É chegado o período eleitoral e, com ele, o frenesi social que abarca o Brasil a cada quatro anos, carregado dos mais distintos sentimentos por parte da população.
Existem, pelo menos, dois grupos de pessoas que podemos identificar neste grande conjunto eleitoral nacional.
O primeiro grupo é o cidadão apático, indiferente, que desacredita do sistema por diversos motivos: seja pela classe política, seja pela corrupção, seja por fatores culturais ou, pasmem, até mesmo pelas urnas eletrônicas.
Declaro, para fins judiciais, que este mero escritor não pode — e nem tem do que — reclamar das soberanas e infalíveis urnas nacionais, símbolo da nossa pujante democracia.
O outro grupo é formado pelo cidadão carregado de expectativas. Seus olhos brilham diante do ímpeto de que “agora sim vamos mudar o Brasil”; agora sim a nação será uma referência institucional e social; agora sim seremos uma potência. Basta eleger o candidato A ou B para que sejamos gigantes e o Brasil se transforme no Éden.
Permitam-me ser cético. Talvez minha formação conservadora possa confundi-los com puro pessimismo. Ainda assim, lanço uma pergunta, à qual responderei nas linhas a seguir:
O voto no Brasil compensa?
Respondo: não.
Mas, antes de me xingarem, trucidarem-me e me chamarem dos nomes menos dignos que o vocabulário lhes permite, faço um pedido simples: crucifiquem este carteiro, mas, pelo menos, leiam a carta que vos trago.
O Brasil — e aqui me restringirei ao período posterior à Independência, em 1822 — passou por diferentes sistemas eleitorais. Não pretendo, contudo, fazer aqui uma cronologia exata de cada período, para não ser enfadonho com o caro leitor que, respeitosamente, me acompanha.
Segundo Augusto Tavares de Lyra, uma das primeiras experiências de organização eleitoral que alcançaram o Brasil ocorreu ainda no período joanino, em 1821, quando foram convocadas eleições para a escolha de deputados brasileiros às Cortes Constituintes de Lisboa, seguindo-se o modelo inspirado na Constituição espanhola de 1812.¹
No período imperial, diversas alterações foram realizadas no campo eleitoral. O sufrágio estava longe de ser universal: havia exigências de renda e idade, além da exclusão de escravizados e de outros grupos. A situação dos analfabetos, entretanto, merece uma ressalva: eles ainda podiam votar durante boa parte do Império, tendo seu direito restringido pela reforma eleitoral de 1881.²
A chamada Lei Saraiva, de 1881, instituiu eleições diretas para os cargos eletivos do Império e criou o título de eleitor, ao mesmo tempo em que estabeleceu restrições que reduziram significativamente o eleitorado. A reforma teve participação decisiva de Rui Barbosa, responsável pela redação do projeto.³
No final do Império, há inclusive registros de mulheres que reivindicaram o direito ao voto. É o caso de Isabel de Mattos Dillon, que, valendo-se de uma interpretação da legislação eleitoral então vigente e de sua condição de diplomada em odontologia, buscou obter o título de eleitora em 1885. Seu caso se tornou uma das mais curiosas controvérsias envolvendo o sufrágio feminino no Brasil imperial.⁴
Apesar das limitações e dos critérios peculiares ao modelo atual, é inegável que o Império brasileiro apresentou uma classe política que, em determinados aspectos, possuía formação intelectual bastante elevada quando comparada a boa parte da classe política contemporânea.
A título de exemplo: no Império tivemos parlamentares e homens de Estado como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e o Barão do Rio Branco, cujas atuações políticas e intelectuais ultrapassaram seu próprio tempo e ainda influenciam o Brasil contemporâneo.
Na política e na conjuntura atuais, temos Zé Trovão, Erika Hilton, Tiririca e outros nomes sobre os quais não farei juízo de valor. Este mero carteiro preza por tentar ser minimamente isento diante de seus leitores. Façam vocês seus próprios julgamentos.
Repito: leiam antes de crucificar-me!
A monarquia brasileira foi derrubada por um movimento militar que abriu caminho para uma República cuja primeira fase foi marcada pela predominância dos militares e por sucessivas crises políticas. A chamada Questão Militar, a Questão Religiosa, o desgaste da monarquia, o impacto político da abolição e a insatisfação de setores das elites econômicas e militares contribuíram, em diferentes graus, para o desfecho de 15 de novembro de 1889.
Assim nasceu a República: carente de participação popular, carente de símbolos próprios e estabelecida por meio de um movimento essencialmente militar, sem uma consulta popular prévia que legitimasse a mudança do regime.
Aristides Lobo, republicano e jornalista, registrou em carta publicada no Diário Popular sua impressão sobre o acontecimento. Em uma das passagens mais célebres, escreveu:
> “O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.”
— Aristides Lobo, Diário Popular, 18 de novembro de 1889.⁵
A República nasceu, portanto, em meio a uma profunda ruptura institucional e carregou consigo problemas que atravessariam boa parte da história brasileira. Oligarquias se constituíram, o estamento e o patronato se impuseram — como procurei discutir em meu artigo A República dos Jecas: patrimonialismo e degradação política no Brasil.⁶ O novo regime atravessou períodos de estado de sítio, repressão política, ditaduras e graves violações das liberdades civis.
