Brasília – A declaração contundente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, nesta madrugada, expõe não apenas a posição diplomática do governo brasileiro, mas também um crescente desconforto interno no Partido dos Trabalhadores (PT). Enquanto grande parte da população brasileira celebra a queda do ditador venezuelano nas redes sociais e em manifestações espontâneas, fontes próximas ao PT revelam temor de que o episódio contamine o debate político nacional às vésperas das eleições de 2026.
Nos bastidores do PT, o clima é de apreensão. Dirigentes partidários temem que a popularidade da operação americana – vista por amplos setores da sociedade brasileira como o fim de uma ditadura apoiada historicamente pela esquerda – contamine o discurso petista.
A proximidade ideológica entre setores do PT e o chavismo, somada às declarações de solidariedade de Lula a Maduro em momentos passados, pode ser explorada pela oposição como "defesa de ditadores".
"Grande parte do povo brasileiro está comemorando, e isso assusta o PT. Há receio de que o tema seja usado para pintar o partido como alinhado a regimes autoritários, impactando diretamente as eleições deste ano", analisa uma pessoa com trânsito no Planalto, consultado pela reportagem, sob condição de anonimato. Pesquisas internas circulam no partido avaliando o risco de perda de apoio em bases eleitorais moderadas.
Em nota oficial publicada nas redes sociais, Lula classificou os bombardeios em território venezuelano e a captura de Maduro como atos que "ultrapassam uma linha inaceitável". O texto completo da declaração presidencial é o seguinte:
"Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.
Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo.
A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões.
A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz.
A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação."
A operação norte-americana, confirmada pelo presidente Donald Trump em sua rede Truth Social, envolveu ataques aéreos em Caracas e outras regiões, culminando na extração de Maduro por forças especiais. Trump descreveu a ação como um "ataque de grande escala" bem-sucedido, e autoridades americanas indicam que o líder venezuelano enfrentará julgamento nos EUA por acusações de narcotráfico e outros crimes.
Enquanto o governo brasileiro mantém uma postura de condenação à intervenção, as redes sociais brasileiras explodiram em celebrações. Hashtags como #MaduroPreso e #FimDaDitaduraVenezuelana dominaram os trending topics no X (antigo Twitter), com milhões de usuários compartilhando vídeos de fogos de artifício, buzinaços em avenidas e mensagens de alívio pela queda do regime chavista. Muitos brasileiros associam o fim de Maduro a uma possível redução no fluxo migratório venezuelano e ao enfraquecimento de narrativas de esquerda radical na região.
"Finalmente justiça! Maduro destruiu um país inteiro, e agora vai pagar", escreveu um usuário, ecoado por milhares. Em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Boa Vista (RR), grupos se reuniram espontaneamente para comemorar, contrastando com o silêncio ou críticas tímidas de perfis ligados ao PT.
O governo convocou reunião emergencial com ministros para discutir os desdobramentos, incluindo possíveis impactos na fronteira e no fluxo migratório. Enquanto isso, líderes oposicionistas, como governadores de direita, já celebram publicamente a captura de Maduro, ampliando o contraste político.
A crise venezuelana, agora com Maduro preso, promete reverberar fortemente no cenário brasileiro em 2026, expondo divisões ideológicas em um ano eleitoral decisivo. O PT, acuado pela euforia popular, busca equilibrar defesa da soberania com o distanciamento de um regime amplamente rejeitado pela opinião pública nacional.
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