Intercept revela contrato de Eduardo Bolsonaro em produção de Dark Horse

Documentos e diálogos obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil, publicados nesta sexta-feira (15 de maio de 2026), mostram que o deputado cassado atuou como produtor-executivo e influenciou diretamente as decisões financeiras da cinebiografia de Jair Bolsonaro
Por: Brado Redação 15.mai.2026 às 15h59
Intercept revela contrato de Eduardo Bolsonaro em produção de Dark Horse
Foto: Reprodução/Youtube

O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) exerceu papel central como produtor-executivo no longa-metragem *Dark Horse*, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Um contrato obtido com exclusividade pelo Intercept Brasil e mensagens privadas revelam que ele detinha autoridade real sobre a captação de recursos e a gestão de verbas do projeto — indo muito além da mera cessão de imagem que declarou publicamente.

Na quinta-feira (14 de maio), Eduardo postou no Instagram que havia autorizado apenas o uso de sua imagem e negou qualquer função de gestão ou recebimento de valores. Os documentos e conversas publicados pelo Intercept Brasil nesta sexta-feira (15) contradizem essa versão e expõem sua influência concreta nas tratativas econômicas da produção.

O contrato principal, datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo em 30 de janeiro de 2024, lista a GoUp Entertainment — empresa sediada na Flórida — como produtora responsável. Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias (PL-SP) figuram como produtores-executivos. Essa posição lhes confere poder para definir em conjunto estratégias de financiamento, preparar materiais para investidores, buscar incentivos fiscais, patrocínios e colocação de produtos.

O acordo registra ainda que Jair Bolsonaro cedeu os direitos sobre sua história de vida para o filme, que inicialmente se chamava *O Capitão do Povo*. As cláusulas destacam a responsabilidade compartilhada entre a produtora e os produtores-executivos pelo desenvolvimento completo da obra, com ênfase especial no controle orçamentário.

Uma minuta de aditivo contratual preparada em fevereiro de 2024 reforça esse envolvimento ao tratar Eduardo explicitamente como financiador parcial do longa e autorizar o emprego de recursos que ele aportasse. Embora não exista registro público da assinatura final desse aditivo, sua existência contrasta com a narrativa de simples doação de imagem.

Conversas obtidas pela reportagem mostram a articulação prática de Eduardo na movimentação de dinheiro. Em março de 2025, o empresário Thiago Miranda, ligado ao Portal Leo Dias, enviou ao banqueiro Daniel Vorcaro uma captura de tela de mensagem enviada por Eduardo. Nela, o deputado cassado discutia a melhor forma de transferir valores para os Estados Unidos, sugerindo priorizar remessas diretas de empresas americanas para evitar atrasos e burocracia.

“O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo”, escreveu Eduardo. Ele alertava que transferências vindas de empresas brasileiras poderiam demorar até seis meses em volumes altos e propunha: “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual”. A troca de mensagens ocorreu no período em que Eduardo estava licenciado do mandato para permanecer nos Estados Unidos.

Thiago Miranda atuou como intermediário entre Vorcaro, a família Bolsonaro e Mario Frias nas negociações do filme. Questionado pelo Intercept, ele afirmou que sua participação se resumiu a conectar as partes, sem envolvimento na produção, divulgação ou gestão financeira.

Levantamentos anteriores indicam que o senador Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro o aporte de até US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões na cotação da época) para o projeto. Pelo menos US$ 10,6 milhões foram efetivamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025.

Parte desses recursos teria sido direcionada a um fundo nos Estados Unidos controlado por aliados de Eduardo, incluindo o advogado Paulo Calixto, responsável por seu processo migratório americano. A Polícia Federal investiga possível uso desses valores para custear despesas de Eduardo no exterior.

A GoUp Entertainment tem como sócios a brasileira Karina Ferreira da Gama e o naturalizado americano Michael Brian Davis. Reportagens anteriores revelaram que o Instituto Conhecer Brasil, organização na qual Karina atua, recebeu ao menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para contrato de Wi-Fi público, sem cumprir integralmente as obrigações. O Ministério Público investiga o caso desde março, e o Supremo Tribunal Federal busca intimar Mario Frias para esclarecer emendas parlamentares destinadas à mesma entidade.

A assessoria de Mario Frias negou que Eduardo tenha atuado como produtor-executivo ou recebido recursos do fundo de investimento vinculado ao filme. O Intercept Brasil enviou questionamentos a Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Karina Gama e Michael Brian Davis. Até a publicação, não houve retorno. Os canais permanecem abertos para manifestações.

A apuração do Intercept Brasil, divulgada nesta sexta-feira (15 de maio de 2026), expõe uma nova camada de informações sobre o financiamento da cinebiografia e o envolvimento da família Bolsonaro em produções ligadas ao seu nome. Os documentos reforçam a importância da transparência em projetos que movimentam recursos expressivos e envolvem figuras públicas.



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