O líder chinês Xi Jinping e o presidente americano Donald Trump realizaram, nesta quinta-feira (30), uma conversa bilateral que resultou em avanços significativos nas negociações comerciais, com foco na diminuição de barreiras tarifárias e compromissos para conter o fentanil e garantir suprimentos de minerais raros. O diálogo, que se estendeu por cerca de uma hora e 40 minutos em uma base aérea em Busan, na Coreia do Sul, representa o primeiro contato direto entre os dois desde a posse de Trump em janeiro, após seu retorno à presidência.
De acordo com declarações de Trump a bordo do Air Force One, ao deixar a região, as alíquotas gerais aplicadas a importações chinesas foram ajustadas para baixo, passando de 57% para 47%. Essa concessão veio em resposta a promessas de Pequim para intensificar ações contra o fluxo de precursores químicos do fentanil, com tarifas específicas sobre itens ligados à droga sendo reduzidas de 20% para 10%. "Eu acho que foi uma reunião incrível", comentou o republicano aos jornalistas, classificando o encontro como "12 de 10" em termos de produtividade.
O que é fentanil? É uma droga sintética muito potente, 50 vezes mais viciante do que a heroína. Hoje é o principal medicamento responsável pelas mortes por overdose de opioides nos EUA. Mas também pode ser prescrito por médicos no país, como analgésico.
A China é a principal fonte dos precursores químicos usados para produzir o fentanil. Em 2019, segundo reportagem da BBC, Pequim classificou o fentanil como um narcótico controlado. Mas o comércio de algumas substâncias envolvidas na produção da droga, muitas delas com finalidades legítimas, continua permitido, e traficantes buscam maneiras de burlar a lei.
Trump destacou que Xi se comprometeu com uma "ação firme" no controle das exportações de substâncias precursoras do fentanil, justificando a revisão tarifária pela maior fiscalização já implementada pela China. Além disso, o acordo prevê a retomada das aquisições chinesas de soja e outros itens agrícolas dos Estados Unidos, com volumes descritos como "enormes" pelo presidente americano, beneficiando produtores rurais afetados pela paralisação anterior das compras.
No tema das terras raras, os líderes firmaram um pacto renovável por um ano, adiando restrições de exportação impostas por Pequim, que controla o monopólio global desses materiais essenciais para indústrias de alta tecnologia e defesa. "Todas as questões sobre terras raras foram resolvidas, e isso é para o mundo", afirmou Trump, enfatizando o impacto global da decisão. A China, por sua vez, concordou em postergar controles de exportação que poderiam desestabilizar cadeias de suprimento internacionais, incluindo para minerais como lítio refinado usado em baterias de veículos elétricos.
O que são terras raras? São um grupo formado por 17 metais, como o praseodímio, o disprósio e o neodímio. Eles são essenciais para a tecnologia moderna, como na fabricação de smartphones e TVs de tela plana. Também têm papel fundamental na estratégia militar, usados em aviões de caça e drones.
A cúpula ocorreu nas margens do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em Busan, e incluiu trocas sobre cooperação em inteligência artificial, com Xi declarando, em pronunciamento posterior, que as nações "não devem cair no ciclo vicioso da vingança" e que as equipes econômicas alcançaram "soluções consensuais" para divergências. O chinês também mencionou "boas perspectivas de cooperação em inteligência artificial" e destacou um "consenso fundamental" recente entre negociadores sobre preocupações mútuas, expressando disposição para fortalecer as bases das relações bilaterais.
No início do diálogo, enquanto apertavam as mãos, Trump brincou: “Vamos ter uma reunião muito bem-sucedida, não tenho dúvida disso. Mas ele é um negociador muito duro”. Xi, por sua vez, instou que Washington e Pequim atuem como "amigos e parceiros".
Outros pontos discutidos envolvem uma colaboração conjunta para mediar o conflito na Ucrânia, com Trump afirmando que os países "trabalharão juntos" nessa frente. No entanto, temas sensíveis como os chips Blackwell da Nvidia, afetados por restrições americanas de exportação, não foram resolvidos e permanecem em aberto.
A disputa comercial entre EUA e China, que se intensificou este mês com ameaças chinesas de barreiras a minerais raros e retaliações americanas de até 100% em tarifas, parece ganhar uma trégua temporária. Analistas apontam que o acordo evita disrupções globais, mas deixa a maioria das barreiras em vigor, com tarifas médias nos EUA em 47% e na China em 32% para produtos americanos. Trump também anunciou uma visita à China em abril, com reciprocidade de Xi aos EUA.
Os mercados reagiram com otimismo inicial: o Shanghai Composite Index, principal referência chinesa, avançou até 0,2% pela manhã, alcançando 4.025,70 pontosa o pico em uma década , impulsionado por setores como bancos, seguros e bebidas alcoólicas, apesar de cautela geral. Em Hong Kong, o Hang Seng subiu 0,6% após reabertura pós-feriado. O yuan chinês atingiu o valor mais alto em quase um ano ante o dólar, refletindo apostas em menor tensão comercial que afeta o comércio mundial. Bolsas globais, de Wall Street a Tóquio, registraram ganhos recordes nos dias prévios.
Pouco antes da reunião, Trump postou em rede social sobre o aumento imediato de testes nucleares americanos, citando o expansão do arsenal chinês, mas evitou comentar o assunto durante o encontro ao ser questionado por um repórter.
O pacto abrange ainda a postergação de medidas americanas que listariam subsidiárias chinesas em entidades restritas, conforme o Ministério do Comércio da China, e reforça frameworks negociados no fim de semana em Malásia. Especialistas como Jayant Menon, do ISEAS-Yusof Ishak Institute, observam que Pequim demonstrou resiliência, respondendo de forma medida às pressões de Trump, o que pavimentou o caminho para essas concessões sem grandes recuos chineses.
Essa rodada de diálogos marca o fechamento da viagem asiática de Trump, que incluiu acordos comerciais com Coreia do Sul, Japão e nações do Sudeste Asiático, além de anúncios de investimentos estrangeiros e ênfase no uso de tarifas para desestimular conflitos regionais.
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