Administração Trump cancela contrato de US$ 11 milhões com Catholic Charities de Miami para acolhimento de crianças migrantes

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos encerrou um contrato de US$ 11 milhões com a organização Catholic Charities da Arquidiocese de Miami. O acordo financiava o abrigo e os cuidados a crianças migrantes que chegam ao país sem os pais ou responsáveis.
Por: Brado Jornal 17.abr.2026 às 08h12
Administração Trump cancela contrato de US$ 11 milhões com Catholic Charities de Miami para acolhimento de crianças migrantes
Foto: Kenny Holston / Pool/EPA
A Vila Infantil Monsenhor Bryan Walsh, instalação com 81 leitos localizada em Cutler Bay, oferece acolhimento familiar, reunificação familiar e serviços de apoio a vítimas de trauma. A entidade deverá encerrar as atividades em até três meses.

O arcebispo de Miami, dom Thomas Wenski, declarou que a decisão representa o fim abrupto de mais de 60 anos de parceria entre a Igreja Católica e o governo americano. Ele classificou o programa como um modelo nacional de excelência, difícil de ser replicado com o mesmo nível de competência.

A parceria remonta a dezembro de 1960, quando o padre irlandês Bryan Walsh, então com 30 anos, acompanhou a chegada de crianças cubanas desacompanhadas no aeroporto de Miami. Nos dois anos seguintes, a Catholic Charities da Arquidiocese de Miami acolheu mais de 14 mil menores enviados pelos pais para escapar da revolução de Fidel Castro, na chamada Operação Pedro Pan, o maior êxodo de crianças desacompanhadas registrado no Hemisfério Ocidental.

O cancelamento ocorreu na quarta-feira. Dois dias antes, o presidente Donald Trump publicou no Truth Social que o papa Leão XIV é “fraco no combate ao crime e péssimo para a política externa”. A declaração veio após o pontífice denunciar, durante vigília de oração na Basílica de São Pedro, a “ilusão de onipotência” que alimenta a guerra entre os Estados Unidos e Israel no Irã. Leão XIV respondeu a repórteres que não tem “nenhum medo” do governo Trump e que continuará a se manifestar veementemente contra a guerra.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, condenou o ataque de Trump ao pontífice como “inaceitável”.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos alegou que o cancelamento reflete a diminuição no número de menores desacompanhados sob custódia federal. Dom Wenski reconheceu a redução na demanda, mas afirmou que ela justificaria ajustes, e não o encerramento de um programa construído ao longo de seis décadas.

O episódio se insere em uma sequência de tensões. Em janeiro de 2025, o vice-presidente JD Vance acusou a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos de priorizar “resultados financeiros” em detrimento de questões humanitárias. O cardeal Timothy Dolan denunciou publicamente a declaração, e Vance admitiu posteriormente que havia exagerado. O governo também congelou financiamento federal para a Catholic Charities do Vale do Rio Grande, no Texas, o que levou os bispos a ingressarem com ação judicial na justiça federal pela suspensão de recursos para reassentamento de refugiados.

O presidente Trump conquistou 55% dos votos católicos nas eleições de novembro de 2024, uma vantagem de 12 pontos percentuais sobre Kamala Harris. Existem cerca de 53 milhões de católicos nos Estados Unidos.


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