Temer afirma que críticas americanas beneficiaram Lula politicamente

Críticas de Trump ao Judiciário brasileiro impulsionam discurso de soberania nacional
Por: Brado Jornal 18.set.2025 às 10h12
Temer afirma que críticas americanas beneficiaram Lula politicamente
(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil / arguivo)
O ex-presidente Michel Temer (MDB) avaliou, em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, na segunda-feira (15 de setembro de 2025), que as ações do governo dos Estados Unidos contra o Judiciário brasileiro acabaram proporcionando um ganho político significativo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo Temer, o petista utilizou as sanções impostas por Donald Trump para reforçar sua posição, evocando temas de independência nacional e resgatando elementos de sua trajetória nas urnas. “Esse gesto dos EUA recuperou a figura do Lula, invocou-se soberania nacional, ‘aqui ninguém põe o pé, etc’. Levantou a história eleitoral do Lula”, declarou Temer.

As tensões entre Brasil e Estados Unidos escalaram em julho de 2025, quando Trump enviou uma carta direta a Lula criticando o julgamento de Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF), qualificado pelo republicano como uma “caça às bruxas”. Na mensagem, Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, justificando a medida como resposta a supostas injustiças comerciais e interferências na justiça do país. Analistas apontam que, apesar de dados oficiais indicarem superávit comercial americano com o Brasil, a decisão tem forte viés geopolítico, visando pressionar o governo brasileiro em meio ao processo contra Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe de Estado após os atos de 8 de janeiro de 2023.

Lula rebateu imediatamente, destacando a soberania do Brasil e afirmando que o país não aceitaria interferências externas. Em 6 de agosto de 2025, quando as tarifas entraram em vigor, o presidente brasileiro expressou sua “intuição” de que Trump não desejava diálogo, recusando-se a “se humilhar” para resolver o impasse. Trump, por sua vez, havia declarado publicamente que “Lula pode ligar quando quiser”, mas não houve contato oficial de Brasília. Em 5 de setembro, Lula reiterou que o líder americano “não quer conversar” sobre o tarifaço. Posteriormente, em 12 de setembro, o petista reforçou que não teme novas sanções, respondendo a uma porta-voz da Casa Branca e enfatizando que o Brasil não é uma “republiqueta de banana”.

No artigo publicado no The New York Times em 14 de setembro de 2025, intitulado “A democracia e a soberania do Brasil não são negociáveis”, Lula defendeu o STF e criticou as tarifas como “remédio errado”, argumentando que elas ignoram o superávit dos EUA no comércio bilateral e visam fins políticos. O texto, direcionado a Trump, convida a um “diálogo aberto e franco” em áreas de interesse comum, mas deixa claro que soberania e democracia brasileira não estão em discussão. Lula também rebateu acusações americanas contra o Pix, sistema de pagamentos instantâneos, e contra medidas regulatórias de redes sociais no Brasil, afirmando que elas promovem inclusão financeira e protegem crianças de abusos online.

Embora reconheça o benefício político para Lula, Temer criticou a abordagem do atual governo e defendeu uma solução diplomática direta. “Nessas questões, não se deve pensar em uma questão eleitoral, deve se pensar no Brasil. Eu telefonaria para o Trump. O diálogo é fundamental. Você sabe que eu acho que ele atenderia o telefone. E se atende, começa um diálogo”, afirmou o ex-presidente. Ele também qualificou o artigo de Lula como inadequado: “Lamento dizer, mas esta carta foi provocativa, foi uma carta para o povo brasileiro. Lá na carta é dito que Trump é desonesto, que é falso”.

O embate gerou reações variadas. Nove ex-ministros da Justiça e Segurança Pública de governos anteriores, incluindo os de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e o próprio Temer, assinaram uma carta aberta em 21 de julho de 2025 repudiando a interferência americana, destacando que ela representa uma afronta à soberania nacional. Especialistas consultados indicam que as tarifas, embora impactem o comércio, não violam diretamente a soberania, mas servem como ferramenta de pressão internacional. Trump ameaçou retaliações adicionais em caso de reciprocidade brasileira, enquanto Lula mantém a disposição para negociações em temas econômicos, sem ceder em assuntos internos.

A disputa bilateral, que marca o pior momento das relações entre os dois países em décadas, envolve críticas mútuas à política externa e comercial. Lula tem usado o episódio para mobilizar apoio doméstico, enquanto Trump apoia publicamente Bolsonaro, a quem considera um líder respeitado. Até o momento, não há indícios de escalada imediata, mas analistas alertam para possíveis efeitos na economia brasileira, como aumento de custos para exportadores e impactos em setores como agricultura e manufatura.


📲 Baixe agora o aplicativo oficial da BRADO
e receba os principais destaques do dia em primeira mão
O que estão dizendo

Deixe sua opinião!

Assine agora e comente nesta matéria com benefícos exclusivos.

Sem comentários

Seja o primeiro a comentar nesta matéria!

Carregar mais
Carregando...

Carregando...

Veja Também
Vorcaro comemora em mensagens emenda de Ciro Nogueira que beneficiaria o Banco Master
Banqueiro celebrou proposta como “bomba atômica” no mercado financeiro; texto conhecido como “emenda Master” não foi aprovado e integra análises da CPMI do INSS
Lula critica Trump por exibir poder militar dos EUA e afirma que Cuba enfrenta fome devido a bloqueios externos
Durante evento da FAO em Brasília, presidente brasileiro defende ilha caribenha, compara com Haiti e alerta para risco de corrida armamentista global
Senadores solicitam à PF análise de proteção adicional para André Mendonça
Magno Malta e Eduardo Girão expressam preocupação com a segurança do ministro do STF, relator do caso Master, devido à complexidade da estrutura criminosa investigada na Operação Compliance Zero
Comissão da Câmara exige esclarecimentos do Ministério da Defesa sobre alegações americanas
Relatório do Congresso dos EUA levanta suspeitas de instalação chinesa com possível uso militar na Bahia, via parceria entre empresas brasileira e chinesa
Afastados prefeito e vice de Macapá em investigação sobre fraudes em obras de hospital
A operação Paroxismo da Polícia Federal resultou no afastamento do prefeito e do vice de Macapá, com buscas em endereços ligados ao chefe do Executivo
Augusto Lima convocado para depor na CPMI do INSS em 11 de março
Ex-sócio de Vorcaro e dono do Banco Pleno (ex-Voiter) deve comparecer à comissão que apura irregularidades no instituto; agenda inclui outros executivos do setor financeiro
Carregando..