A Polícia Federal identificou que Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, transferia R$ 400 mil mensalmente a um agente federal aposentado para obter informações reservadas sobre inquéritos que envolviam a família. O esquema incluía bônus, presentes e pagamentos extras a servidores da ativa, segundo relatório da corporação.
Marilson Roseno da Silva, o agente aposentado, atuava como líder de um grupo batizado internamente de “a Turma”. Ele intermediava os contatos e recrutava colegas para fornecer acessos ao sistema e-Pol, onde ficam registrados os procedimentos em andamento. Com isso, os Vorcaro conseguiam anteceder ações policiais, como no caso em que Daniel obteve um mandado de prisão contra si e repassou a um site de notícias antes da operação.
Roseno recebia os valores disfarçados como contratos de prestação de serviços pela empresa Roseno & Ribeiro Gestão Empresarial. Parte dos recursos passava pela King Participações, controlada por Luiz Phillipi Mourão — funcionário de Daniel Vorcaro apontado como “sicário” no relatório. Os repasses eram feitos, em alguns casos, pelo cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel. Mensagens trocadas mostram cobranças diretas: em janeiro, Roseno reclamou de atrasos e pediu R$ 800 mil, alegando que só recebia metade do combinado.
Além dos pagamentos fixos, o esquema previa bônus de fim de ano, descrito como “oferenda” de Vorcaro, e presentes. Um áudio registra agente da ativa agradecendo Pix enviado em 31 de dezembro de 2025. Roseno também orientava o contador sobre técnicas para ocultar a origem do dinheiro, sugerindo fracionamento via CPFs de terceiros e uso de “laranjas”. Erlene Nonato Lacerda aparece nos autos como suposta intermediária, com notas fiscais de R$ 50 mil emitidas pela empresa dos Vorcaro.
O núcleo contava com Anderson Wander da Silva, agente da ativa chamado de “longa manus” no documento. Ele consultava dados no e-Pol sobre investigações contra os Vorcaro e chegou a pedir ajuda a outro colega para informações de passaporte. A delegada Valéria Vieira Pereira da Silva também realizou acessos a inquéritos de interesse da família, repassando documentos ao marido, o agente aposentado Francisco Pereira da Silva (Chicão). Muitas mensagens trocadas com o casal foram apagadas, e a PF não identificou pagamentos diretos a eles.
Outro aposentado, Sebastião Monteiro Júnior, participava de reuniões para recrutar mais servidores. Áudios e imagens de câmeras de segurança registraram encontros discretos entre ele e Roseno para discutir “ideias”. Por determinação do STF, Roseno, Wander, Monteiro Júnior e Chicão foram alvos de prisão preventiva. A delegada Valéria foi afastada das funções.
O esquema garantia à família Vorcaro vantagem estratégica em investigações da PF, permitindo antecipar medidas judiciais e preparar defesas. As autoridades continuam analisando o alcance completo da rede e possíveis outros envolvidos. As defesas dos citados foram procuradas, mas não responderam ou não comentaram o caso até a publicação.
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