Washington, 7 de julho de 2026 — Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) discursava nesta terça-feira na audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro, para pedir o cancelamento ou adiamento de nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, o cenário evocava uma forte contradição com o posicionamento da família em 2025.
Flávio argumentou que o momento seria “o pior possível para agir”, pois as tarifas anteriores de 2025 foram exploradas politicamente pelo governo Lula e que uma nova medida beneficiaria o petista em ano eleitoral, punindo empresários e consumidores de ambos os países. “Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter — premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas consequências — seria o pior momento possível para agir”, disse o senador, que já havia pedido diretamente a Donald Trump, JD Vance e Marco Rubio que não taxassem empresas brasileiras.
Eduardo Bolsonaro, que o acompanhava, reforçou a narrativa de que o governo Lula não se inscreveu na audiência porque “deseja as tarifas”. Os dois posaram juntos para fotos e publicaram mensagens defendendo os interesses brasileiros.
A posição atual contrasta fortemente com a de julho de 2025, quando Donald Trump impôs a primeira rodada de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. Na ocasião, Eduardo Bolsonaro, que vivia nos EUA e atuava em contatos com o governo Trump, comemorou publicamente a medida.
Ele publicou: “Obrigado, presidente Donald J. Trump” e pediu que brasileiros agradecessem a Trump com a hashtag #MakeBrazilFreeAgain, associando a tarifa à “Tarifa-Moraes” e à crise institucional. Em vídeo (posteriormente apagado ou retirado de circulação em alguns contextos), Eduardo celebrou a decisão e sugeriu aos empresários insatisfeitos com a taxação que migrassem para os Estados Unidos.
“Se você, empresário brasileiro, quiser investir nos EUA [...] é só vir para cá”, disse ele na época, interpretando a carta de Trump como um “convite tentador”. Eduardo admitiu ter feito lobby por meses para pressionar o governo brasileiro, inclusive com o objetivo de obter sanções e anistia para o pai.
Um ano depois, com Flávio pré-candidato à Presidência em 2026, a família Bolsonaro tenta se desvincular do impacto negativo das tarifas. Flávio enviou documentos ao USTR pedindo adiamento da medida até após as eleições e tem repetido que a culpa é do “anti-americanismo” de Lula. O governo petista, por sua vez, acusa os Bolsonaro de “traidores da pátria” e de terem provocado a investigação americana.
A contradição não passou despercebida por analistas e opositores. O que em 2025 era visto por Eduardo como ferramenta de pressão política contra o STF e o governo Lula, em 2026 se tornou um problema eleitoral que Flávio tenta transformar em narrativa de “defesa do Brasil”.
Enquanto isso, empresários brasileiros seguem preocupados com o custo das tarifas acumuladas — que afetam exportações de commodities, manufaturados e o agronegócio —, independentemente de quem comemore ou critique do lado brasileiro. A audiência no USTR expôs não apenas as tensões comerciais, mas também as reviravoltas da política interna que, mais uma vez, colocam o Brasil no centro de um embate entre Washington e Brasília.
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