Quatro integrantes da diretoria colegiada do Banco Central alteraram sua posição e deram aval, em outubro de 2019, para que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro comprasse o Banco Máxima e criasse o Banco Master. A decisão ocorreu oito meses depois de a mesma diretoria ter rejeitado, por unanimidade, o mesmo pedido.
Em fevereiro de 2019, ainda na gestão do presidente Ilan Goldfajn, os diretores votaram contra a operação. O principal motivo foi a falta de comprovação da origem dos recursos e da capacidade econômica de Vorcaro e seus sócios para se tornarem controladores de uma instituição financeira. Na época, Sidnei Corrêa Marques ocupava o cargo de diretor de Organização do Sistema Financeiro e deixou a posição em fevereiro sem aprovar o negócio.
Em 9 de fevereiro de 2019, Vorcaro enviou e-mail a Paulo Sérgio Neves de Souza pedindo ajuda para resolver a aprovação antes da saída de Sidnei. A votação de rejeição aconteceu em 13 de fevereiro, com placar unânime.
Em 14 de outubro de 2019, já sob a presidência de Roberto Campos Neto, a diretoria colegiada voltou a analisar o caso e aprovou a operação por unanimidade (8 a 0). O entendimento técnico foi de que Vorcaro apresentou nova documentação comprovando a origem dos recursos, atendendo ao requisito que havia motivado a rejeição anterior.
Dos oito diretores que participaram da votação de outubro, quatro haviam participado também da reunião de fevereiro e mudaram de posição: Maurício Moura (diretor de Relações Institucionais e Cidadania), Carolina de Assis Barros (diretora de Administração), Paulo Sérgio Neves de Souza (diretor de Fiscalização) e Otávio Ribeiro Damaso (diretor de Regulação).
Os outros diretores que votaram pela aprovação em outubro foram Roberto Campos Neto (presidente), João Manoel Pinho de Mello (Organização do Sistema Financeiro), Bruno Serra Fernandes (Política Monetária) e Fernanda Nechio (Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos). Não havia diretor de Política Econômica nomeado nas duas ocasiões.
Otávio Damaso foi indicado originalmente por Dilma Rousseff e reconduzido nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Carolina de Assis Barros, Maurício Moura e Paulo Sérgio Neves de Souza foram indicados por Temer e mantidos no cargo durante a gestão Bolsonaro.
O caso ganhou novo fôlego recentemente com o rombo bilionário registrado no Banco Master, que gerou prejuízo de R$ 52 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e cerca de R$ 2 bilhões em fundos de investimento. O atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que a aprovação ocorreu após o envio de novos documentos que atenderam à regra de captação mínima de recursos.
Galípolo declarou que as investigações internas do Banco Central não identificam responsabilidade direta de Roberto Campos Neto no episódio. A posição gerou críticas de aliados do governo Lula, que cobram maior transparência sobre as decisões de 2019. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) questionou a suficiência do controle interno do BC e afirmou que ele pode servir como escudo para omissões.
Em dezembro de 2025, Galípolo havia descrito a transição entre ele e Campos Neto como “entre amigos” e elogiado a atuação do antecessor na política monetária. No início de abril de 2026, o presidente Lula pediu que Galípolo explicasse publicamente “quem é quem” no caso Master.
Paulo Sérgio Neves de Souza foi afastado do Banco Central após indícios, apontados pela Polícia Federal, de que recebia mesada de Daniel Vorcaro. Vorcaro está preso, investigado por fraudes. O Banco Máxima, antigo controlador, já havia sido alvo de processo administrativo por irregularidades graves em demonstrações financeiras.
A operação Master passou, no fim de 2024, por termo de ajuste de conduta com o BC devido a problemas de liquidez e atrasos no pagamento de depósitos compulsórios. Roberto Campos Neto solicitou análises da carteira do banco em 2023 e 2024, mas não compareceu a audiências públicas na CPI do Crime Organizado, sendo dispensado por decisão do Supremo Tribunal Federal.
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