O que teve origem em setembro como um bloqueio estudantil em uma escola nos arredores de Paris transformou-se, ao longo de semanas, em uma onda de manifestações que mobilizou cerca de 500 mil pessoas em todo o país no fim de semana e deixou um rastro de destruição em várias cidades. Os alunos reivindicavam a contratação de mais professores, salas de aula menos lotadas e infraestrutura básica. Professores e funcionários públicos também aderiram ao movimento, em meio à alta rejeição ao governo de Emmanuel Macron e à proposta de orçamento para 2027, que prevê o congelamento do salário-base dos servidores.
Entre o fim de setembro e o início de outubro, os atos ganharam contornos mais violentos: duas escolas foram incendiadas, veículos foram destruídos e ocorreram confrontos com a polícia, que resultaram em prisões. A pauta se ampliou e passou a incluir o alto custo de vida e a deterioração dos serviços públicos. O cientista político Thomás Zicman de Barros, da Sciences Po Paris, associa o movimento à retomada das mobilizações dos Coletes Amarelos, em 2018. Segundo ele, grupos ligados a esse movimento já planejavam atos contra a carestia para 17 de outubro. Com o surgimento das reivindicações estudantis, as duas frentes se uniram. Barros destaca a ausência de uma liderança centralizada, a organização espontânea, chamada localmente de “selvagem”, e a dificuldade das autoridades em controlar os protestos, além do aumento da violência nos confrontos.
No fim de semana, Paris e Marselha registraram os maiores danos. Lojas de luxo reforçaram a segurança, mas vitrines de marcas como Dior, Rolex, Louis Vuitton, Ralph Lauren e Gucci foram danificadas. Em Marselha, a loja oficial do Olympique de Marseille foi saqueada. Em Bordeaux, o mesmo ocorreu em uma unidade das Galeries Lafayette. A Federação do Comércio e Varejo estima que quase 3 mil estabelecimentos foram afetados. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, informou que 60 mil policiais e agentes foram mobilizados no sábado, mas reconheceu que o efetivo foi insuficiente. Naquele dia, cerca de 2.400 pessoas foram presas, quase mil policiais ficaram feridos e um manifestante morreu após sofrer uma parada cardíaca. Na segunda-feira (19), as autoridades decretaram toques de recolher em áreas de Paris, Lille e Nice para conter novos saques e confrontos. Manifestações semelhantes também foram registradas na Itália, na Albânia e em Portugal.
O presidente Emmanuel Macron afirmou, em pronunciamento na televisão no domingo (18), que “nada justifica” a violência “desenfreada” e pediu que as reivindicações legítimas fossem diferenciadas dos atos de destruição. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu atribuiu a violência à extrema esquerda e afirmou que haveria uma tentativa de provocar agitação para influenciar as eleições de 2027. Segundo informações divulgadas, os serviços de inteligência teriam indicado ao governo que a onda de protestos foi iniciada pelo partido França Insubmissa, que nega a acusação e defende manifestações pacíficas. Seu líder, Jean-Luc Mélenchon, exigiu provas ou um pedido de desculpas. Barros alerta que tratar o episódio apenas como uma questão de ordem pública pode ocultar a insatisfação com o poder de compra e a qualidade dos serviços públicos, embora condene os danos provocados pelos manifestantes.
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