Rogério Marinho recusa assinar impeachment de Alexandre de Moraes

Senador do PL classifica as denúncias como gravíssimas, mas diz que sua assinatura poderia ser usada depois para anular o processo no Senado
Por: Brado Redação 07.set.2026 às 08h49
Rogério Marinho recusa assinar impeachment de Alexandre de Moraes
Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

A oposição intensificou a cobrança para que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, dê andamento a pedidos de afastamento de ministros do Supremo Tribunal Federal. O alvo principal da ofensiva é Alexandre de Moraes. Mesmo nesse clima, o senador Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte, decidiu ficar de fora da lista de assinaturas do pedido de impeachment contra o magistrado.

A recusa não significa, segundo o próprio parlamentar, que ele considere o episódio menor. Marinho trata as denúncias que ligam Moraes a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, como gravíssimas. O que o levou a não assinar foi o cálculo processual. Ele avalia que, se Alcolumbre admitir o pedido, os senadores passam à condição de julgadores. Nesse cenário, qualquer irregularidade formal poderia ser convertida em argumento para tentar derrubar o rito.

O senador descreve o momento institucional do país como marcado por insegurança jurídica, abuso de poder e avanço do Judiciário sobre os demais Poderes. Por isso, afirma que é preciso agir com firmeza, mas também com cautela. Na leitura dele, uma assinatura hoje poderia virar amanhã o pretexto para questionar a validade do julgamento.

A pressão sobre o Congresso cresceu depois que o ministro André Mendonça, relator das apurações, tirou o sigilo de investigações sobre a relação de Vorcaro com Moraes, com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. As mensagens tornadas públicas apontam proximidade entre o banqueiro e o ministro do STF e ampliaram a cobrança por uma resposta política no Senado.

Alcolumbre reconheceu o volume atípico da ofensiva. Há 109 pedidos de impeachment contra integrantes da Corte no Congresso, número que o presidente da Casa classificou como fora da normalidade. Ele, no entanto, evitou dizer se algum desses processos terá tramitação. Só na terça-feira, 1º de setembro, outros três pedidos contra ministros do Supremo foram protocolados. Moraes concentra a maior parte das iniciativas paradas.

Marinho tenta separar a recusa em assinar o impeachment de uma postura de omissão. O senador afirma que já adotou outras frentes. Levou notícia-crime à Procuradoria-Geral da República pedindo o afastamento e a prisão de Moraes. Também cobrou o afastamento de Gonet e pediu à Presidência da República a saída de Andrei Rodrigues do comando da PF. Além disso, solicitou ao presidente do STF, Edson Fachin, a abertura de investigação contra o colega de Corte.

No posicionamento divulgado, o parlamentar sustenta que o Brasil não atravessa um período de normalidade democrática. Diz que as denúncias contra Moraes e Vorcaro precisam continuar sob apuração rigorosa de Mendonça. Ao mesmo tempo, insiste que nenhuma autoridade está acima da lei e que a reação institucional deve evitar entregar ao outro lado uma saída processual.

A lógica do argumento é preventiva. Marinho não discute apenas o mérito das acusações. Discute o risco de o rito nascer vulnerável. Se o Senado aceitar o pedido e os senadores se tornarem juízes da causa, qualquer falha — inclusive o fato de um futuro julgador ter atuado antes como autor da peça — poderia ser explorada para anular o procedimento. Foi esse receio, e não a minimização das denúncias, que ele apresentou como motivo para não assinar.

O recado também serve de recorte político. Parte da oposição quer transformar as mensagens envolvendo Vorcaro em gatilho imediato para o impeachment. Marinho adota outra sequência: manter a pressão por investigação, pedir afastamentos e, ao mesmo tempo, preservar o que considera a higidez de um eventual julgamento no Senado.

O caso ganhou densidade porque mistura três frentes de poder. De um lado, o STF, com Moraes no centro das críticas e Mendonça à frente da apuração. De outro, o Ministério Público e a Polícia Federal, com Gonet e Andrei Rodrigues citados nas mesmas investigações. No Congresso, a conta recai sobre Alcolumbre, cobrado a decidir se os pedidos deixam a gaveta.

A divulgação das mensagens funcionou como acelerador. A proximidade entre Vorcaro e Moraes, agora pública, reforçou a narrativa da oposição de que há conflito grave o bastante para justificar um processo político. O contraponto de Marinho é que gravidade das denúncias não autoriza descuido de forma. Para ele, um processo nascido com brecha vira instrumento frágil.

O senador também desloca a cobrança para outras autoridades. Ao pedir o afastamento do PGR e do chefe da PF, amplia o alcance da crise para além do Supremo. A tese implícita é que o episódio não se resume a um ministro. Envolve, na visão dele, o modo como órgãos de Estado se relacionaram com Vorcaro.

Mesmo sem assinar o impeachment, Marinho afirma que seguirá exigindo apuração, transparência e responsabilidade. O movimento tenta responder a duas audiências ao mesmo tempo: a da base que cobra gesto duro contra Moraes e a do ambiente institucional que, segundo ele, usaria qualquer detalhe para esvaziar o processo.

O Senado permanece no centro da decisão. Caberá a Alcolumbre admitir ou não algum dos pedidos. Enquanto isso, o número de iniciativas contra ministros do STF continua alto e Moraes segue como principal alvo. A posição de Marinho entra nesse tabuleiro como um gesto de contenção formal, não de recuo quanto ao julgamento político das denúncias.

Em resumo, o senador potiguar reconhece a seriedade das acusações, apoia a continuidade das investigações sob relatoria de Mendonça, cobra afastamentos e investigação interna no STF, mas recusa pôr o nome no pedido de impeachment. O motivo declarado é único: impedir que sua participação seja convertida, mais à frente, em subterfúgio para anular o julgamento.



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