Cardeais americanos criticam política externa dos EUA em declaração rara e sem citar Trump

Líderes da Igreja Católica nos Estados Unidos condenam "nacionalismo exacerbado" e "isolacionismo", em texto que ecoa preocupações com a atual administração
Por: Brado Jornal 19.jan.2026 às 19h48
Cardeais americanos criticam política externa dos EUA em declaração rara e sem citar Trump
Foto: Filippo Monteforte/AFP
Em uma declaração conjunta considerada rara pela hierarquia católica americana, um grupo de cardeais dos Estados Unidos expressou críticas à política externa do país, apontando riscos de "nacionalismo exacerbado", "isolacionismo" e "desrespeito ao multilateralismo". O documento, divulgado neste domingo (18), não menciona nomes de líderes políticos, mas o timing e o conteúdo são amplamente interpretados como recado à administração de Donald Trump, que retomou o poder em janeiro de 2025 com agenda de "América Primeiro".

Assinada por sete cardeais, entre eles Timothy Dolan (Nova York), Blase Cupich (Chicago), Wilton Gregory (Washington), Joseph Tobin (Newark), Seán O'Malley (Boston), Robert McElroy (San Diego) e Christophe Pierre (núncio apostólico nos EUA), a nota enfatiza que "a busca pela paz e pela justiça global não pode ser subordinada a interesses nacionais estreitos". Os religiosos defendem:
Cooperação internacional em temas como mudança climática, migração e conflitos armados;
Respeito aos tratados multilaterais e às instituições globais;
Solidariedade com nações mais pobres e vulneráveis;
Rejeição a posturas que "fecham portas ao diálogo" ou "priorizam a força sobre a diplomacia".

O texto afirma: "Quando o nacionalismo se torna exacerbado, ele ameaça a fraternidade humana que o Evangelho nos convida a construir. O isolacionismo pode parecer proteção, mas na verdade fragiliza a segurança coletiva e o testemunho cristão no mundo".

A declaração surge em momento delicado: Trump tem ameaçado tarifas adicionais contra aliados europeus que não cedam à sua demanda pela Groenlândia, pressionado a OTAN por aumento de gastos militares e sinalizado saída ou redução de participação em acordos internacionais sobre clima e comércio. A política externa americana também tem sido marcada por embates com a China e pela redução de ajuda humanitária em várias regiões.

Embora o Vaticano tradicionalmente evite confrontos diretos com governos, o núncio Pierre, representante pessoal do papa Francisco nos EUA, assinou o documento, o que dá peso oficial à crítica. Francisco já havia condenado repetidamente o "nacionalismo exacerbado" e o "populismo que semeia medo do estrangeiro" em encíclicas e discursos, alinhando-se à visão expressa pelos cardeais americanos.
Reações foram divididas. Católicos conservadores próximos a Trump classificaram o texto como "interferência indevida" e "política disfarçada de pastoral". Por outro lado, progressistas católicos e analistas internacionais viram na nota um sinal de que a Igreja nos EUA busca se distanciar de uma agenda percebida como contrária aos valores evangélicos de fraternidade e paz.

O texto não cita Trump nem qualquer administração específica, mantendo o tom genérico e doutrinal típico de pronunciamentos eclesiais. Ainda assim, o silêncio sobre nomes não diminui o impacto simbólico em um país onde o catolicismo é a maior denominação cristã e onde a polarização política tem dividido inclusive fiéis e bispos.

A declaração foi publicada no site da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) e distribuída a dioceses americanas, sugerindo que pode ser lida em missas ou usada em reflexões pastorais nas próximas semanas.


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