Em julho, a inadimplência do consignado para trabalhadores da iniciativa privada chegou a 10%, o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em março de 2011. Foi a primeira vez que o índice atingiu a casa dos dois dígitos.
A alta foi rápida: 1,3 ponto percentual em apenas um mês, passando de 8,7% em junho para 10% em julho. Em julho de 2025, o indicador estava em 6,2%. Em um ano, o avanço foi de 3,8 pontos percentuais.
O cenário destoa das demais modalidades de crédito com desconto em folha. No consignado para servidores públicos, a inadimplência ficou em 2,7% em julho, ante 2,6% em junho. Entre beneficiários do INSS, a taxa subiu de 1,9% para 2,1%. No conjunto do consignado, o índice ficou em 3,6%.
O consignado privado já supera a média do crédito livre para pessoas físicas, que ficou em 7,8% em julho, e se aproxima do crédito pessoal sem consignação, cuja inadimplência chegou a 10,7%. A diferença entre as duas modalidades caiu para 0,7 ponto percentual — um contraste relevante, já que o desconto em folha deveria reduzir o risco de inadimplência. Os números de junho e julho são preliminares e ainda podem ser revisados pelo Banco Central.
O governo atribui parte do problema a uma falha operacional. Na troca de emprego, o desconto não é transferido automaticamente para o novo contrato, fazendo com que o atraso se acumule mesmo quando o trabalhador continua empregado. A Dataprev previa a correção do problema apenas para agosto. Dessa forma, julho ainda reflete integralmente os efeitos da falha e não permite medir o impacto do ajuste.
A piora ocorreu após um período de forte expansão da modalidade. O saldo da carteira chegou a R$ 117,7 bilhões em julho, alta de 3,8% em relação a junho. Um ano antes, o valor era de R$ 49,9 bilhões, o que significa que a carteira ficou 2,4 vezes maior.
Os bancos continuam ampliando as concessões. Foram liberados R$ 8,8 bilhões em novos empréstimos em julho, ante R$ 7,7 bilhões em junho. A originação acelerou justamente no mês em que a inadimplência atingiu o recorde. Os juros médios permaneceram praticamente estáveis, em 53,9% ao ano.
O crescimento da carteira, que inicialmente ajudava a diluir a inadimplência, já não é suficiente para conter o avanço do indicador. À medida que os contratos firmados em 2025 envelhecem, mais operações entram na faixa de atraso superior a 90 dias.
O salto de 1,3 ponto percentual em um mês e de 3,8 pontos em 12 meses reforça a necessidade de acompanhar a qualidade das novas safras de crédito, e não apenas o problema operacional. Com a carteira em expansão, concessões ainda elevadas e atrasos crescendo em ritmo acelerado, o cenário acende um alerta: o consignado privado já apresenta uma taxa de inadimplência próxima à do crédito pessoal sem desconto em folha.
Deixe sua opinião!
Assine agora e comente nesta matéria com benefícos exclusivos.
Sem comentários
Seja o primeiro a comentar nesta matéria!
Carregando...