Jovem perde movimentos após passeio na Montezum

Ministério Público de São Paulo pede perícia na montanha-russa de madeira do Hopi Hari após traumatismo craniano em visitante do Paraná
Por: Brado Redação 21.set.2026 às 08h21
Jovem perde movimentos após passeio na Montezum
Reprodução

Cinco meses depois de uma visita ao parque de diversões em Vinhedo, no interior paulista, Júlia Bossoni ainda tenta recuperar o controle do lado esquerdo do corpo. Braço e perna não respondem. A fala ficou prejudicada e a memória, irregular. A família atribui o quadro a um passeio na Montezum, a maior montanha-russa de madeira da América Latina. O Ministério Público de São Paulo abriu apuração, solicitou perícia policial no brinquedo e o processo segue em andamento. Paralelamente, os parentes recorrem à Justiça para que uma perícia esclareça as circunstâncias do episódio.

O casal partiu de Londrina, no Paraná, em abril. Júlia e João Pedro Bossoni chegaram cedo ao Hopi Hari e conseguiram lugar entre os primeiros da fila. A atração, inaugurada em 1999, tem cerca de 42 metros de altura, pouco mais de um quilômetro de percurso e chega a 103 km/h. A primeira volta, pela manhã, ocorreu sem intercorrências. Eles ainda aproveitaram uma promoção e receberam passagem VIP. No restante do dia, circularam por outras atrações. No fim da tarde, por volta das 16h30, usaram o direito extra e sentaram nos bancos de trás.

Imagens internas mostram a jovem consciente e calma na subida. Não há registro do restante do trajeto. Dois minutos depois, o trem volta à plataforma. Júlia está desacordada e em convulsão. João Pedro descreveu o momento como de desespero, sem saber o que fazer. Funcionários se aproximaram. Seis minutos após a chegada do carrinho, ela foi colocada em uma maca. A montanha-russa voltou a operar.

O deslocamento foi para a Santa Casa de Vinhedo, a cerca de 15 quilômetros. Diante da gravidade, a equipe encaminhou a paciente direto à UTI. Exames iniciais apontaram hemorragia intracraniana e grande edema cerebral. Foi necessária cirurgia de urgência: uma craniectomia descompressiva, procedimento que retira parte da calota craniana para permitir o inchaço do cérebro. O neurocirurgião Victor Batistela explicou que o objetivo é dar espaço ao órgão nesse processo.

Júlia permaneceu 57 dias internada em Vinhedo. O diagnóstico foi traumatismo cranioencefálico. O laudo do especialista relaciona a lesão a um mecanismo de contragolpe durante o percurso. Segundo a avaliação médica, um movimento brusco de aceleração, desaceleração e rotação do crânio pode romper vasos sanguíneos cerebrais, provocar sangramento interno e gerar edema — o quadro descrito no caso dela. A família afirma que não havia doenças preexistentes.

Desde então, a rotina é de reabilitação intensiva. Já foram sete cirurgias. A mãe, Danielle Rimolli, e João Pedro se revezam nos cuidados. Há fisioterapia três vezes ao dia, três vezes por semana, além de terapia ocupacional e fonoaudiologia diárias. A família pediu que a imagem da jovem em tratamento fosse preservada. João Pedro disse que a única preocupação é vê-la bem, independente, capaz de sorrir, conversar e voltar a ser forte como sempre foi.

O caso não é isolado no histórico da atração. Em 2018, Nathalia Assenjo Motta relatou um estalo no pescoço no momento em que o brinquedo desceu, subiu e fez a curva. Descreveu o movimento como chicote. O corpo, segundo ela, “desligou”. O deslocamento das vértebras exigiu 12 pinos e duas hastes na região cervical. Três dias depois recuperou os movimentos do corpo, mas perdeu a mobilidade do pescoço. O parque pagou indenização por danos materiais. Até hoje ela convive com dores intensas, fisioterapia, hidroterapia particular — o plano não cobre — e medicamentos fortes.

Em 2014, Márcio saiu da Montezum tetraplégico. Houve rompimento de duas vértebras. O advogado João Erhardt afirmou que o problema neurológico que levou à tetraplegia, conforme o laudo, foi o movimento de chicote. Márcio morreu em 2023 por complicações de uma infecção urinária.

Em plataformas de reclamação de consumidores, pelo menos 40 relatos nos últimos dois anos mencionam lesões associadas à mesma atração: dores no pescoço, problemas no joelho e costelas quebradas.

Procurado, o Hopi Hari afirmou que a Montezum possui certificação internacional do grupo TÜV Nord e passa por inspeções anuais, por se tratar de atração radical. Disse seguir a norma nacional ABNT NBR 15926-2023 para equipamentos de parques de diversão, além de protocolos de treinamento e atendimento. Informou que há placas visíveis, avisos sonoros na fila e reforço dos operadores no embarque sobre o caráter radical do brinquedo, as forças envolvidas e as contraindicações para pessoas com problemas de coluna, gestantes e quem tem condições clínicas específicas.

O parque citou parecer do Ministério Público de São Paulo, de agosto de 2026, segundo o qual não haveria risco coletivo, defeito de projeto ou negligência. O documento teria sido emitido após uma mulher ser levada à enfermaria com dores no pescoço em julho. No texto, o órgão teria destacado a regularidade do funcionamento sob a ótica da tutela coletiva da segurança dos consumidores e a adoção de protocolos de prevenção, manutenção e operação. Também mencionou inspeções técnicas diárias na estrutura de madeira, trilhos, fixações, travas, cintos, sensores, painéis e frenagem.

Sobre Júlia, a assessoria afirmou que ela andou duas vezes no mesmo dia — a primeira por volta das 11h e a segunda cerca de cinco horas depois —, recebeu atendimento imediato no ambulatório, foi transferida à Santa Casa e teve as despesas em Vinhedo custeadas. O parque disse ter acompanhado o tratamento, mantido contato com a família e disponibilizado seguro.

Os casos de Nathalia e Márcio, segundo a nota, ocorreram antes de 2019, sob gestão anterior. A atual administração atribui o foco à cultura de segurança dos últimos cinco anos, período em que o parque teria recebido mais de 5,5 milhões de visitantes. Em relação às reclamações online, classificou o número como estatisticamente irrisório diante de cerca de 1,2 milhão de pessoas que teriam passado pela Montezum no mesmo intervalo. De janeiro de 2026 até a divulgação da nota, o parque afirmou ter recebido mais de 870 mil visitantes, dos quais cerca de 470 mil teriam usado a atração, a mais procurada do complexo.

Em janeiro, o Hopi Hari já havia anunciado reforma na montanha-russa prevista para o fim de 2026.

Enquanto a perícia pedida pelo Ministério Público não é concluída e a ação judicial da família tramita, Júlia segue o tratamento longe da rotina que tinha antes da viagem. O que começou como um dia de lazer no interior de São Paulo se transformou em um longo processo de recuperação, investigação e disputa sobre o que exatamente ocorreu nos poucos minutos em que o trem da Montezum deixou de ser apenas um passeio.



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