Flávio Bolsonaro desembarca em Washington sem agenda confirmada com Trump

Viagem do senador ocorre em momento delicado da pré-campanha, após escândalo de áudios e piora nas pesquisas eleitorais
Por: Brado Redação 25.mai.2026 às 16h36
Flávio Bolsonaro desembarca em Washington sem agenda confirmada com Trump
Foto: Ton Molina/Agência Senado

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que disputa a indicação para candidato à Presidência da República, chegou a Washington nesta segunda-feira (25 de maio de 2026). O objetivo principal da ida aos Estados Unidos é tentar uma reunião com o presidente Donald Trump, mas a Casa Branca ainda não confirmou o encontro, previsto para a terça-feira (26).

Fontes próximas ao parlamentar indicam que a conversa teria sido organizada a partir de um convite do próprio governo americano. No entanto, o site oficial do Senado Federal não registra nenhum ofício comunicando a viagem internacional do senador, procedimento comum em situações semelhantes. A assessoria de Flávio afirma que o documento foi protocolado corretamente, embora não esteja disponível para consulta pública. Em viagens anteriores ao exterior, o senador costumava solicitar licença à Casa e detalhar previamente sua programação.

A agenda nos EUA acontece em um dos períodos mais desafiadores para a pré-candidatura de Flávio. Recentemente, o site Intercept Brasil divulgou gravações nas quais o senador solicita recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme "Dark Horse", produção que retrata o ex-presidente Jair Bolsonaro. Aliados do parlamentar tentam minimizar os efeitos do episódio, mas os números mostram impacto negativo.

A mais recente pesquisa Datafolha, a primeira após a divulgação dos áudios, registra crescimento da vantagem do presidente Lula sobre Flávio. No primeiro turno, Lula aparece com 40% das intenções de voto, contra 31% do senador — diferença que subiu de três para nove pontos percentuais. Na rodada anterior, os dois candidatos estavam em empate técnico. No segundo turno, Lula passou a liderar com 47% a 43%, revertendo o empate técnico anterior de 45% a 45%.

De acordo com pessoas do círculo próximo, Flávio viajou acompanhado pelo irmão Eduardo Bolsonaro e pelo empresário Paulo Figueiredo. Ambos mantêm atuação intensa junto a grupos conservadores norte-americanos. No ano passado, os dois pressionaram por medidas de sanção contra autoridades do governo brasileiro e ministros do Supremo Tribunal Federal.

Em postagens nas redes sociais, Figueiredo classificou como especulação da imprensa qualquer informação sobre o possível encontro com Trump. Ele reforçou que nem a campanha nem a Casa Branca fizeram confirmação ou desmentido oficial. “Flávio Bolsonaro está em Washington para uma série de reuniões de alto nível. O resto saberão em breve”, escreveu o empresário.

Caso ocorra, o diálogo entre Flávio e Trump aconteceria cerca de três semanas depois do encontro entre o presidente americano e Lula. Fontes do governo federal brasileiro afirmam não haver intenção de interferir na agenda do senador, vendo a iniciativa como uma tentativa de gerar um fato positivo em meio à turbulência da crise do "Dark Horse". Reservadamente, porém, auxiliares do Palácio do Planalto sinalizam que qualquer sinal de interferência externa nas eleições brasileiras receberia resposta firme e imediata.

Entre os apoiadores de Flávio, predomina a cautela quanto à divulgação precoce da possível reunião. Há temor de cancelamento de última hora, uma vez que Trump acompanha de perto os desdobramentos da guerra envolvendo o Irã e negocia possível acordo com Teerã. Nos bastidores, a viagem é descrita como uma aposta arriscada, quase de “tudo ou nada”, para tentar reposicionar a imagem da pré-candidatura.

Paralelamente, nesta semana, um grupo de cerca de 20 parlamentares e pré-candidatos do PL — incluindo deputados federais, estaduais e vereadores — se reuniu em Dallas com Eduardo Bolsonaro, na região onde ele reside. Entre os presentes estavam nomes como Gil Diniz, Lucas Bove, Paulo Mansur e Cristiano Caporezzo. Para alguns participantes, esta já representa a terceira viagem aos Estados Unidos para encontros semelhantes.

Os integrantes do grupo custeiam as despesas com recursos próprios, optando por passagens parceladas, hospedagens econômicas e refeições simples — como lanches no supermercado Costco, onde um combo de cachorro-quente e refrigerante sai por cerca de US$ 1,50. Segundo eles, o investimento compensa pelo fortalecimento dos laços com Eduardo e pela produção de conteúdo para as redes sociais, que ampliam o engajamento político.

O apoio ao senador Flávio, no entanto, não é unânime dentro do movimento. Parte dos aliados considera que o caso "Dark Horse" já foi superado e defende que não houve irregularidade no pedido de apoio financeiro, feito antes das suspeitas sobre Vorcaro virem à tona. Outros, porém, reconhecem falhas na condução da crise, como a negativa inicial da relação com o ex-banqueiro.

Relatos internos da base bolsonarista indicam que a proximidade com Eduardo Bolsonaro — que vive nos Estados Unidos há aproximadamente um ano — é hoje maior do que com Flávio. Militantes relatam sentir falta de contato direto com o senador, apesar de continuarem atuando em sua defesa nas plataformas digitais. A ida do grupo aos EUA também é vista como gesto de lealdade a Eduardo.

Nas redes, os participantes se apresentam como “Eduardistas” e publicam fotos e vídeos dos encontros. Eles defendem que essas reuniões são essenciais para manter a unidade do grupo, fortalecer articulações políticas e discutir cenários para futuras candidaturas.

A viagem de Flávio, portanto, combina esforços para ganhar visibilidade internacional com tentativas internas de reorganização da base em um cenário de desafios eleitorais. O desfecho da agenda em Washington deve definir se a estratégia trará os resultados esperados ou aumentará as incertezas em torno da pré-candidatura.



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