Existe um problema central no meio marxista — ou marxiano, como queiram — que há muito tempo me incomoda. E aqui escrevo não como um simpatizante do marxismo — que Deus me defenda! —, mas como um amigo das ideias e amante fervoroso do Brasil.
Talvez soe, para alguns, como uma defesa nacionalista, ou talvez ultranacionalista. Que seja. Não estou aqui propondo uma defesa da ideologia A ou B, embora me considere um ferrenho anticomunista.
Observando o debate público no campo filosófico, principalmente no âmbito marxista, percebo uma falta gigantesca no que se refere à valorização de personalidades da nossa própria tradição marxista brasileira. Veja, eu entendo que a teoria marxista é necessariamente internacionalista. O problema é que o que acontece em nosso meio não se trata propriamente de internacionalismo teórico, mas de um estrangeirismo cafona, mequetrefe, que envergonha qualquer brasileiro minimamente preocupado com a coisa pública.
Lima Barreto, sendo uma figura brilhante e contraditória, já criticava, em plena Primeira República — ou República Oligárquica —, as tendências ao americanismo e as tentativas de moldar o Brasil aos modelos estrangeiros de seu tempo. Vemos, na figura do Major Quaresma, por exemplo, uma crítica à mania brasileira de buscar fora aquilo que deveria ser construído dentro de casa.
Lima Barreto talvez não imaginasse que a sátira de Policarpo Quaresma, ao propor a transformação da língua oficial brasileira em tupi-guarani, pudesse um dia assumir outro significado: o do complexo de vira-lata cultural, esse desejo permanente de parecer aquilo que não somos. Ou, em russo, Комплекс неполноценности — para ficar mais legível aos marxistas que me leem, já que alguns parecem não dominar nem mesmo o português.
Ainda em Lima Barreto, encontramos críticas ao modernismo arquitetônico que transformava o Rio de Janeiro de seu tempo, à americanização dos costumes e à tentativa de importar modelos estrangeiros sem considerar a realidade brasileira. Em seus *Diários Íntimos*, essas preocupações aparecem de maneira recorrente. Também não posso deixar de mencionar suas duras críticas à política externa do Barão do Rio Branco e ao crescente americanismo que identificava na vida nacional, associado àquilo que chamava de bovarismo.[1][2]
Mas o que isso tem a ver com o marxismo?
Bem, vamos lá.
Nas últimas décadas, houve uma desvalorização de figuras nacionais em detrimento de personalidades e modelos internacionais. É perfeitamente possível que um marxista brasileiro atual conheça de cor e salteado cada detalhe íntimo da vida de Che Guevara, por exemplo, mas não faça a menor ideia da importância histórica de Luís Carlos Prestes.
E não entendam isso como uma defesa ideológica do “Cavaleiro da Esperança”, como Prestes ficou conhecido — inclusive dando título ao romance de Jorge Amado. Prestes foi uma das figuras políticas mais importantes da história do comunismo brasileiro e, independentemente do juízo que se faça de suas ideias, merece ser estudado com muito mais atenção por aqueles que dizem seguir a tradição marxista no Brasil.
Prestes foi, em muitos sentidos, maior do que toda essa canalhada marxista estrangeira que vemos estampada em camisas, quadros, fotografias e perfis de redes sociais.
Na verdade, até o PT, quando Prestes procurou o partido no fim de sua vida, tratando de uma possível aproximação e de um caminho de colaboração com os trabalhadores, não lhe deu exatamente o tratamento que se esperaria de uma figura de sua importância. Maria Prestes relata esse episódio em *Meu Companheiro*.[3] E, no entanto, não nos esqueçamos de quantas vezes Lula e membros proeminentes do PT exaltaram os irmãos Castro, Chávez, Maduro e toda a fauna da revolução latino-americana.
Raramente veremos alguém mencionar Pedro Pomar, Guerreiro Ramos, Astrojildo Pereira ou Evaristo de Moraes — advogado, jornalista e militante socialista que participou, ao lado de Agripino Nazareth e outros militantes, da fundação do Partido Socialista do Brasil, em 1925, além de ter sido responsável pela elaboração do manifesto-programa do partido. Evaristo também ficou conhecido por sua atuação na defesa dos marinheiros envolvidos na Revolta da Chibata.[4][5]
Mas não é necessário ir tão longe. Boa parte do mainstream comunista contemporâneo continua produzindo uma hipervalorização de figuras como Lênin e Stálin e, mais recentemente, ressuscitou o próprio Trótski como objeto de culto político e estético.
