Em entrevista completa concedida nesta quinta-feira (30) ao programa Brado Jornal, da Rádio Brado, o senador Ângelo Coronel (Republicanos), candidato à reeleição, classificou o momento político baiano como um “prenúncio de uma derrota” do PT no Palácio de Ondina e fez duras críticas ao governador Jerônimo Rodrigues. Conduzida pelos apresentadores Timóteo Oliveira e Vanessa Moreira, a conversa revelou o tom direto do parlamentar, que se autodefine como praticante do “sincericídio” e se posiciona como centro-direita.
Coronel, que migrou há quatro meses para o Republicanos a convite de Hugo Motta e do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas, reforçou que o atual cenário eleitoral é “muito complicado” e que as pesquisas “induzem a pessoa a ficar na dúvida”. Ele citou divergências gritantes entre institutos (Paraná Pesquisas apontando Rui Costa com 49% e Quest com 22%) e chegou a cogitar apresentar projeto de lei para restringir a divulgação de pesquisas a seis meses antes do pleito.
Desespero e despreparo de Jerônimo: “não conhece o problema da 324”
O trecho mais ácido da entrevista girou em torno da reação do governador Jerônimo Rodrigues a uma pergunta do jornalista Victor Pinto sobre a BR-324. Após ouvir o áudio em que Jerônimo rebate o repórter perguntando se ele se revoltou com Bolsonaro e ameaça “levantar o histórico” do jornalista, Coronel não poupou críticas.
“Rapaz, que absurdo essa declaração do governador Jerônimo Rodrigues com o jornalista Victor Pinto”, disse o senador. E foi além: “Olha, primeiro passo, eu acho que Jerônimo não conhece o problema da 324. Às sábados-feira ele não vai de carro, ele vai sempre de helicóptero ou de avião, ele não sabe os problemas que o usuário dessa rodovia, que é a mais importante da Bahia, sofre no seu dia a dia. Você já viu alguma notícia que Jerônimo pegou um carro para ir a Feira de Santana ou a Santa Maria? Nunca, só helicóptero.”
Coronel classificou a resposta como sinal de desespero e despreparo: “Eu também achei descabida essa intriga com o Victor, porque o Victor simplesmente desabafou até como cidadão. (...) Fica aqui o meu repúdio educado ao governador da Bahia, de ter talvez perdido um pouco a chave, o chaveiro inteiro, e fazer essa crítica ao jornalista.”
O senador ironizou a cronologia apresentada por Jerônimo (“dois anos depois da Dilma, quatro com o Bolsonaro”) e afirmou que a desculpa de que a obra é federal “não cola”, porque a campanha do PT está atrelada a Lula: “Se Lula chegar amanhã e falar assim, ‘a Bahia eu estou fora, votem quem vocês quiserem’, eu acho que Jerônimo vai ter dificuldade para se eleger vereador. Porque Lula é quem dá os votos para esse pessoal.”
Para Coronel, o quadro atual já é o “prenúncio de uma derrota”. Diferentemente de Wagner e Rui Costa, que nas reeleições disparavam nas pesquisas, Jerônimo “saiu no primeiro mandato praticamente do zero” e, agora, “está o contrário” do que se esperaria de quem está no poder. “Eu acho que o povo da Bahia quer uma mudança natural. (...) É de 20 em 20 anos”, afirmou, comparando com a troca de Waldir Pires (1986) e Jacques Wagner (2006).
Ponte Salvador-Itaparica: “ponte dos sonhos” e “mentira”
Sobre a ponte Salvador-Itaparica, Coronel foi categórico. Chamou o projeto de “ponte dos sonhos” e acusou o governo de ter praticado uma “mentira” ao fazer o lançamento simbólico.
“O que não pode é você querer forjar um batistério. Eu sou engenheiro civil. Aquilo que fizeram, aquilo ali é um absurdo, é um assíntio. Aquilo ali podia até sofrer um processo de impedimento, porque aquilo ali é uma mentira. (...) Ali tiveram a cara de pau de colocar o lançamento de uma ponte.”
Ele lembrou promessas antigas de Jacques Wagner e João Henrique Carneiro (ainda em 2008 e 2011/2012) e sugeriu que, no horário eleitoral gratuito, os petistas peçam desculpas: “Eu acho que Jacques Wagner devia chegar nos programas de televisão e rádio agora (...) e falar para a gente: ‘me desculpe, nós mentimos para vocês, a ponte realmente é um sonho’.”
Coronel explicou que a obra é uma parceria público-privada (PPP) com empresa chinesa, que arcaria com a execução em troca de concessão de 20 ou 30 anos. “Não é nem dizer que o Estado não tem orçamento (...). Quem vai bancar a ponte é a empresa chinesa. O Estado vai bancar aquele início de fazer projetos, sondagem. (...) Eu acho que faltou vontade de ir para a China, pressionar a empresa. Se eu não quiser, senão eu vou procurar outra empresa.” E concluiu: “Eles simplesmente divulgaram algo que não vai acontecer a curto prazo. Não tem como acontecer. Eu espero que o próximo governador realmente tenha mais pressão e faça com que essa ponte dos sonhos saia.
Insegurança: “o tema mais debatido” e “questão estrutural”
Ao ser perguntado sobre a segurança pública — apontada por empresários como principal motivo de insatisfação —, Coronel reconheceu a gravidade: “Esse é um tema hoje, talvez o tema mais debatido no estado da Bahia, é a questão da segurança. Agora, é uma questão estrutural.”
O senador começou a falar sobre a fronteira com o Paraguai (citando Ponta Porã e San Juan Caballero) como parte do problema, mas a transcrição se interrompe nesse ponto. Ainda assim, ele vinculou a insegurança ao descontentamento dos “geradores de renda” e deixou claro que, em um eventual governo alinhado (como o de ACM Neto), o tema seria prioritário no Senado.
Coronel também defendeu a privatização de empresas estatais (“o Estado não tem que ser empresário”), criticou a bitributação de lucros (“isso é só pra comunismo”) e se colocou como “senador municipalista”: afirmou ter destinando emendas a 406 dos 417 municípios baianos e ter sido o único senador baiano a relatar o Orçamento da União, com aprovação unânime.
Ao final, o parlamentar reforçou que não muda o estilo: “Se eu tenho praticamente quase 40 anos de vida pública, fui eleito com esse estilo. Como é que eu vou mudar o estilo? Não tem como.”
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