Um professor da Universidade de Teerã próximo à Guarda Revolucionária do Irã classificou o Brasil como um país fraco, sem capacidade real de contribuir para o fim da guerra no Oriente Médio. Mohammad Marandi, em entrevista concedida em Teerã, deixou claro que o governo iraniano não conta com qualquer ação efetiva de Brasília para mediar ou resolver o conflito com Estados Unidos e Israel.
Marandi, que tem ligações diretas com a ala mais dura do regime, destacou que Lula é visto como uma “boa pessoa” por criticar os ataques, mas que isso não se traduz em expectativas concretas de ajuda. “Ele fala, mas não age”, resumiu o acadêmico. Segundo ele, o Brasil falhou até mesmo em impedir intervenções americanas na própria América Latina, citando a situação da Venezuela e de Cuba como exemplos.
O professor, cuja trajetória inclui participação na guerra Irã-Iraque nos anos 1980 e atuação na milícia Basij desde os 16 anos, reforçou que o Irã assumiu o controle total do Estreito de Hormuz de forma permanente. Essa decisão, segundo ele, é irreversível e visa garantir a segurança nacional, impedindo que o Golfo Pérsico se transforme em base militar contra o país.
“Quando se controla o estreito, definem-se as regras. Países hostis serão tratados de forma diferente”, explicou. Marandi mencionou a experiência iraniana com guerras e destruição, incluindo o ataque à escola de Minab que matou 175 pessoas, atribuído a mísseis americanos. Ele criticou duramente a postura dos EUA, chamando o governo Trump de “bárbaro” por não pedir desculpas.
Sobre um possível acordo de paz, o iraniano foi taxativo: o Irã não abrirá mão do direito de enriquecer urânio, considerado linha vermelha inegociável. O país está pronto para retomar a guerra se necessário, mas prefere resistir economicamente, mesmo com inflação acima de 100% em alimentos. “Vamos sobreviver indefinidamente. Esta é uma luta existencial”, afirmou.
Marandi comparou o conflito atual às guerras anteriores impostas pelos EUA, inclusive a que envolveu Saddam Hussein. Ele sobreviveu a ataques químicos e questionou a liberdade de imprensa no Ocidente, defendendo que o Irã, apesar de estar em guerra, permite mais críticas internas do que muitos imaginam.
Sobre a saúde do aiatolá Mojtaba Khamenei, o professor garantiu que está boa, justificando a ausência de aparições públicas como medida de segurança diante da ameaça americana. “Expor-se seria facilitar um ataque”, disse.
O entrevistado reconheceu que a China e a Rússia são parceiros mais confiáveis para Teerã, ao contrário do Brasil, que não demonstrou capacidade de ação em crises regionais. “Não é crítica ao povo brasileiro, mas ao governo. Eles estão longe e não sentem a pressão que nós sentimos”, completou.
Marandi, de 60 anos, é analista político, professor de literatura inglesa e orientalismo. Seu pai foi médico da família do aiatolá Ali Khamenei. Sua visão reflete o pensamento da corrente linha-dura iraniana, que prioriza resistência e soberania sobre qualquer expectativa de mediação internacional vinda de nações que considera fracas.
A declaração ocorre em meio à série de reportagens da Folha no Irã, que mostra o cotidiano do país em guerra, o impacto econômico e a determinação do regime em manter o controle do Estreito de Hormuz como instrumento de defesa.
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