A Polícia Federal reconstruiu o lado de Daniel Vorcaro em uma troca atípica de mensagens com Alexandre de Moraes. Do lado do ministro, porém, o conteúdo não veio à tona. Para acessá-lo, os investigadores precisariam aplicar no aparelho do próprio magistrado o mesmo procedimento utilizado no material apreendido com o banqueiro. Na segunda semana de fevereiro de 2026, quando essa análise ainda estava no início, Moraes deixou de usar o telefone, o chip e o número pelos quais conversava com o controlador do Banco Master.
O número abandonado vinha sendo utilizado pelo ministro ao menos desde 2022. Foi por essa linha que ocorreram os contatos agora sob análise no Supremo Tribunal Federal. A troca de aparelho coincidiu com a fase inicial do inquérito sobre o caso Master, quando a PF ainda trabalhava nos dois celulares recolhidos na primeira prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto de Guarulhos, quando ele se preparava para embarcar com destino aos Emirados Árabes.
O método utilizado nas conversas ajuda a explicar a lacuna. Em vez de digitar diretamente no WhatsApp, os dois escreviam no bloco de notas do celular, faziam uma captura de tela e enviavam a imagem como mensagem de visualização única. A polícia encontrou 52 mensagens redigidas dessa forma por Vorcaro. O caminho para recuperá-las foi o cruzamento entre os horários de envio no aplicativo e os registros do iPhone sobre a abertura e o fechamento de programas. Após cada captura de tela, o banqueiro abria a conversa com Moraes e enviava a imagem, que desaparecia depois da leitura.
As mensagens enviadas pelo ministro só poderiam ser reconstituídas caso o mesmo cruzamento fosse realizado no celular dele. A assessoria do STF foi procurada. Moraes não se pronunciou.
Segundo o material já conhecido, o primeiro elo entre os dois teria passado pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria. Em 26 de dezembro de 2023, Faria encaminhou a Vorcaro o contato de WhatsApp do magistrado. O banqueiro salvou o número imediatamente, identificando-o como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
O período recuperado pela PF vai de 28 de outubro a 17 de novembro de 2025. No início desse intervalo, Vorcaro tentava marcar um encontro presencial. Moraes estava em Madri e retornaria alguns dias depois. Em 30 de outubro, o banqueiro escreveu que mudaria a viagem a Abu Dhabi para conseguir encontrá-lo na terça-feira, caso o ministro pudesse.
Na mesma mensagem, Vorcaro mencionou uma suposta pressão sobre o Banco Central e o risco de uma medida contra ele. Disse ter ouvido, “em confidencialidade”, que “G e os diretores” estariam novamente sob “pressão máxima”, porque o BC vinha sendo cobrado pela PF e pelo Ministério Público. Pediu que o assunto fosse reforçado com “Andrei e Paulo”, para evitar, nas palavras dele, uma “sacanagem” que fizesse “tudo ir pro saco”. Na interpretação da polícia, “G” seria Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central; Andrei, Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF; e Paulo, Paulo Gonet, procurador-geral da República.
Também há indícios de dois encontros nas vésperas da prisão. O primeiro teria ocorrido em 14 de novembro de 2025, na casa de Vorcaro.
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