Um clima de forte apreensão tomou conta de Brasília nesta terça-feira (1º) após a divulgação, à tarde, de um relatório da Polícia Federal sobre mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. O documento, cujo sigilo foi retirado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF, descreve uma série de encontros, jantares e agendas entre o empresário e o ministro Alexandre de Moraes em Brasília, São Paulo e Campos do Jordão, entre 2023 e 2025.
Uma fonte ouvida em Brasília descreveu o ambiente na capital federal como de “grande apreensão” diante do grau de intimidade retratado nas conversas. O material cita o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria como um dos principais intermediários da aproximação. Mensagens indicam que Faria encaminhou o contato de Moraes a Vorcaro, organizou o primeiro almoço em hotel de luxo em Campos do Jordão, em dezembro de 2023, e tratou de encontros posteriores, inclusive em residências.
O relatório da PF aponta indícios de ao menos seis encontros. Há registros de motorista avisando que “o Min Alexandre chegou” à casa de Vorcaro, de o banqueiro dizendo à então namorada que estava “com Alexandre de Moraes” e de um encontro no feriado de abril de 2025, na região de Campos do Jordão, quando Vorcaro escreveu que ia “encontrar Alexandre Moraes aqui perto de casa”. Em março de 2025, segundo as mensagens, Hugo Motta e Ciro Nogueira teriam chegado à residência do empresário “para falarem com Alexandre”.
Campanhas veem o tema como armadilha
Fontes jornalísticas ligadas aos dois principais grupos da disputa presidencial — o de Luiz Inácio Lula da Silva e o de Flávio Bolsonaro — afirmam que as campanhas estão preocupadas em explorar o episódio. A avaliação interna, segundo essas fontes, é que há informações capazes de complicar os dois candidatos.
Do lado de Flávio, o senador e ex-ministros do governo Jair Bolsonaro aparecem em reuniões e articulações com Vorcaro. Fábio Faria, segundo o relatório, costurou a ida de Moraes à casa do banqueiro e o almoço em Campos do Jordão. Flávio, por sua vez, já admitiu ter pedido recursos a Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Nesta terça, veio a público que o fundo Havengate Development Fund, nos Estados Unidos — o mesmo citado nas transferências anteriores — recebeu nova parcela de Vorcaro, de US$ 1,6 milhão, em setembro de 2025, valor que não havia sido detalhado antes pelo senador. O Coaf apontou que os repasses foram maiores e se estenderam por mais tempo do que o admitido por Flávio.
Do lado de Lula, o caso Master também alcança o Palácio do Planalto e a base aliada. Vorcaro foi recebido pelo presidente em dezembro de 2024. Relatórios e reportagens apontam interlocução com nomes do governo e do PT, entre eles o senador Jaques Wagner. Por isso, segundo as fontes, o Palácio e a campanha petista também tratam o tema como de alto risco.
Dificuldade recíproca e o fator Mendonça
As duas campanhas, de acordo com interlocutores ouvidos nesta terça, atravessam um momento de extrema dificuldade com o caso. A tendência relatada é de não explorar de forma ofensiva o eixo Alexandre de Moraes–Daniel Vorcaro: cada lado teme que o ataque devolva o holofote para as próprias ligações com o banqueiro.
Há ainda receio com o que o ministro André Mendonça pode fazer a partir de agora. Relator do inquérito no STF, Mendonça retirou o sigilo do relatório, pediu manifestação da PGR sobre mensagens em que Vorcaro pede “proteção” junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e já rejeitou propostas de “delação seletiva”. Fontes próximas às campanhas perguntam se Mendonça poupará alguém — ou se o avanço da apuração atingirá figuras dos dois campos.
As mensagens tornadas públicas nesta terça mostram Vorcaro perguntando a Moraes, dois dias antes de ser preso, em novembro de 2025: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. O banqueiro também cobrou intervenção para “não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem”. O gabinete de Moraes, em ocasiões anteriores, negou viagens particulares com Vorcaro e questionou parte das atribuições feitas a partir do celular do empresário. O escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, afirmou que o contrato de cerca de R$ 131 milhões com o Master foi assinado após consulta sobre impedimentos legais e que os serviços foram prestados. Metadados do arquivo, segundo a PF, indicam edição por usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Flávio Bolsonaro reagiu nesta terça pedindo a renúncia de Moraes ao STF. A campanha de Lula ainda não havia se pronunciado, até o fechamento desta reportagem, sobre o novo conjunto de mensagens.
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