Um áudio vazado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) revela cobranças diretas ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, por atrasos nos repasses destinados ao filme "Dark Horse", produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A gravação, obtida e divulgada pelo Intercept Brasil, expõe a tensão entre os envolvidos em um projeto cinematográfico de alto custo.
Na conversa, supostamente registrada em 8 de setembro de 2025, Flávio demonstra desconforto ao cobrar o empresário. “Eu fico sem graça de ficar te cobrando, está em um momento muito decisivo aqui do filme.
E tem muita parcela para trás, e está todo mundo tenso e eu fico preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou pro filme, né?”, afirma o senador na gravação.
Ele alerta ainda para os riscos de imagem: “Imagina a gente dando calote no Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos do cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim”. Os nomes citados referem-se a atores internacionais contratados para o longa.
Os repasses totalizaram cerca de R$ 61 milhões, realizados em seis transferências entre fevereiro e maio de 2025. O acerto original previa até R$ 134 milhões, mas não há confirmação de que a quantia completa tenha sido entregue. Os recursos circularam por meio da Entre Investimentos e Participações, ligada a Vorcaro, e seguiram para o fundo Havengate Development Fund LP, com sede no Texas (EUA), supostamente administrado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
Empresários Thiago Miranda e Fabiano Zettel – este último identificado pela Polícia Federal como principal operador de Vorcaro – participaram como intermediários nas negociações. A cobrança registrada em áudio ocorreu pouco antes de eventos graves para o banqueiro: um dia antes de sua primeira prisão na Operação Compliance Zero e dois dias antes da intervenção que resultou na liquidação do Banco Master.
A divulgação do áudio pelo Intercept Brasil trouxe à tona os diálogos e intensificou o escrutínio sobre as relações entre o senador, pré-candidato à Presidência, e o mundo financeiro. Flávio Bolsonaro e sua equipe foram procurados para comentar o vazamento, mas não apresentaram resposta até o momento.
O filme Dark Horse surge como uma iniciativa ambiciosa para consolidar narrativa favorável ao ex-presidente. Contudo, o vazamento da gravação coloca em destaque os mecanismos de financiamento privado para produções de grande porte e possíveis conflitos quando esses recursos envolvem figuras políticas em ascensão.
Analistas de transparência e compliance avaliam que transações dessa escala, especialmente conectadas a instituições sob pressão regulatória e a pré-candidatos, exigem fiscalização rigorosa. Não existem, até agora, acusações formais de irregularidades específicas nesse financiamento, mas o conteúdo do áudio vazado alimenta discussões sobre ética, governança e prestação de contas em projetos culturais com viés político.
O caso ilustra o modelo comum de captação de recursos para o audiovisual brasileiro, que frequentemente depende de contatos pessoais e empresariais. Com Flávio posicionado como nome relevante no PL para as próximas eleições, o episódio do áudio pode gerar impactos no ambiente pré-eleitoral, questionando a origem e a execução dos valores.
Daniel Vorcaro permanece no centro de várias investigações relacionadas ao Banco Master. A proximidade entre os pagamentos ao filme e os problemas enfrentados pela instituição bancária aumenta a curiosidade de autoridades e da sociedade sobre eventuais ligações.
A gravação capturada mostra claramente o momento de pressão, quando os atrasos colocavam em risco o cronograma da produção e a relação com os talentos estrangeiros. A preocupação verbalizada pelo senador reflete o elevado investimento simbólico e financeiro no projeto, concebido para alcançar grande público.
Em essência, o vazamento do áudio de Flávio Bolsonaro desnuda uma rede de contatos diretos, intermediários e estruturas no exterior que sustentaram o longa. Apesar dos R$ 61 milhões já transferidos, o montante total negociado sugere uma escala ainda maior, cuja conclusão integral segue sem comprovação definitiva. O assunto continua gerando repercussão, sobretudo diante do calendário político que se aproxima.
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