Posicionamento na largada

Um deles já larga aleijado pelo próprio partido, que tenta sustentar uma candidatura presidencial sem sequer contar com o apoio dos próprios filiados.
Por: Vanessa Moreira 20.ago.2026 às 15h53
Posicionamento na largada

O resultado de uma corrida depende principalmente de ritmo, preparo, estratégia, resistência e desempenho ao longo de todo o percurso. Ainda assim, analisar a largada é fundamental para compreender o cenário inicial e ter um panorama do posicionamento dos participantes.

Em linha, a corrida começa com cinco candidatos que merecem atenção.

Um deles já larga aleijado pelo próprio partido, que tenta sustentar uma candidatura presidencial sem sequer contar com o apoio dos próprios filiados. O que era Novo parece mofado diante de um representante inexpressivo. Sem conseguir recorrer sequer ao peculiar jeitinho mineiro, Zema larga sem contornar a falta de apoio interno, e seu posicionamento inicial já permite vislumbrar uma derrota grande e potencialmente humilhante.

Na sequência, merece destaque Caiado, que chega com Kassab de vice declarando que o Centrão está com Lula. Estaria ele próprio desacreditando do crescimento da chapa? Ou ela já nasce com prazo de validade, pronta para ser negociada no momento oportuno? Numa corrida presidencial, quando alguém larga olhando para a mesa de negociação, é legítimo perguntar se pretende mesmo alcançar a linha de chegada.

Veloz e sagaz, surge aquele que poderá é o elemento surpresa desta corrida: Renan Santos.

Posicionado com as melhores propostas e visto com simpatia pelo mercado financeiro, ele larga em vantagem no campo das ideias e promete surpreender. Sua presença cheia de verdade e autenticidade, parece incomodar justamente aqueles que deveriam estar confortáveis na dianteira. 

E é aí que os líderes da corrida começam tropeçando: Lula e Flávio Bolsonaro.

A democracia exige o debate. Quem foge dele não teme o adversário, teme o confronto de ideias. Ambos, protegidos por cenários controlados e pouco dispostos ao confronto direto de ideias,  já sinalizam que não pretendem participar de debates e começam dando passos na direção da covardia. 

Lula e Flávio protagonizam a polarização e, apesar do esforço de seus respectivos grupos para apresentá-los como extremos opostos, guardam semelhanças importantes em propostas e atitudes e parecem sempre dispostos a abraçar o Centrão e seus acordos, quando a conveniência política exige.

Enquanto Lula observa o tabuleiro e calcula seus passos, Flávio, cheio de confiança, começa postando vídeos produzidos por IA, com performances em festas e de sunga, numa tentativa de afrontar antecipadamente as acusações que sabe que virão correlacionando ele ao seu amigo (visitado em prisão domiciliar pelo pré candidato), Daniel Vorcaro.

Mas há um problema para os dois: na internet, na formulação do discurso e na presença nas ruas, ambos já “comeram poeira” daquele que, nas pesquisas, aparece apenas em terceiro lugar. O Lula possui outras articulações, mas o Flávio, a ele restam pedras para fazer o Renan tropeçar. 

Depois do episódio de uma falsa filiação ao Missão, que colocou de maneira inescrupulosa em dúvida a idoneidade do partido e de seus filiados, surge agora um pedregulho ainda maior no caminho: Pablo Marçal.

Sem demonstrar capacidade retórica suficiente para ocupar sozinho o espaço do confronto político, Flávio cede terreno a Marçal, que cai de paraquedas nesta corrida. E nem sabemos se podemos chamá-lo efetivamente de candidato, considerando sua situação de inelegibilidade e as incertezas jurídicas que ainda cercam seu futuro eleitoral.

Usando religiosidade, uma suposta “moral” e a velha embalagem da teologia da prosperidade, Marçal entra em cena para tentar roubar os holofotes e, de quebra, ajudar o péssimo debatedor com histórico de desmaios, Flávio Bolsonaro.

Com os participantes posicionados, resta-nos acompanhar a corrida e torcer pelo Brasil. Talvez, no entanto, o maior adversário dessa corrida não seja nenhum dos nomes posicionados na pista. É o próprio padrão político que o brasileiro aprendeu a repetir. 

A largada já é marcada por narrativas falaciosas, obstáculos plantados no caminho dos adversários e tentativas de manipular o eleitor. Em meio a tudo isso, existe um brasileiro cansado que anseia por algo diferente: verdade, coragem e mudança real.

Abandonar velhas paixões se faz urgente, pois apenas querer não define futuro. É necessário a atitude de escolher com base na razão. 

A corrida está apenas começando. E a largada já diz muita coisa. Mas nessa corrida quem define talvez seja a maior pedra de tropeço: a emoção pueril do eleitorado brasileiro. Será que o eleitor brasileiro conseguirá vencer a si mesmo?

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