O confronto armado entre Estados Unidos, Israel e Irã, que já chega ao quinto dia e se espalha pela região, pode gerar aumento nos preços dos alimentos consumidos no Brasil nos próximos meses, conforme alertam especialistas em economia agrícola.
Diversos fatores da cadeia produtiva já registram pressões em poucos dias de hostilidades. Entre os principais impactos estão:
- Alta nos fertilizantes — O Brasil depende fortemente de importações de adubos, e o Oriente Médio fornece parcela relevante, especialmente ureia e amônia. A região responde por cerca de 40% das exportações globais de ureia e 28% de amônia. Com o conflito, as cotações subiram rapidamente, com altas de 10% a 12% em um único dia em mercados como o brasileiro. “O impacto nos preços foi instantâneo e severo, com altas de cerca de 10% a 12% em apenas um dia, em mercados como o do Brasil e do Oriente Médio”, diz Tomás Rigoletto Pernías, analista da StoneX Brasil. O contrato futuro de ureia para março no Brasil avançou US$ 39 entre 2 e 3 de março. Fornecedores suspenderam vendas para reavaliar valores, e produtores locais reduziram operações por receio de escoamento.
- Encerramento do Estreito de Ormuz — Controlado pelo Irã, o estreito é rota vital para petróleo, fertilizantes e comércio global. Seu bloqueio (anunciado e em prática parcial) força redirecionamentos de navios, elevando fretes, seguros e custos operacionais. Isso afeta não só importações brasileiras, mas o mercado mundial conectado.
- Petróleo e diesel mais caros — A área é chave na oferta global de petróleo, e a instabilidade impulsiona preços do barril, o que encarece o diesel usado em máquinas agrícolas e no transporte de grãos e produtos.
Esses aumentos chegam em momento delicado para o produtor rural, que já enfrenta juros elevados e restrições de crédito. “A questão é o quanto o conflito vai impactar na produção e o quanto essa guerra vai perdurar. Provavelmente não vai ser uma coisa rápida de ser resolvida”, afirma Leandro Gilio, pesquisador no Insper Agro Global. Para ele, o efeito é imediato no campo, mas demora meses para refletir no varejo.
Felippe Serigati, da FGV Agro, ressalta que ainda é precoce dimensionar o impacto total. Fatores como desvalorização do dólar desde o início do ano e condições climáticas favoráveis podem amenizar pressões sobre o consumidor.
Dependência de fertilizantes do Oriente Médio
De acordo com dados do Mdic de 2025, a região é a quarta maior origem de fertilizantes químicos para o Brasil (atrás de Europa, Ásia e África). Individualmente, Rússia lidera, seguida por China e Canadá; no Oriente Médio destacam-se Arábia Saudita (6º), Israel (8º), Omã (9º), Catar (11º) e Irã (22º). Apesar da posição, a área tem peso decisivo nos preços globais de ureia e amônia.
Antes do conflito, preços já subiam por demanda de EUA, China e Índia, além de paralisia em fábricas iranianas por falta de gás. “Com a eclosão do conflito, os vendedores de fertilizantes do Médio Oriente e de outras regiões suspenderam as suas vendas para tentarem entender qual é o real valor do produto que eles têm na mão”, destaca Pernías. “Além disso, produtores na região estão diminuindo a produção pelo receio de não conseguirem escoar a mercadoria”, acrescenta.
Fase da safra brasileira
O encarecimento afeta principalmente plantios a partir do segundo semestre, pois adubos para a atual safra já foram adquiridos. Paulo Pavinato, da ESALQ/USP, explica que fertilizantes fosfatados e potássicos para soja são comprados entre maio e julho, enquanto nitrogenados (como ureia) ganham força em novembro a janeiro para milho. Alternativas como Canadá existem, mas preços devem permanecer elevados. “Essa elevação de custo é bastante preocupante, porque a gente está vivendo um momento no agro, justamente, em que os produtores já estão pressionados por esses valores”, explica Gilio.
Logística e exportações
O bloqueio eleva custos de frete, seguro, contêineres e diesel globalmente. “Isso faz com que o preço, a cotação dessas commodities, aumente praticamente para todo mundo, independentemente de onde esteja”, afirma Serigati. O diesel mais caro pressiona operações no campo e escoamento por caminhões, afetando colheitas em andamento como a soja.
Diferente da guerra Ucrânia-Rússia (com escassez de petróleo), há excesso de oferta atual, o que pode absorver parte da turbulência, segundo Serigati.
Exportações brasileiras para a região também sofrem. Oriente Médio recebe frango, carne bovina, açúcar e milho. Contêineres de frango estão retidos ou redirecionados, com “taxa de guerra” aplicada por armadores para cobrir extras de seguro, armazenamento e refrigeração. “Tem muita carne que está na água. Somente os Emirados Árabes compraram, em janeiro, 44 mil toneladas.
A Arábia [Saudita] comprou 33 mil. Então, tem contêineres na água e eles são redirecionados”, diz Ricardo Santin, presidente da ABPA. Novas reservas de navios estão suspensas.
Emirados são o maior comprador de frango brasileiro, seguidos por Japão e Arábia Saudita; outros incluem Kuwait, Catar, Omã e Iêmen. Irã foi o 11º destino do agro em 2025 e principal cliente de milho (embarques a partir de junho). A Abiec estima que 10% das exportações de carne passam pela região, e 30% a 40% rumam ao Sudeste Asiático e China via Oriente Médio. “Não há nada que possamos fazer. Está fora do nosso controle”, disse Roberto Perosa, presidente da Abiec.
Especialistas concordam que, se o conflito se prolongar, os custos de produção agrícola sobem, pressionando margens e, eventualmente, preços ao consumidor.
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