Durante a Primeira República, por exemplo, a estrutura política local foi marcada pelo coronelismo e por relações de dependência entre eleitores e chefes políticos. O chamado “voto de cabresto” tornou-se uma das expressões mais conhecidas desse sistema de controle político.⁷
Dito isso, sair de casa e simplesmente votar por automatismo pode ser o ápice da ilusão do brasileiro médio afetado pela crença de que “seu voto pode mudar o Brasil”.
Este carteiro vos afirma: seu voto não tem poder para mudar nada.
Um câncer não se trata com dipirona.
O nosso problema é enraizado. É histórico. É cultural. E não se muda simplesmente pela via política.
Russell Kirk compreendia o conservadorismo moderno como uma postura de resistência à inovação radical e às rupturas revolucionárias, especialmente àquelas inspiradas no espírito da Revolução Francesa.⁸ Se nossa República nasceu de uma ruptura institucional, não me peçam para simplesmente legitimar, por meio de um voto automático, tudo aquilo que veio depois dela.
Somos um país em que, ao visitar um banco público, podemos nos deparar com uma caneta amarrada a uma corda para que, ao utilizá-la, o cidadão não a leve para casa sem devolvê-la à instituição.
Acha mesmo que este problema se resolve com voto?
Não me venha com esse papo de que a culpa é da direita ou da esquerda. Nosso problema é cultural. É um problema moral e espiritual.
Nossa decadência cultural reflete-se em nossa decadência política, porque formamos políticos incultos — e, de incultura, nossa classe política é especialista.
É aqui que talvez o leitor perceba que minha crítica nunca foi exclusivamente ao voto. O problema é mais profundo.
A democracia brasileira criou a expectativa de que o ato de apertar um botão pode substituir a responsabilidade cívica, a formação moral, a cultura política e a transformação das instituições. O voto tornou-se, para muitos, uma espécie de sacramento secular: deposita-se a esperança diante da urna e aguarda-se o milagre.
José Lins do Rego, em Fogo Morto, nos oferece uma reflexão curiosamente apropriada para este debate. No diálogo entre o capitão Vitorino e seu compadre José Amaro, encontramos:⁹
> “— Compadre, eu não estou pensando nestas coisas. Vivo aqui nesta tenda, e quero sair daqui para o cemitério.
> — Besteira. O compadre tem o seu voto.
> — O que é um voto, meu compadre?
> — Um voto é uma opinião. É uma ordem que o senhor dá aos que estão em cima. O senhor está na sua tenda e está mandando num deputado, num governador.
> — Compadre Vitorino, eu só quero mandar na minha família.
> — É por isso que esta terra não vai para diante. É por isso. É porque um homem como meu compadre José Amaro não quer dar valor ao que tem.”
Note: essa ilusão não é recente.
A ideia de que o voto, por si só, confere ao indivíduo poder suficiente para transformar a realidade brasileira atravessa gerações. Vitorino acredita que o voto concede ao homem comum o poder de “mandar” nos que estão acima. José Amaro, porém, parece compreender intuitivamente a distância entre possuir formalmente um instrumento político e possuir efetivamente o poder de transformar a própria realidade.
Talvez esteja aí a verdadeira questão deste artigo.
Não se trata de afirmar que o voto seja literalmente inútil, mas de questionar a dimensão quase messiânica que lhe atribuímos.
O voto pode escolher governantes. Pode alterar maiorias parlamentares. Pode produzir mudanças institucionais pontuais. Mas não pode, sozinho, produzir cultura, virtude, responsabilidade, educação, patriotismo ou consciência cívica.
O voto pode mudar o ocupante de um cargo.
Não pode, sozinho, mudar um povo.
E talvez seja justamente por isso que continuemos, eleição após eleição, esperando que o próximo candidato faça aquilo que nenhuma urna jamais poderá fazer por nós.
Por fim, este humilde carteiro conclui esta carta ao leitor e agradece pela atenção concedida.
Que Deus abençoe o Brasil.
Gabriel Carneiro
Bahia, 17 de agosto de 2026
Referências
1 LYRA, Augusto Tavares de. Esboço histórico do regime eleitoral do Brasil, 1821-1921. Rio de Janeiro: Typografia do Jornal do Commercio, 1922.
2 TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Eleições nos tempos do imperador. Brasília: TSE. A página histórica do Museu do Voto registra que os analfabetos puderam votar durante quase todo o período imperial, sendo o voto dos iletrados proibido pela Lei Saraiva, de 1881.
3 TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Lei Saraiva. Brasília: TSE.
4 Sobre Isabel de Mattos Dillon e sua reivindicação do direito de voto em 1885: documentação histórica sobre a evolução do sufrágio feminino no Brasil.
5 LOBO, Aristides. “Acontecimento único”. Diário Popular, São Paulo, 18 nov. 1889.
6 CARNEIRO, Gabriel. A República dos Jecas: patrimonialismo e degradação política no Brasil. Revista Oeste, 13 jun. 2026.
7 LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. Rio de Janeiro: Forense.
8 KIRK, Russell. “Conservatism: A Succinct Description”. National Review, 3 set. 1982.
9 REGO, José Lins do. Fogo Morto. Rio de Janeiro: José Olympio.
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