Após a operação militar que levou à captura de Nicolás Maduro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou uma versão revisada da acusação contra o ex-líder venezuelano. Nela, os procuradores deixaram de tratar o Cartel de los Soles como uma entidade criminosa organizada e liderada por ele.
O termo, que surgiu na imprensa venezuelana nos anos 1990 como uma expressão informal para descrever corrupção envolvendo oficiais militares e recursos do narcotráfico, foi elevado pelo governo Trump a uma suposta organização terrorista. Em 2020, uma acusação inicial apresentava Maduro como chefe desse grupo, com mais de 30 menções ao nome. Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro o classificou como entidade terrorista, medida repetida pelo Departamento de Estado em novembro, por orientação de Marco Rubio, então secretário de Estado e conselheiro de segurança nacional.
Especialistas em crime organizado e narcotráfico na América Latina sempre afirmaram que o Cartel de los Soles não passa de uma metáfora para redes difusas de corrupção, sem estrutura hierárquica centralizada. Na nova acusação, divulgada logo após a detenção de Maduro, o termo aparece apenas duas vezes e é definido como um “sistema de clientelismo” sustentado por lucros do tráfico de drogas, que beneficia funcionários corruptos em diferentes níveis.
A revisão mantém as alegações de que Maduro participou de conspirações relacionadas ao narcotráfico, inclusive com proteção a parceiros criminosos. No entanto, associa isso a uma “cultura de corrupção” perpetuada por ele e por seu antecessor, Hugo Chávez.
Elizabeth Dickinson, da International Crisis Group e especialista em América Latina, considerou a nova descrição “mais alinhada à realidade”. Ela observou, porém, que as designações como organização terrorista não exigem provas judiciais rigorosas, o que explica por que elas permanecem inalteradas apesar da mudança na acusação formal. “Eles sabiam que não conseguiriam sustentar isso em um tribunal”, afirmou.
No dia seguinte à divulgação da acusação revisada, Marco Rubio manteve o discurso anterior em entrevista ao programa “Meet the Press”, da NBC, referindo-se ao Cartel de los Soles como uma organização real e afirmando que Maduro era seu líder.
O ajuste na acusação ocorre em meio a intensas pressões diplomáticas e militares sobre a Venezuela ao longo de 2025, culminando na operação que removeu Maduro do poder. Analistas apontam que a mudança reflete a dificuldade de comprovar em juízo a existência de uma estrutura cartelizada, diferentemente das sanções administrativas que serviram para justificar ações mais amplas.
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