Revelação em delação rejeitada expõe novo acordo milionário ligado à esposa de Moraes

Banqueiro propôs garantir R$ 50 milhões extras por meio de empresa associada, mas o documento não foi assinado, segundo fontes
Por: Brado Redação 03.jun.2026 às 16h47
Revelação em delação rejeitada expõe novo acordo milionário ligado à esposa de Moraes
Foto: Gustavo Moreno/STF

A proposta inicial de colaboração premiada apresentada por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, foi recusada pela Polícia Federal em 20 de maio. Um dos anexos desse acordo rejeitado trazia detalhes inéditos sobre os laços do banqueiro com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Pouco antes da prisão de Vorcaro e da liquidação da instituição financeira, uma empresa vinculada a ele preparou um segundo contrato com o escritório de advocacia Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

De acordo com a versão oferecida na ocasião, o novo instrumento previa o repasse de R$ 50 milhões ao escritório. No entanto, o documento nunca chegou a ser assinado, conforme confirmaram duas fontes com acesso direto ao material. Pessoas próximas ao ex-executivo explicaram que o acerto adicional foi redigido em agosto de 2025. Naquele período, já se projetava a venda iminente do banco, e o objetivo era assegurar o cumprimento integral dos valores previstos no acordo original, independentemente de quem assumisse o controle da instituição.

O contrato inicial, divulgado anteriormente, estabelecia pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões ao escritório Barci de Moraes, totalizando R$ 130 milhões entre janeiro de 2024 e janeiro de 2027. A ideia do segundo documento era blindar esse montante total mesmo após eventual transferência de propriedade do Master. Os pagamentos efetivamente realizados somaram cerca de R$ 80,2 milhões entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, conforme dados da Receita Federal repassados à CPI do Crime Organizado. Isso equivale a 22 das 36 parcelas combinadas. Os repasses foram interrompidos com a detenção de Vorcaro e a intervenção regulatória no banco, e não por causa de uma venda.

O primeiro acordo previa que o escritório atuaria junto a órgãos como Banco Central, Cade, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e Receita Federal. Consultas feitas por meio da Lei de Acesso à Informação a esses órgãos, porém, não registraram qualquer atuação formal da advogada em nome do Master. Essa ausência de registros oficiais contrastou com o alto valor dos honorários e alimentou questionamentos sobre a real finalidade dos serviços contratados.

Na proposta de delação que não foi aceita, Vorcaro não identificou explicitamente qual empresa ligada a ele assinaria o novo contrato. Investigadores também notaram lacunas importantes: não ficou claro por que seria necessário transferir o compromisso para outra pessoa jurídica se o vínculo original era com o próprio banco, nem por que não se poderia aguardar a conclusão da venda para que o futuro proprietário decidisse sobre a continuidade dos serviços. Além disso, a delação não detalhou os critérios usados para chegar ao valor de R$ 50 milhões restantes.

Fontes envolvidas na apuração indicam que essas inconsistências contribuíram para a rejeição da primeira oferta de colaboração. Embora não tenham sido o único motivo, elas não convenceram os responsáveis pela investigação. O documento mencionado foi apreendido durante fases da Operação Compliance Zero, o que explica sua inclusão no material entregue.

Recentemente, Vorcaro apresentou uma nova versão de delação premiada, que ainda está em análise pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. Em nota, o escritório Barci de Moraes afirmou não ter concretizado qualquer outro contrato com Vorcaro ou suas empresas, nem prestado serviços adicionais ou recebido valores além do que já foi declarado. Procurado, o ministro Alexandre de Moraes não quis se manifestar sobre o tema.

O caso integra um contexto mais amplo de investigações que envolvem o Banco Master, incluindo supostas irregularidades fiscais, relações com autoridades e o destino dos recursos da instituição. A primeira proposta de delação, rejeitada, trouxe à tona não apenas o possível novo contrato, mas também destacou as dificuldades em esclarecer completamente os arranjos financeiros entre o banqueiro e o escritório ligado à família do ministro. 

Essa narrativa reforça o debate sobre transparência em contratos de consultoria envolvendo figuras públicas e instituições financeiras sob escrutínio, especialmente quando os valores envolvidos são elevados e os registros de atuação efetiva permanecem limitados. As autoridades continuam examinando o material para avaliar a credibilidade das informações fornecidas e decidir os próximos passos na colaboração de Vorcaro.



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