Um imóvel de 51 mil metros quadrados, equivalente a cerca de sete campos de futebol, localizado às margens da Via Metropolitana, na região metropolitana de Salvador, foi negociado pelo senador Jaques Wagner (PT) por R$ 15 milhões. A área, adquirida em março de 2000 por R$ 28 mil (valor que corresponde a aproximadamente R$ 130 mil corrigidos pela inflação), registrou valorização de 11.400% em 25 anos, ou seja, multiplicou-se 115 vezes, já descontada a correção monetária do período.
A Via Metropolitana, rodovia de 11,2 quilômetros que liga Salvador a Camaçari contornando Lauro de Freitas e criada como alternativa à Estrada do Coco, teve seus estudos iniciados pelo menos em 2011, durante o período em que Wagner governava a Bahia (2007-2014). Em setembro de 2014, ainda em seu mandato, o então governador assinou aditamento que estendeu de 25 para 30 anos o contrato de concessão do sistema BA-093, operado à época pela Bahia Norte (então controlada por OAS e Odebrecht). As obras físicas começaram em janeiro de 2015, já na gestão de Rui Costa (PT), e foram concluídas em 2018 com investimento de R$ 220 milhões. O eixo viário consolidou a região como área de expansão urbana, onde hoje se desenvolve um empreendimento residencial de alto padrão integrado ao novo centro de treinamento do Esporte Clube Bahia.
O terreno originalmente fazia parte de uma propriedade maior da Traneves Patrimonial, empresa que tem entre os sócios Alex Grangeon Trancoso Neves, também ligado ao Lagoons Empreendimentos. A área, situada entre a rodovia e o rio Joanes, mantinha mata preservada até o ano passado. Nos últimos meses, foi cercada e teve vegetação removida para a implantação do residencial, anunciado em abril como o primeiro do tipo no Brasil em parceria com City Football Group, QPC Incorporadora e Grupo Terere. O projeto do centro de treinamento foi apresentado em outubro de 2025, e Wagner participou da cerimônia de início das obras em fevereiro deste ano, destacando nas redes sociais a contribuição da Via Metropolitana, “que eu comecei e Rui Costa terminou”.
A transferência da propriedade foi interrompida em 25 de junho por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito da nona fase da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades ligadas ao Banco Master. A decisão impôs restrições a atividades econômicas, incluindo bloqueio de contas, bens e valores do senador. Junto com a venda do terreno, também ficou suspensa a negociação de um apartamento no Corredor da Vitória, em Salvador, por R$ 10 milhões, com o prefeito de Conceição do Coité, Marcelo Araújo (União Brasil). As duas operações somariam R$ 25 milhões. Na declaração de bens da eleição de 2018, Wagner havia informado patrimônio de R$ 3,3 milhões.
Em entrevista à rádio Andaiá FM nesta sexta-feira (24), o senador comentou o assunto dizendo que a estrada cortou parte do terreno e que ele abriu mão de qualquer indenização por desapropriação. “Sobre o terreno, dá até vontade de rir, porque o terreno talvez tenha sido a única obra feita na Bahia para benefício dos baianos que não teve pago desapropriação. A estrada passou pelo traçado que os engenheiros acharam melhor, cortou lá um pedaço do terreno e eu digo ‘não vou cobrar nenhuma desapropriação’”, afirmou. Sobre a valorização, minimizou: “É óbvio que tudo que valoriza em 26 anos.”
A Lagoons Empreendimentos informou que a compra original, em 2000, foi operação imobiliária regular formalizada pela Traneves Patrimonial a partir do desmembramento de área maior, sem qualquer relação com o projeto atual, que só surgiu décadas depois. Segundo a empresa, a aquisição formal do terreno junto a Wagner ocorreu em maio de 2025 e representa 4% da área total do empreendimento. O contrato previa R$ 2 milhões antecipados e R$ 13 milhões em permuta de unidades futuras. A companhia afirmou que todas as aquisições seguiram critérios de mercado, foram validadas por consultorias independentes e passaram por diligência prévia, sem restrições nas certidões. A Traneves e outros proprietários da região atuam como permutantes.
A defesa do senador declarou que a venda resultou de negociação iniciada em 2024 e formalizada em 2025, e que todos os esclarecimentos já foram prestados, com os méritos discutidos nos autos. Nesta semana, Wagner foi intimado pela Polícia Federal a depor em agosto no âmbito da investigação do caso Master. Em junho, ele foi alvo de operação sob suspeita de ter recebido benefícios ligados ao banco de Daniel Vorcaro, por meio de empresa da nora e de um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões em Salvador. A PF apura possível atuação parlamentar em favor de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro — o que o senador nega. Após a busca e apreensão, ele deixou o cargo de líder do governo no Senado.
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