A China é a principal compradora de produtos agropecuários do Brasil, à frente da União Europeia e dos Estados Unidos, segundo o Ministério da Agricultura. Por isso, analistas defendem que o país mantenha relações com Washington e Pequim, sem que a aproximação de um implique o afastamento do outro.
A avaliação foi feita nesta quarta-feira (7) em debate no Insper, em São Paulo, sobre o futuro da segurança alimentar e os efeitos para o agronegócio. Participaram a especialista em China Larissa Wachholz, ex-assessora especial do Ministério da Agricultura entre 2019 e 2021 e coordenadora do Programa Ásia no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri); Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global; e Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Questionada sobre o primeiro turno, que terminou com o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Wachholz disse que Pequim observa a América Latina com cautela, mapeando onde investimentos e relações comerciais são bem-vindos. A apreensão, segundo ela, cresceu com a postura dos Estados Unidos sob Donald Trump: a preocupação surgiu no primeiro mandato do republicano e se intensificou no segundo. “Os Estados Unidos têm deixado cada vez mais claro em seus documentos internos que eles veem a América Latina como uma região de influência norte-americana”, afirmou.
Para Wachholz, os chineses evitam se instalar em locais de confronto, porque o risco é alto. Os aportes precisam ter sentido econômico e só ocorrem com estabilidade jurídica. No Brasil, esses recursos têm ajudado a reduzir gargalos de infraestrutura e a tornar as exportações mais competitivas. No caso das carnes, a carga precisa seguir refrigerada, o que exige contêineres especiais e portos preparados. “Hoje, nós temos investimentos importantes da China nessa área, que é o que acaba viabilizando a nossa exportação tão competitiva”, disse. Se o país quiser continuar atraindo esse capital, completou, deve enviar sinal positivo e evitar confronto, mesmo com um eventual governo mais alinhado aos Estados Unidos.
Dois exemplos citados são a participação da chinesa Cofco no terminal STS11, no Porto de Santos (SP), usado na saída de produtos agrícolas, e a ampliação, concluída em 2024, das tomadas para contêineres refrigerados no terminal TCP de Paranaguá (PR), controlado pela China Merchants Port. A obra elevou a capacidade de guardar carnes e outros alimentos congelados na temperatura adequada até o embarque.
Santin compartilhou a leitura. “Vou dar a mesma resposta que eu dei quando o Jair Bolsonaro saiu do governo. Frango não tem partido nem ideologia. Não dá para misturar isso. O agronegócio trabalha para a segurança alimentar brasileira e de 170 países. Então não tem governo que vai atrapalhar um negócio que representa 35% do PIB brasileiro”, afirmou. Para ele, o peso do Brasil no abastecimento mundial exige que qualquer governante preserve o comércio com os países compradores. Santin disse ainda que não espera mudanças nas vendas de carnes à China por causa do resultado eleitoral.
Jank destacou que a política comercial de Trump, marcada por tarifas a outros países, tornou o ambiente internacional mais complexo para os negócios nos últimos anos. Nesse cenário, segundo ele, o Brasil precisa se dar bem com as duas potências. “Nós temos que nos dar bem com os Estados Unidos e com a China, ou seja, isso é obrigatório”, afirmou. Maior afinidade política com Washington ou Pequim não deveria significar o afastamento do outro parceiro.
Deixe sua opinião!
Assine agora e comente nesta matéria com benefícos exclusivos.
Sem comentários
Seja o primeiro a comentar nesta matéria!
Carregando...