A linguista Valéria Chomsky divulgou um pedido público de desculpas pelo relacionamento mantido por ela e pelo marido, o intelectual Noam Chomsky, com o financista Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais e falecido em 2019. A manifestação foi enviada ao jornalista independente Aaron Maté e destaca que o casal considera o episódio um grave equívoco de avaliação.
Segundo Valéria, a demora para um posicionamento oficial ocorreu devido ao estado de saúde delicado de Noam Chomsky, hoje com 97 anos. O linguista sofreu um derrame em junho de 2023 e desde então permanece sob cuidados médicos contínuos, incapaz de se expressar ou participar de debates públicos. Ela acrescenta que o casal não dispõe de equipe de comunicação, o que contribuiu para a ausência de uma resposta mais rápida e detalhada.
O primeiro encontro com Epstein aconteceu em 2015, em ambiente profissional. Na ocasião, a condenação anterior do financista, ocorrida em 2008 na Flórida, ainda não tinha ampla repercussão pública. Epstein se apresentou como filantropo voltado para a ciência e consultor financeiro, despertando interesse genuíno de Noam Chomsky. Retrospectivamente, Valéria descreve a situação como a abertura de “uma porta para um cavalo de Troia”.
Os contatos incluíram encontros sociais e profissionais, almoços, jantares, hospedagens em imóveis cedidos por Epstein em Nova York e visitas isoladas a um apartamento em Paris. Valéria enfatiza que todas as interações estiveram ligadas às atividades acadêmicas e profissionais de Noam, sem qualquer envolvimento com a ilha privada do financista. Ela garante que, durante esses momentos, o casal nunca testemunhou condutas inadequadas nem a presença de menores.
A declaração aborda também um e-mail enviado por Noam Chomsky a Epstein em fevereiro de 2019, recentemente tornado público. Na mensagem, o linguista orientava o financista a evitar responder às pressões da mídia e às acusações, argumentando que réplicas só gerariam mais ataques. Chomsky mencionava sua própria trajetória de enfrentar campanhas de difamação, afirmava que raramente reagia a denúncias vagas e criticava o que considerava uma “histeria” em torno do tema na época, quando questionar uma acusação já era visto como inadmissível.
Valéria explica que o e-mail reflete o contexto em que foi escrito: Epstein se apresentava como vítima de perseguição midiática injusta, e Noam respondeu com base em suas experiências pessoais. Ela reconhece, no entanto, que o financista construiu uma narrativa manipuladora e que o contato com o casal fazia parte de uma estratégia para ganhar credibilidade por associação com a reputação de Noam.
Sobre questões financeiras levantadas em reportagens, Valéria esclarece dois pontos. Um cheque de US$ 20.000 (cerca de R$ 103 mil na cotação atual) foi pagamento pelo desenvolvimento de um desafio linguístico elaborado por Noam. Já uma transferência de aproximadamente US$ 270 mil (cerca de R$ 1,4 milhão) envolveu exclusivamente recursos do próprio Chomsky, após Epstein oferecer suporte técnico para corrigir irregularidades na aposentadoria do linguista. Não houve acesso de Epstein às contas do casal nem investimentos conjuntos.
No encerramento, Valéria admite negligência do casal ao não pesquisar mais a fundo o passado de Epstein. Ela afirma que ambos se sentiram profundamente abalados ao descobrir a “vida oculta de atos criminosos, desumanos e pervertidos” conduzida pelo financista. A declaração reforça solidariedade total às vítimas e deixa claro que nada no texto pretende minimizar o sofrimento delas.
“Noam e eu reconhecemos plenamente a gravidade dos crimes cometidos por Jeffrey Epstein e o imenso dano causado às suas vítimas. Expressamos nossa solidariedade irrestrita a elas”, conclui Valéria Chomsky.
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