 milhões. Mesmo assim, nenhum outro compromisso obteve a mesma atenção dedicada ao longa-metragem.
As trocas de mensagens deixam clara a mudança de prioridade. No dia 20 de janeiro, data final prevista para o primeiro aporte, Miranda avisou Vorcaro: “Cara, hoje é a data limite daquele primeiro aporte filme. Preciso acelerar. Estamos no laço.” Ele enviou junto uma captura de tela de conversa com Flávio Bolsonaro, onde o senador cobrava rapidez do departamento jurídico, lembrando que o roteirista tinha compromisso somente até o fim do mês.
Vorcaro respondeu de forma curta: “Vou atras aqui.” A partir daí, passou a monitorar o assunto pessoalmente. Em 21 de janeiro, Zettel pediu instruções sobre os débitos pendentes e informou o valor total. Logo em seguida, Vorcaro perguntou especificamente sobre o filme: “O filme ta nesse negocio?” Zettel detalhou o montante, na ordem de milhões de dólares.
A cobrança não parou. Em 28 de janeiro, Vorcaro questionou novamente se o pagamento havia sido feito. Zettel respondeu que “não havia entrado 1 real tem 3 semanas” e confirmou que o projeto nem aparecia na lista de prioridades. Foi nesse momento que o banqueiro decidiu: “Esse e o mais importante disparado. Nao pode falhar mais.”
A orientação ganhou relevância ainda maior porque o Banco Master já sofria questionamentos do Banco Central sobre capital, liquidez e captação de recursos. Apesar disso, Vorcaro mobilizou sua equipe para garantir que os recursos destinados ao fundo Havengate — gerido pelo advogado Paulo Calixto, próximo a Eduardo Bolsonaro — seguissem sem interrupções.
De acordo com o The Intercept, até maio de 2025 haviam sido transferidos ao menos 10,6 milhões de dólares para o projeto, dentro de um plano inicial de quase 24 milhões de dólares (cerca de R$ 134 milhões na cotação da época).
As conversas mostram que o financiamento não era visto como mais uma operação. Diante de várias demandas de alto valor e das dificuldades regulatórias do banco, Vorcaro tratou o filme sobre Jair Bolsonaro como prioridade absoluta.
Procurados pelo The Intercept, Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, Flávio Bolsonaro, Thiago Miranda e Paulo Calixto não se manifestaram até o fechamento da matéria original. O espaço continua aberto para respostas.
Essa leva de diálogos reforça as revelações anteriores do veículo e detalha os bastidores: mesmo com o caixa apertado, o projeto cinematográfico ligado aos Bolsonaro foi colocado no topo das prioridades financeiras de Vorcaro.
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