Depois de manter por 19 anos a condição de credor líquido externo, o Brasil voltou a registrar dívida líquida positiva em junho de 2026. Segundo o Banco Central, o endividamento externo totalizou US$ 407,1 bilhões e ultrapassou os US$ 402 bilhões em reservas internacionais, gerando um saldo devedor de US$ 5,1 bilhões. O movimento resulta do avanço mais acelerado da dívida em relação aos ativos externos.
A pressão sobre as contas externas se concentra no déficit em transações correntes, que abrange pagamentos de serviços, remessas de investimentos e obrigações com credores estrangeiros. Em 2024, esse desequilíbrio atingiu US$ 67,4 bilhões, mais que o dobro dos US$ 27 bilhões registrados no ano anterior. Os investimentos diretos estrangeiros têm coberto o déficit sem exigir redução equivalente das reservas ou elevação proporcional da dívida. A margem, porém, estreitou: em 2025, o fluxo de investimentos superou o déficit em US$ 17,6 bilhões, enquanto, dois anos antes, a diferença ultrapassava US$ 38 bilhões e, em 2024, ficou abaixo de US$ 9 bilhões.
Durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a dívida externa avançou 27,4%, contra um crescimento de 15,8% das reservas. Intervenções do Banco Central no mercado de câmbio e a valorização do real limitaram a expansão dos ativos internacionais.
Mesmo com a inversão da posição líquida, a dívida externa líquida permanece inferior a 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB). As reservas cobrem mais de três vezes os vencimentos de curto prazo da dívida. O Tesouro Nacional avalia essa cobertura como confortável e planeja elevar gradualmente a participação da dívida pública federal denominada em moeda estrangeira, de menos de 4% para 7%, conforme as condições de mercado. O órgão estuda ainda emissões em euros e acompanha as condições para uma primeira operação em yuans, autorizada pelo Tribunal de Contas da União.
Quando se compara apenas a dívida pública com as reservas internacionais, o setor público brasileiro continua sendo credor externo líquido, com uma diferença equivalente a 6% do PIB. O indicador supera o do México, enquanto Colômbia, Uruguai e Chile apresentam dívidas superiores às reservas.
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