O diploma do ensino médio chegou neste ano para Thais Barbosa, aos 34. O caminho passou pelo Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), prova voltada a quem não se formou na idade prevista. Antes disso, ela havia superado a dependência de crack e agora procura uma vaga no mercado de trabalho.
Thais diz que sempre foi estudiosa, até “conhecer as ruas”. Aos 13 anos, deixou de frequentar a escola pública da zona norte do Rio de Janeiro e não voltou. “Você não tem mais vontade de fazer nada, é só aquilo ali. É só a droga. Virei usuária de crack e fiquei 12 anos na rua”, conta. Nesse período, foi violentada mais de uma vez.
A virada começou ainda na fase mais dura do vício. Ela conheceu o atual marido, engravidou e, juntos, os dois desenharam um plano para se reerguer. O centro desse plano era a educação: uma qualificação que abrisse emprego e permitisse morar com estabilidade e segurança. Como os estudos tinham parado na pré-adolescência, a saída foi o Encceja.
Na primeira tentativa, ela alcançou a nota exigida para o certificado do ensino fundamental. Em seguida, trabalhou como camareira e arrumadeira. O ensino médio resistiu. Por dois anos, fez a prova e não atingiu o mínimo de acertos em matemática. “Você precisa de força de vontade. Tem de ter, senão, não adianta nem mãe, nem pai, nem tio te internando em clínica boa. Você precisa colocar na sua cabeça que não quer mais voltar para aquela vida”, diz.
Ela e o marido se mantiveram longe da droga e insistiram no exame. Neste ano, depois de estudar por vídeos do Youtube, Thais foi aprovada e recebeu o diploma do ensino médio. O currículo ainda é curto em experiência, mas ela busca uma oportunidade. “Só preciso de uma chance. Mas conquistei o principal: estudei. Você pode tirar tudo de uma pessoa, mas o que ela aprendeu, ninguém tira”, afirma. E completa: “Mente vazia é oficina do diabo.”
O caso dela conversa com um retrato mais amplo. Em 2025, segundo a Pnad Contínua do IBGE, mais de 40% dos adultos com mais de 25 anos no Brasil não tinham concluído a educação básica. Cerca de 30% sequer terminaram o ensino fundamental. Para quem está nessa situação, o Encceja funciona como atalho: a pessoa se prepara para a prova e, com o certificado, dá um passo para reorganizar a vida.
É o que tenta Luiz Ferreira Filho Tarcha, de 57 anos. Depois de décadas na manutenção de antenas de TV, voltou aos livros. “Estou me preparando para o Encceja. Fui expulso de casa aos 14 anos e parei de estudar na sexta série”, diz. “É engraçado, né, faz uns 35 anos isso, e vou voltar. Não é fácil, não domino o conteúdo, não tenho paciência para redes sociais, estou todo atrapalhado, mas nada vai me fazer desistir de completar os estudos.”
Morador de Piancó, no sertão da Paraíba, ele quer o diploma do ensino médio para prestar vestibular e cursar faculdade de Libras, a Língua Brasileira de Sinais. A decisão nasceu no trabalho de porteiro na Praia Grande, no litoral de São Paulo. “É uma cidade turística, e vinha muita gente surda e muda. Poxa, eu ficava com vergonha de não poder servir até onde aquela pessoa precisava. Aí eu decidi: vou fazer Libras.”
Ao ouvir as dificuldades de Luiz, Thais recomenda foco: “Se a gente não tem ninguém para estimular, bota a mão no bolso e vai. Faz por você, bota na cabeça que vai conseguir.” A mesma insistência ela tenta passar ao filho, Lorenzo, de 8 anos. A meta é que ele não precise de um trajeto tão longo para chegar a uma vida estável. O menino tem apoio do pai e da mãe nas lições, faz inglês desde os 4 anos e começou aulas de natação. “Ele não vai passar pelas coisas que eu já passei, né? Quando estiver um pouquinho maior, já vai ser mais qualificado para poder sair da favela e ter uma vida normal lá fora.”
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