Cinco meses depois de uma visita ao parque de diversões em Vinhedo, no interior paulista, Júlia Bossoni ainda tenta recuperar o controle do lado esquerdo do corpo. Braço e perna não respondem. A fala ficou prejudicada e a memória, irregular. A família atribui o quadro a um passeio na Montezum, a maior montanha-russa de madeira da América Latina. O Ministério Público de São Paulo abriu apuração, solicitou perícia policial no brinquedo e o processo segue em andamento. Paralelamente, os parentes recorrem à Justiça para que uma perícia esclareça as circunstâncias do episódio.
O casal partiu de Londrina, no Paraná, em abril. Júlia e João Pedro Bossoni chegaram cedo ao Hopi Hari e conseguiram lugar entre os primeiros da fila. A atração, inaugurada em 1999, tem cerca de 42 metros de altura, pouco mais de um quilômetro de percurso e chega a 103 km/h. A primeira volta, pela manhã, ocorreu sem intercorrências. Eles ainda aproveitaram uma promoção e receberam passagem VIP. No restante do dia, circularam por outras atrações. No fim da tarde, por volta das 16h30, usaram o direito extra e sentaram nos bancos de trás.
Imagens internas mostram a jovem consciente e calma na subida. Não há registro do restante do trajeto. Dois minutos depois, o trem volta à plataforma. Júlia está desacordada e em convulsão. João Pedro descreveu o momento como de desespero, sem saber o que fazer. Funcionários se aproximaram. Seis minutos após a chegada do carrinho, ela foi colocada em uma maca. A montanha-russa voltou a operar.
O deslocamento foi para a Santa Casa de Vinhedo, a cerca de 15 quilômetros. Diante da gravidade, a equipe encaminhou a paciente direto à UTI. Exames iniciais apontaram hemorragia intracraniana e grande edema cerebral. Foi necessária cirurgia de urgência: uma craniectomia descompressiva, procedimento que retira parte da calota craniana para permitir o inchaço do cérebro. O neurocirurgião Victor Batistela explicou que o objetivo é dar espaço ao órgão nesse processo.
Júlia permaneceu 57 dias internada em Vinhedo. O diagnóstico foi traumatismo cranioencefálico. O laudo do especialista relaciona a lesão a um mecanismo de contragolpe durante o percurso. Segundo a avaliação médica, um movimento brusco de aceleração, desaceleração e rotação do crânio pode romper vasos sanguíneos cerebrais, provocar sangramento interno e gerar edema — o quadro descrito no caso dela. A família afirma que não havia doenças preexistentes.
Desde então, a rotina é de reabilitação intensiva. Já foram sete cirurgias. A mãe, Danielle Rimolli, e João Pedro se revezam nos cuidados. Há fisioterapia três vezes ao dia, três vezes por semana, além de terapia ocupacional e fonoaudiologia diárias. A família pediu que a imagem da jovem em tratamento fosse preservada. João Pedro disse que a única preocupação é vê-la bem, independente, capaz de sorrir, conversar e voltar a ser forte como sempre foi.
O caso não é isolado no histórico da atração. Em 2018, Nathalia Assenjo Motta relatou um estalo no pescoço no momento em que o brinquedo desceu, subiu e fez a curva. Descreveu o movimento como chicote. O corpo, segundo ela, “desligou”. O deslocamento das vértebras exigiu 12 pinos e duas hastes na região cervical. Três dias depois recuperou os movimentos do corpo, mas perdeu a mobilidade do pescoço. O parque pagou indenização por danos materiais. Até hoje ela convive com dores intensas, fisioterapia, hidroterapia particular — o plano não cobre — e medicamentos fortes.
Em 2014, Márcio saiu da Montezum tetraplégico. Houve rompimento de duas vértebras. O advogado João Erhardt afirmou que o problema neurológico que levou à tetraplegia, conforme o laudo, foi o movimento de chicote. Márcio morreu em 2023 por complicações de uma infecção urinária.
Em plataformas de reclamação de consumidores, pelo menos 40 relatos nos últimos dois anos mencionam lesões associadas à mesma atração: dores no pescoço, problemas no joelho e costelas quebradas.
Procurado, o Hopi Hari afirmou que a Montezum possui certificação internacional do grupo TÜV Nord e passa por inspeções anuais, por se tratar de atração radical. Disse seguir a norma nacional ABNT NBR 15926-2023 para equipamentos de parques de diversão, além de protocolos de treinamento e atendimento. Informou que há placas visíveis, avisos sonoros na fila e reforço dos operadores no embarque sobre o caráter radical do brinquedo, as forças envolvidas e as contraindicações para pessoas com problemas de coluna, gestantes e quem tem condições clínicas específicas.
O parque citou parecer do Ministério Público de São Paulo, de agosto de 2026, segundo o qual não haveria risco coletivo, defeito de projeto ou negligência. O documento teria sido emitido após uma mulher ser levada à enfermaria com dores no pescoço em julho. No texto, o órgão teria destacado a regularidade do funcionamento sob a ótica da tutela coletiva da segurança dos consumidores e a adoção de protocolos de prevenção, manutenção e operação. Também mencionou inspeções técnicas diárias na estrutura de madeira, trilhos, fixações, travas, cintos, sensores, painéis e frenagem.
Sobre Júlia, a assessoria afirmou que ela andou duas vezes no mesmo dia — a primeira por volta das 11h e a segunda cerca de cinco horas depois —, recebeu atendimento imediato no ambulatório, foi transferida à Santa Casa e teve as despesas em Vinhedo custeadas. O parque disse ter acompanhado o tratamento, mantido contato com a família e disponibilizado seguro.
Os casos de Nathalia e Márcio, segundo a nota, ocorreram antes de 2019, sob gestão anterior. A atual administração atribui o foco à cultura de segurança dos últimos cinco anos, período em que o parque teria recebido mais de 5,5 milhões de visitantes. Em relação às reclamações online, classificou o número como estatisticamente irrisório diante de cerca de 1,2 milhão de pessoas que teriam passado pela Montezum no mesmo intervalo. De janeiro de 2026 até a divulgação da nota, o parque afirmou ter recebido mais de 870 mil visitantes, dos quais cerca de 470 mil teriam usado a atração, a mais procurada do complexo.
Em janeiro, o Hopi Hari já havia anunciado reforma na montanha-russa prevista para o fim de 2026.
Enquanto a perícia pedida pelo Ministério Público não é concluída e a ação judicial da família tramita, Júlia segue o tratamento longe da rotina que tinha antes da viagem. O que começou como um dia de lazer no interior de São Paulo se transformou em um longo processo de recuperação, investigação e disputa sobre o que exatamente ocorreu nos poucos minutos em que o trem da Montezum deixou de ser apenas um passeio.
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