A poucos dias do segundo turno e em desvantagem ou empate técnico nas pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou a sabatina da TV Globo desta quinta-feira (15) para tentar frear a rejeição. Ele assumiu a responsabilidade pela avaliação negativa de seu governo — Datafolha mostrou 41% de ruim ou péssima contra 35% de boa ou ótima — mas o fez de forma que soou mais a cálculo eleitoral do que a autocrítica genuína. “Quando as coisas dão certo, sou eu quem ganha; quando não dão, sou eu quem perde”, afirmou, depois de ter criticado dias antes a desorganização de sua própria campanha e de ter ficado 1,87 ponto percentual atrás de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno.
O mesmo tom de conveniência marcou a mudança de posição sobre a maioridade penal. Historicamente contrário à redução, Lula passou a defender a responsabilização de adolescentes a partir dos 16 anos apenas para crimes hediondos. “Enquanto cidadão brasileiro, para todo e qualquer crime hediondo eu sou a favor de reduzir a maioridade”, disse. A guinada ocorre justamente quando a segurança pública aparece como ponto frágil do governo e o rival explora o tema. Ele ainda tentou condicionar a mudança à aprovação da PEC da Segurança, criticando a oposição por querer inserir o assunto no texto — o que levou Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) a retirar a proposta da pauta do Senado. O discurso contrasta com o de 2004, quando Lula afirmava que cadeia não resolvia o problema dos jovens e que crimes hediondos exigiam tratamento psicológico, e com o de 2007, após o caso João Hélio, quando disse que aumentar a punição não resolvia nada.
A mesma lógica eleitoral aparece no Bolsa Família. Lula anunciou reajuste de 15,04% (de R$ 600 para R$ 691) 17 dias antes do primeiro turno e, na sabatina, afirmou que só soube recentemente que o benefício não havia sido corrigido pela inflação. “É inexplicável que no governo do Lula alguém pense em não reajustar”, disse, tentando se eximir. A declaração soa pouco crível em um governo que controla o programa há anos e que já vinha despejando medidas de apelo popular — isenção de imposto federal sobre a gasolina, proibição das bets, ampliação do Pé-de-Meia Universitário, perdão de dívidas de MEIs e proposta de transporte gratuito aos finais de semana — em ritmo acelerado de campanha. Aliados apostam no debate e nas mobilizações de rua em pelo menos 11 capitais para reverter o cenário; Datafolha desta quinta mostrou empate técnico (51% a 49% para Flávio).
Sobre o STF e o caso do Banco Master, Lula novamente tentou se afastar das investigações, equiparando suspeitas contra Alexandre de Moraes a denúncias anteriores envolvendo ministros nomeados por Jair Bolsonaro. Defendeu discutir reforma do Judiciário, minimizou o pedido de vista de Flávio Dino e, quanto ao diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues em evento financiado pelo Banco Master em Londres, afirmou que o chamou à atenção, que a explicação não o convenceu, mas que o delegado “faz um trabalho extraordinário” e “não é ligado a mim” — apesar de ter sido escolhido por ele.
O conjunto das declarações reforça a percepção de que Lula, diante do risco concreto de perder a reeleição, está disposto a adotar bandeiras historicamente associadas à direita e a anunciar benefícios de última hora, ao mesmo tempo em que tenta transferir ou diluir responsabilidades por resultados ruins.
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