De acordo com a revista piauí, em 2 de setembro de 2025, primeiro dia do julgamento da trama golpista, Fabiano Zettel, cunhado e operador de Daniel Vorcaro, falava com Marina (nome fictício), com quem manteve um caso de 2023 até a prisão dele, em março. No dia seguinte o Banco Central decidiria sobre a venda do Master ao BRB. “Amanhã sai a decisão, está na pauta. Vou tomar prescrição para dormir, porque amanhã a sorte está lançada.” A venda foi rejeitada.
A publicação teve acesso a gravações e áudios de WhatsApp. Boa parte é íntima. Outra abre o bastidor da fraude: urgência, rivalidade, ressentimento e ocultação de dinheiro. Os dois também comentaram o julgamento na TV. Zettel disse que Alexandre de Moraes era “melhor amigo do Daniel. Tô contando com ele. Melhor amigo, faz jantar junto, sai junto.” Não explicou o que seria “contar”. Marina, de religião de matriz africana, prometeu rezar para os problemas de Vorcaro não atingirem a Moriah Investimentos, empresa que Zettel dirigia. Pastor da Igreja Batista da Lagoinha, ele agradeceu.
Em outubro, Zettel viajou ao exterior “para um assunto sigiloso”. Depois da viagem, ligou e falou da ordem do BC: três semanas para Vorcaro reformular o banco, senão viria a liquidação. No relato obtido pela piauí, o dinheiro escondido fora do país é atribuído a Vorcaro. Zettel disse que no exterior não podia falar ao telefone.
Em 18 de novembro o Master foi liquidado. Na véspera, Vorcaro foi preso em Guarulhos ao tentar voar para Dubai. No mesmo dia havia apresentado a Gabriel Galípolo um plano de venda à Fictor, sem capital suficiente, e falado em investidor dos Emirados. Em áudio, Zettel disse que voava de Brasília a São Paulo com o “príncipe”: “A gente achou que ia estourar algo de ruim, mas hoje não estourou nada.”
Depois da liquidação, relatou a Marina: “Pegaram os telefones, os iPads de todo mundo. O meu ainda não.” Guardava um aparelho no carro. Contas e bens bloqueados, Vorcaro e quatro diretores presos, outros mandados a cumprir. Na noite anterior tomara Rivotril e não ouviu os advogados na porta à 1h. Acordou às 6h com oitenta chamadas. Preparou mala para a superintendência da PF, mas não iria ver o cunhado — é casado com Natália Vorcaro e tem três filhos. Depois passou a visitá-lo como parte da defesa, por ser formado em direito.
Nas conversas com Marina, Zettel descreve Vorcaro como bon-vivant que só passou a ir ao banco, de jaqueta com o nome da casa, quando o negócio desabou e virou chacota. Nas mensagens com o próprio Vorcaro, o tom era servil: “Você sempre estará nas minhas prioridades! Até o fim!!” Quando o cunhado sumia: “Tô começando a achar que você realmente quer distanciamento.” Fontes da piauí dizem que Vorcaro o tratava como “Zé Ninguém”, mas recorria a ele para pagar, assinar, comprar medicamentos e organizar o tríplex depois das festas. Zettel implorava depósitos; Vorcaro prometia a muita gente e passava o contato do cunhado.
Pelas mensagens da PF, Zettel operacionalizava repasses a advogados, auxiliares, jornalistas contratados e servidores sob suspeita, inclusive as parcelas pedidas para o filme Dark Horse — “o cara do filme não sai da minha cola”, dez parcelas de 2,5 milhões de dólares, cobradas via Thiago Miranda enquanto Flávio Bolsonaro pressionava Vorcaro. A noitada de Londres foi faturada na Moriah. Zettel era o único dono do fundo Leal, que controlava o Arleen, usado na participação no resort Tayayá, negócio que envolveu Dias Toffoli. Também pagava Luiz Philippi Mourão, o Sicário, apontado como núcleo de monitoramento e intimidação. Nenhum pagamento saía sem aval de Vorcaro, nem doação à Lagoinha.
Zettel dizia que o cunhado “esticava demais a corda”. Concordava em parte com Marina: “Para umas coisas, ele é inteligente. Para outras, ele é burro emocionalmente.” Depois da prisão, tentou se descolar: teria saído do Master em 2024 e a Moriah seria investimento próprio — tese frágil diante das mensagens. Perguntou a Vorcaro se Lúcio Funaro tinha sido contratado pela Moriah; Vorcaro autorizou o pagamento. “Eu tenho que trabalhar para me descolar dele de qualquer jeito.”
Reclamou da imprensa: haveria “um movimento para me desmoralizar porque eu sou o link do Daniel com o Tarcísio.” Foi o maior doador pessoa física da campanha de Tarcísio de Freitas em 2022 (R$ 2 milhões) e o maior doador individual de Jair Bolsonaro no segundo turno (R$ 3 milhões). Não há registro de doações equivalentes ao PT naquela eleição.
Vorcaro ficou preso doze dias. Em 28 de novembro, a desembargadora Solange Salgado, do TRF-1, revogou a preventiva, com tornozeleira. Em 2 de dezembro, Zettel agradeceu a Marina: “Com a graça de Deus, você parou o terreiro. E talvez por isso as coisas estão melhorando.”
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