Fotos e conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram o cuidado com que o então dono do Banco Master organizou, à distância, um almoço reservado para o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O encontro ocorreu no hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão (SP), em 30 de dezembro de 2023. Vorcaro não estava à mesa, mas supervisionou o cardápio, as garrafas e até a organização do serviço.
O chef José Maria Meira, contratado para a recepção, recebeu, com três dias de antecedência, o aviso de que precisaria preparar uma refeição especial. Em resposta, disse que ia “deitar o cabelo” e listou trufa, caviar, vieiras, foie gras e wagyu. Afirmou que a “Casa Vorcaro está sempre pronta” e que precisaria correr atrás de trufas brancas, iguaria que pode chegar a R$ 24 mil o quilo.
O menu incluiu caviar, vieiras com ovas de salmão, ovo trufado, foie gras com banana, carne dry aged, wagyu e trufas. Na adega, o banqueiro mandou buscar “4 vinhos top”. Depois corrigiu: “5 na verdade”. Ele queria safras antigas. Quando o funcionário citou 1997 e 2001, Vorcaro perguntou se não havia nada mais velho e pediu um vinho branco de 1983. Entre os rótulos escolhidos estavam La Tâche, Haut-Brion, Château Mouton Rothschild e Château Cheval Blanc, que podem custar dezenas de milhares de reais cada.
A organização da mesa também foi alvo de observações. Ao ver as latas de caviar beluga já expostas — que, no Brasil, podem custar entre R$ 830 e R$ 4,5 mil cada —, Vorcaro considerou o excesso. “Essas latas de caviar já na mesa não tá deixando muito pomposo, não? Quero almoço espetacular mas sem forçar a barra de aparecer.” O chef o chamou de “príncipe”, pediu que ficasse tranquilo e prometeu levar o caviar apenas na hora. Em seguida, enviou fotos da disposição dos pratos.
Havia ainda uma orientação de etiqueta: o nome do anfitrião não deveria ser mencionado. “Evitar falar nome, até o meu, pra não constranger o convidado principal”, escreveu Vorcaro. A exceção seria caso Moraes perguntasse. Caso contrário, o encontro deveria parecer organizado pelo próprio ministro “perante os demais convidados”.
A recepção durou cerca de quatro horas e meia. Um funcionário que acompanhava o movimento da sala informou que o chef havia posado para uma foto e trocado contato com Moraes. Vorcaro reagiu: “Isso não podia né.” O cozinheiro se explicou, dizendo que não poderia recusar um pedido do ministro. O banqueiro então recuou: “Mas se o ministro que pediu tudo bem. Menos mal.” Ele também autorizou a entrega de caixas de vinho como presente. Ao fim, o chef escreveu “missão dada, missão cumprida” e disse que os convidados estavam “no charuto”. Na foto com Moraes, brincou: “Esse cara está precisando de um abraço. E claro um pouco de caviar com claras e gemas.”
Em janeiro de 2024, no mês seguinte ao almoço, Vorcaro fechou contrato com o escritório de Viviane Barci, mulher do ministro. O acordo previa R$ 131 milhões em três anos por “consultoria estratégica” e foi editado no gabinete do próprio magistrado. Viviane afirma, em nota, que sua atuação como advogada do ex-dono do Master é legal.
Procurados, Moraes, a defesa de Vorcaro e o chef José Maria Meira não se manifestaram.
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