Gilmar Mendes diz que caso Master tem endereço na Faria Lima e não nos Três Poderes

Decano do STF defende Corte em meio à crise e critica cobertura da imprensa sobre relações com banqueiro
Por: Brado Redação 23.abr.2026 às 16h40
Gilmar Mendes diz que caso Master tem endereço na Faria Lima e não nos Três Poderes
Foto: Victor Piemonte/STF

O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, afirmou que o caso do Banco Master revela problemas mais profundos de regulação e possível participação do sistema financeiro em suspeitas de fraude, e não apenas uma questão interna da Corte. Em entrevista à TV Globo, ele defendeu a atuação dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli diante dos desdobramentos que geraram uma crise institucional sem precedentes no Supremo.

Questionado se os dois colegas deveriam dar explicações mais claras sobre suas relações e as de seus familiares com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso por suposta fraude bilionária, Gilmar respondeu que cada um deverá fazer o encaminhamento que considerar adequado. Ele criticou parte da imprensa por transformar o episódio em um caso central do Supremo Tribunal Federal.

Para o ministro, o que está em jogo vai além de vínculos pessoais e aponta para fragilidades na fiscalização do setor bancário. “Esta questão do Vorcaro, Master e tudo mais que a imprensa transformou num case do Supremo é um problema talvez mais profundo, que revela problemas de regulação e participação do sistema financeiro. Se eu fosse buscar o endereço do caso Vorcaro ou Master, veria ele na Faria Lima”, declarou, referindo-se ao centro financeiro de São Paulo.

A declaração surge em um momento de queda na confiança pública no STF. Pesquisa Quaest divulgada em março mostrou, pela primeira vez desde 2021, que o percentual de brasileiros que não confiam na Corte superou o dos que confiam: 49% contra 43%.

Parlamentares da oposição aumentaram os pedidos de impeachment contra ministros do Supremo. As petições contra Alexandre de Moraes citam o contrato de R$ 129 milhões firmado pelo escritório de advocacia de sua esposa com o Banco Master, além de mensagens trocadas com Vorcaro no dia da primeira prisão do banqueiro.

Dias Toffoli deixou a relatoria do caso em fevereiro, depois que a Polícia Federal entregou documento com indícios de conexões que poderiam configurar sua suspeição, incluindo o pagamento de R$ 35 milhões por uma fatia de um resort do qual o ministro admitiu ser sócio.

Gilmar Mendes ressaltou que Alexandre de Moraes não faz parte da Turma responsável pelo processo, configurando um impedimento fático, e que Toffoli, junto com o tribunal, decidiu afastar-se quando surgiu questionamento sobre sua participação em negócios.

O decano também defendeu a continuidade do inquérito das fake news, chamado pela oposição de “inquérito do fim do mundo”, ao menos até as eleições. Ele afirmou que a Corte vem sofrendo ataques e que é preciso responder a críticas, como as feitas pelo relator da CPI do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira.

Após a CPI apresentar uma minuta que propunha o indiciamento de Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e do procurador-geral da República, o ministro enviou à Procuradoria-Geral da República um pedido de investigação contra o senador por abuso de autoridade. A comissão rejeitou o texto final.

Recentemente, Gilmar Mendes solicitou a Alexandre de Moraes a inclusão do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), como alvo do inquérito das fake news. O motivo foi um vídeo em que Zema criticou decisões do Supremo e satirizou o magistrado. Zema reagiu chamando a medida de absurda e publicou novo material defendendo a liberdade de expressão, comparando a situação a excessos da Coroa Portuguesa.

A oposição na Câmara articulou novo pedido de impeachment contra Gilmar Mendes após o episódio. Deputados consideram que o precedente é grave, pois transforma crítica institucional em motivo de investigação, ameaçando a liberdade de expressão. “O que está em jogo não é um caso isolado. Criticando o STF, o ex-chefe do Poder Executivo estadual passa a ser alvo apenas por expressar opinião política”, diz nota assinada pelo líder da oposição, deputado Gilberto Silva (PL-PB).

Apesar das controvérsias, Gilmar Mendes sustentou que o inquérito continua necessário enquanto a Corte for vilipendiada. Ele questionou a covardia de quem ataca o tribunal sem punir quem realmente comete crimes e defendeu que a apuração só termine quando cumprir seu ciclo.

O caso Master e os desdobramentos no inquérito das fake news alimentam uma das maiores crises institucionais recentes no Supremo Tribunal Federal, com forte repercussão na imagem da Corte junto à sociedade.



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