Os países da União Europeia deram aprovação provisória nesta sexta-feira (9) ao tratado de livre comércio com o Mercosul, abrindo caminho para a assinatura oficial prevista para a próxima semana. Se o acordo for ratificado, consumidores brasileiros poderão contar com vinhos europeus mais baratos e uma oferta ampliada de chocolates de alta qualidade em médio e longo prazo.
Atualmente, os países do Mercosul Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai aplicam uma alíquota de 27% na importação de vinhos europeus. Com a entrada em vigor do pacto, essa taxa será eliminada gradualmente entre 8 e 12 anos, dependendo do tipo de produto, conforme informou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Já os chocolates, taxados hoje em 20%, terão redução em duas etapas: parte dos itens chegará a zero em 10 anos e o restante em 15 anos.
O acordo ainda depende da confirmação formal por escrito dos votos europeus até as 17h em Bruxelas (13h no Brasil) e de etapas posteriores, como a aprovação do Parlamento Europeu e a ratificação nos congressos nacionais do Mercosul.
Vinhos europeus devem ganhar competitividade com o tempo
A Europa abriga os principais produtores mundiais de vinho, como Itália, França e Espanha, de acordo com a International Organisation of Vine and Wine (OIV). Por lá, é comum encontrar "vinhos muito bons por dois, três, quatro euros", explica Roberto Kanter, professor de MBAs da FGV.
Hoje, a alta tarifa de importação desincentiva a entrada de rótulos mais em conta no Brasil. "Com as tarifas atuais, é melhor você importar um vinho de 15 euros do que de cinco. Por quê? Porque a tarifa do imposto acaba igualando todos eles em uma faixa semelhante de preço e o cliente brasileiro que compra vinho da Europa já está disposto a pagar mais caro por ele", diz Kanter.
Com a redução progressiva, especialistas preveem que importadores diversifiquem as opções, trazendo vinhos de qualidade média a preços mais competitivos. "Eu acredito que o consumidor brasileiro vai ser beneficiado. Ele vai passar a ter acesso a uma oferta muito maior de vinhos de qualidade média, a preços extremamente competitivos, muito mais do que você encontra hoje no mercado", ressalta Kanter.
Atualmente, os rótulos mais acessíveis vêm principalmente do Chile e da Argentina, que já contam com isenção ou tarifas baixas. O professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, José Niemeyer, concorda: o brasileiro "vai tomar vinho mais barato" com o aumento da concorrência.
O economista Marcos Troyjo, que coordenou as negociações do acordo entre 2019 e 2020, destaca que o prazo longo permite adaptação aos produtores brasileiros, concentrados no Rio Grande do Sul. "Alguém pode dizer: 'poxa, mas vai ter muita competição do vinho europeu'. Mas, na realidade, quando você tem um acordo desse, os consumidores passam a tomar mais vinho, você aumenta o número de fornecedores de garrafas, de rótulos, de rolhas. Aumenta também o número de vagas de emprego para garçons, para sommeliers, ou seja, você dá um choque de expansão setorial", afirma Troyjo.
Mais marcas premium de chocolate, mas sem preços populares
O Brasil possui uma indústria de chocolate diversificada e forte, com opções que vão desde marcas populares até artesanais. A redução tarifária deve beneficiar principalmente importadores, permitindo expansão de distribuição de rótulos premium europeus ausentes hoje no país.
" Eles vão ganhar mais dinheiro. Com a tarifa menor,terão mais margem de lucro e isso vai permitir aumentar os canais de distribuição", observa Kanter. Marcas como Lindt, concentradas em capitais, poderiam abrir lojas em cidades menores.
"A grande diferença é o acesso. O consumidor pode passar a encontrar marcas premium de chocolates europeus que hoje não estão no Brasil", afirma Kanter. Exemplos incluem a Godiva, que já tentou operar no país, mas enfrentou dificuldades devido a custos elevados e impostos.
No entanto, o especialista alerta que o barateamento será limitado: "Marcas de primeira linha de chocolates não são vendidas por um preço baixo exclusivamente porque têm tarifas de importação reduzidas. Para elas, o preço é uma consequência do posicionamento de mercado". "Quem vai se beneficiar é a classe A, que em vez de comprar chocolate na Fauchon [loja de gastronomia de luxo que fica na França], vai poder comprar no Iguatemi, em São Paulo. O preço de produtos importados de primeira linha nunca chegará ao nível de chocolates populares nacionais. Você não vai conseguir comprar uma caixinha de Godiva por R$ 7,90 nas Lojas Americanas. Isso não vai acontecer", conclui Kanter.
O acordo também prevê tarifa zero para azeite de oliva europeu, produto já isento pelo governo brasileiro desde março de 2025. Os efeitos nos preços não serão imediatos, dependendo da entrada em vigor e da adaptação do mercado.
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