Em abril de 2018, o governo da Bahia privatizou a Ebal, dona da rede Cesta do Povo. A NGV SPE pagou R$ 15 milhões e foi a única interessada depois de duas tentativas vazias. A rede dava prejuízo, mas no pacote ia o Credcesta, cartão de cerca de 274 mil servidores, aposentados e pensionistas, numa folha de R$ 1,6 bilhão por mês. No crédito, acesso ao contracheque pesa.
O TCE diz que o preço mínimo saiu de fluxo de caixa descontado que juntou o fundo de comércio de 49 lojas e o Credcesta, com data-base em 31 de outubro de 2017. O leilão foi em 11 de abril de 2018. No dia 27, Rui Costa assinou os decretos 18.353 e 18.354: margem própria de 30% da remuneração líquida e autorização para serviços financeiros, crédito e seguros. O cartão de compras virou plataforma de consignado, com risco menor para o credor.
Referências de mercado não precificam o Credcesta, mas mostram o que se paga por essa clientela. Em novembro de 2019, o Banco do Brasil desembolsou R$ 938 milhões por cinco anos da folha estadual de 272.995 servidores. Em Salvador, o Bradesco pagou R$ 183 milhões por 39 mil pessoas. A Folha de S.Paulo registrou exclusividade do cartão no estado até 2033.
Jaques Wagner era secretário de Desenvolvimento Econômico, pasta que conduziu a venda. Rui Costa governava. Em maio de 2026, já senador, Wagner defendeu a privatização no plenário, chamou a Ebal de “excrescência” e o Credcesta de ativo legítimo. Os dois dizem que o processo foi legal e serviu para estancar prejuízo.
Otto Alencar não entrou no leilão, mas já presidiu o conselho da Ebal. Relatórios da PF mostram Vorcaro tratando-o como “conselheiro” e “comandante”. O senador admite duas ou três ligações e diz ter recusado a “emenda Master”. As mensagens indicam tentativa de aproximação, não participação comprovada em irregularidade.
Ligado a Augusto Lima, o cartão entrou no circuito de Vorcaro e ganhou escala nacional. Parte das dívidas da Ebal — R$ 227,9 milhões em 2018 — ficou com o Estado, que pagou cerca de R$ 93 milhões entre 2019 e 2026. O Master foi liquidado. O FGC estima garantias de R$ 51,7 bilhões. Não há base para amarrar o Credcesta a esse rombo. Em delação recusada, Vorcaro falou em pagamentos a gente ligada a Wagner e citou Rui. Os dois negam. Os papéis não mostram sociedade em nome de Wagner.
Restam duas perguntas, à parte de delação e de Master. Alguém avaliou o Credcesta pelo negócio que ele se tornaria 16 dias depois? E o ativo medido em 2017 era o mesmo que existiu depois dos decretos?
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