Fábricas ilegais de armas em São Paulo e Minas Gerais fornecem fuzis ao Comando Vermelho no Rio de Janeiro

Esquema de produção industrial de fuzis falsos é desmantelado pela PF em operação que revela rede de suprimentos para facções criminosas
Por: Brado Jornal 03.nov.2025 às 10h11
Fábricas ilegais de armas em São Paulo e Minas Gerais fornecem fuzis ao Comando Vermelho no Rio de Janeiro
Foto: Mauro Pimentel/AFP
Uma apuração conduzida pela Polícia Federal expôs a existência de instalações secretas dedicadas à montagem de fuzis em regiões de São Paulo e Minas Gerais, responsáveis por fornecer armamento à organização criminosa Comando Vermelho, atuante no Rio de Janeiro. De acordo com reportagem veiculada pelo programa “Fantástico”, da TV Globo, em 2 de novembro de 2025, o esquema envolvia tanto a fabricação local quanto a importação de componentes, com destino a comunidades controladas pelo grupo, como o Complexo do Alemão, a Rocinha e o Complexo da Maré.

As unidades operavam em Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, e em Belo Horizonte, capital mineira, simulando atividades comerciais legítimas para ocultar as operações ilícitas. Em São Paulo, a linha de produção era equipada com maquinário avançado, capaz de gerar até 3.500 unidades anuais. Durante a ação policial, foram confiscados aproximadamente 150 fuzis finalizados e mais de 30 mil componentes na fábrica de Santa Bárbara d’Oeste, além de 11 ferramentas industriais de precisão, incluindo tornos e fresadoras. “Fabricava o fuzil por inteiro. Era uma planta industrial profissional. Não era uma fábrica de garagem ou impressora 3D. Eram equipamentos de alta precisão que custavam milhões de reais”, relatou o delegado Samuel Escobar, da PF no Rio de Janeiro, em entrevista ao “Fantástico”.

Em Minas Gerais, a instalação em Belo Horizonte funcionava sob o disfarce de uma empresa de fabricação de móveis, portas e esquadrias. “Parecia uma fábrica normal, comum, uma fábrica de móveis, de esquadrias, de portas, mas dentro da fábrica, no interior tinha toda a operação ilícita”, descreveu o delegado Escobar. Essa unidade era gerenciada por Silas Diniz Carvalho e Marcely Ávila Machado, com o primeiro atuando como distribuidor chave. “O principal investigado aqui no Rio de Janeiro recebia esses fuzis e vendia para a facção criminosa”, acrescentou o investigador sobre o papel de Carvalho.

A rede se estendia além do Comando Vermelho, suprindo também milícias no Rio, além de grupos criminosos na Bahia e no Ceará, com um volume estimado de mil fuzis no total. Parte do arsenal era obtida por meio de importações desmontadas dos Estados Unidos, camufladas em cargas de piscinas infláveis e outros itens comerciais. Uma dessas remessas foi barrada pela Receita Federal em agosto de 2025. Os modelos importados se distinguiam dos produzidos domesticamente em São Paulo.

O transporte das armas ocorria de forma regular, com Rafael Xavier do Nascimento responsável por levar fuzis de São Paulo ao Rio pelo menos uma vez por mês, direcionando-os a comunidades do CV e zonas de influência de milícias. Ele foi detido em flagrante na Rodovia Dutra com 13 fuzis. Outro integrante, Anderson Custódio Gomes, foi preso ao transferir peças suficientes para 80 armas de Santa Bárbara d’Oeste a um armazém em Americana, também em São Paulo. Silas Diniz Carvalho já havia sido capturado em 2023 com 47 fuzis na Barra da Tijuca, no Rio.

A fachada legal da operação em São Paulo era uma empresa de componentes aeronáuticos registrada sob o CNPJ de Gabriel Carvalho Belchior, que permanece foragido e é procurado pela Interpol. Imagens captadas por câmeras de vigilância, acessadas pela TV Globo e apresentadas no “Fantástico”, documentam o processo de confecção de fuzis falsificados nessas instalações.

Essa rede foi desarticulada no contexto da Operação Contenção, deflagrada contra o CV e considerada a mais mortal da história brasileira, com 121 óbitos, incluindo quatro policiais entre eles, o titular da 53ª Delegacia de Polícia de Mesquita, Marcus Vinicius. Na ofensiva, as forças de segurança recolheram 118 armas (91 fuzis, 26 pistolas e um revólver), 14 explosivos, além de carregadores, munições e entorpecentes cujo balanço final ainda está em elaboração. Pelo menos 25 dos fuzis capturados correspondiam aos fabricados em Santa Bárbara d’Oeste.

A investigação, coordenada pela PF do Rio de Janeiro, destaca a sofisticação do esquema, que combinava produção em escala industrial com logística interestadual para armar disputas territoriais no país.


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