Eu não quero diminuir a importância histórica desses marxistas de tradição europeia, embora talvez alguns de seus admiradores tratem qualquer crítica a eles como anátema. Mas duvido muito que Lênin suportasse um único dia no sertão nordestino, conduzindo uma coluna formada por gente da roça, com enxadas, pás, foices e meia dúzia de facas, atravessando o interior do Brasil sob um sol da molesta, enquanto tentava derrubar o governo de Artur Bernardes.
Duvido também que Stálin, tão preocupado com sua imagem e com a construção estética de sua própria figura política — a ponto de fotografias oficiais serem cuidadosamente manipuladas — suportasse um único dia planejando uma tomada de poder no Brasil. Ou que tivesse disposição para entrar clandestinamente no país, como Olga Benário, para participar da Intentona Comunista de 1935.
O marxismo brasileiro produziu Rachel de Queiroz, Caio Prado Júnior, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Nelson Werneck Sodré e tantos outros. Esse conjunto de intelectuais produziu uma vasta riqueza de interpretações sobre a realidade nacional.
E repito: EU NÃO SOU COMUNISTA. Abomino essa ideologia funesta.
Porém, justamente por isso, me incomoda perceber que grandes nomes produzidos por nossa própria nação sejam, em muitos casos, mais conhecidos e valorizados fora do Brasil do que entre aqueles que hoje dizem representar a tradição marxista brasileira — enquanto se exalta toda sorte de marxistas engomados e estrangeiros.
Mas, afinal, qual é a raiz desse problema? Por que esses nomes não são reconhecidos e lembrados atualmente?
Simples: a decadência cultural nacional tem parte da culpa.
Os marxistas atuais, em grande medida, não leem mais. Não possuem repertório. Vivem daquilo que é “pop”. Citam Marx, Lênin e toda essa gringaiada sem necessariamente conhecer profundamente suas obras. Alguns teriam uma convulsão e gastariam toda a glicose do cérebro se fossem obrigados a concluir um parágrafo de *O Capital*.
O bovarismo marxista atual é, antes de tudo, fruto de uma decadência moral e cultural.
Nosso povo emburreceu.
Abandonem, portanto, esse vosso bovarismo. Parem de gritar *hasta la lucha!* e olhem para o próprio país. Existe uma identidade nacional mais rica, mais bonita e com mais potencial do que qualquer outra no mundo.
Coloco-me aqui como um novo Quaresma: não pedindo que falem tupi, mas que sejam brasileiros. Que amem o Brasil. Que respirem o Brasil.
Por fim, quem dera que a discussão nacional voltasse aos tempos de ouro das décadas de 1950 e 1960, quando conservadores e marxistas, apesar de suas profundas divergências, ainda faziam parte de uma elite intelectual que conhecia livros, história, filosofia e o próprio país que pretendia transformar.
Mas isso é assunto para outro artigo.
Que Deus abençoe!
Referências
**[1]** BARRETO, Lima. *Diário Íntimo*. São Paulo: Brasiliense, 1956.
**[2]** MURAL INTERNACIONAL — Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Artigo sobre Lima Barreto, o americanismo e suas críticas à política externa do Barão do Rio Branco. Disponível em: [Mural Internacional — UERJ](https://www.e-publicacoes.uerj.br/muralinternacional/article/view/91182?utm_source=chatgpt.com).
**[3]** PRESTES, Maria. *Meu Companheiro*. Obra biográfica sobre Luís Carlos Prestes e sua trajetória política.
**[4]** CASTELLUCCI, Aldrin Armstrong Silva de; SCHMIDT, Benito Bisso. *O Partido Socialista do Brasil: sujeitos, projetos e ação político-eleitoral (1925-1926).* Varia Historia. O estudo registra a fundação do Partido Socialista do Brasil em 1º de maio de 1925, com a participação de Evaristo de Moraes, Agripino Nazareth e outros militantes.
**[5]** UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Arquivo Edgard Leuenroth. *Evaristo de Moraes*. AEL/Unicamp. Registro biográfico sobre Evaristo de Moraes, sua participação na fundação do PSB em 1925, a elaboração do manifesto-programa e sua atuação na defesa de João Cândido e dos marinheiros envolvidos na Revolta da Chibata.
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